Regina Miranda (Emater/RS-Ascar), Dra. Isabel dos Santos (primeira médica pediatra negra do RS), Mãe Bia da Ilha (líder comunitária da Ilha da Pintada), Luciana Rabello (Pimenta Mimosa), Geísa Soares Faria (coordenação do MAB – Movimento dos Atingidos por Barragens) e Luana Costa (primeira mulher presidente dos Imperadores do Samba) abriram janelas para seus mundos no seminário “Compartilhando Saberes: Mulheres Negras Construindo um Caminho Sustentável”, promovido pela Frente Negra Gaúcha.
Luana Costa contou que cresceu na Imperadores e reconheceu ali sua negritude. Durante a pandemia, vendo a escola sem liderança, juntou-se a amigos para formar a primeira chapa de oposição — com a primeira mulher presidente, a mais jovem, e sem dinheiro para manter a escola. “Tinha gente que dizia que eu não ia conseguir, que eu não sabia nada… mesmo eu tendo passado pela ala das crianças, trabalhado no barracão, sido contadora da escola.”
Foi a formação antirracista que recebeu em casa que lhe deu força para quebrar o estereótipo de que presidente tinha que ser homem e rico. E, em meio às adversidades, fez uma revolução na gestão: quitou dívidas, gerou patrimônio, conquistou dois títulos, buscou soluções sustentáveis, como a reciclagem de latinhas, a venda de fantasias para outras cidades e a instalação de energia solar, que reduziu a conta de luz. “O carnaval é cadeia produtiva, gera empregos, movimenta a cidade. Precisamos ser levados a sério.”
“O carnaval é cadeia produtiva, gera empregos, movimenta a cidade. Precisamos ser levados a sério.”
Luciana Rabello contrariou as estatísticas e fez seu negócio decolar com acessórios autorais e sustentáveis. Começou vendendo para amigas, depois participou de feira no Afrosul Odomodê, com a mãe e a avó ajudando na produção, irmão criando a logomarca e a irmã a página da rede social. Na pandemia, levou os clientes da rede social para o online, repensou processos, transformou tecidos doados em embalagens. “Não trabalho com pronta-entrega para evitar desperdício. Quando alguém diz ‘Lu, vamos tirar o Pimenta da UTI’, eu restauro aquele brinco, o colar, porque sei o valor que ele tem para cada cliente. Parece pequeno, mas é gigante para o meio ambiente.” Hoje, está na loja Tela, em um shopping da capital gaúcha, ao lado de outras marcas autorais. “Essa conquista dá visibilidade ao nosso profissionalismo e ao artesanato local.”
Dra. Isabel dos Santos, com 50 anos de profissão, falou com orgulho dos ancestrais que lhe abriram caminho. Filha de lavadeira e pedreiro, irmã de três, teve o apoio da irmã mais velha para chegar à medicina. “Na família pobre, os mais velhos cuidam dos mais novos. Escolhi medicina e lutei muito.” Hoje, dirige a Aliá, clínica de saúde transdisciplinar e metodologia afrocentrada que atende negros e brancos, mas sempre com o olhar atento para quem o sistema costuma ignorar. O nome faz referência à mãe que agrega, protege e acolhe seus filhotes.
“Esse atendimento que damos — e que todos nós merecemos — também é sustentabilidade. Mesmo que eu esteja atendendo uma criança por um tema específico, as outras profissionais da clínica são chamadas, desde a psicóloga à fisioterapeuta.” A equipe é majoritariamente negra e, desde a entrada, observa as necessidades de cada paciente. Com orgulho, ela celebra: “Começamos com uma mulher negra na medicina. Hoje, somos 150 na faculdade, em todas as especialidades. Nós, a velha guarda, estamos apoiando e nos esforçando para ajudá-las enquanto esse grupo de mulheres está estudando. Não sou política, não sou partidária, mas podemos e precisamos fazer isso.”
“Nós, a velha guarda, estamos apoiando 150 mulheres negras que estão estudando medicina.”
Geísa Soares Faria, da coordenação do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), movimento social que luta pelos direitos das populações impactadas por barragens e por um modelo energético justo e popular, falou com a força de quem defende água, energia e direitos como bens públicos. Compartilhou histórias de mulheres que resistem não apenas às barragens, mas à violência estrutural que essas obras trazem para as comunidades. “Quando uma barragem chega, não é só a água que muda de lugar — é a vida inteira da comunidade. E nós, mulheres, estamos sempre na linha de frente dessa resistência, garantindo comida, cuidando das crianças, mantendo a luta viva.” Sua fala mostrou que justiça ambiental e justiça social caminham juntas.
“Quando uma barragem chega, não é só a água que muda de lugar — é a vida inteira da comunidade.”
Mãe Bia da Ilha começou sua fala com um alerta: “O que estamos dando para os nossos pretos-velhos e exus? Comida contaminada… inclusive a nossa comida.” À frente do Instituto Camélia, inspirado nas mulheres negras que vendiam flores para comprar alforrias, criou kitandas, com a letra k, em referência ao povo preto, para venda de alimentos sem agrotóxicos em periferias. No início, contou com o apoio de comunidades de matriz africana, de mulheres do campo e do Fundo Baobá, que apoia projetos de equidade racial, para oferecer um alimento saudável que as pessoas da periferia pudessem comprar. Fez parceria com cooperativas e realizou palestras para explicar a diferença do que estava sendo vendido.
“Os outros povos não respeitam o tempo da Mãe Terra — tudo é para ontem. E este ‘para ontem’ está nos destruindo.”
O diálogo com a comunidade mostrou que não era só sobre comercializar, mas sobre conscientizar para a importância da alimentação saudável. Hoje são duas kitandas — uma na Vila Jardim e outra nas Ilhas — e, a partir delas, foi possível expandir para um trabalho de saúde da família. “Uma alimentação saudável, sem agrotóxicos, é uma reeducação alimentar. Hoje as pessoas comem os alimentos e dizem: ‘Nossa, essa banana tem gosto de banana’. Porque quem produz de forma sustentável são os negros e os quilombolas. Os outros povos não respeitam o tempo da Mãe Terra — tudo é para ontem. E este ‘para ontem’ está nos destruindo. Nossa saúde está péssima.”
Regina Miranda, extensionista da Emater/RS-Ascar, empresa pública de assistência técnica e extensão rural do Rio Grande do Sul, que atua no desenvolvimento rural sustentável, trouxe para a roda a experiência de quem conhece profundamente a vida no campo e o papel das mulheres negras na produção de alimentos e na preservação ambiental. Falou com ternura e firmeza sobre a força silenciosa de quem planta, colhe e mantém viva a relação de respeito com a terra. “O nosso trabalho não é só plantar e colher. É cuidar da comunidade, ensinar as crianças, partilhar saberes que vieram de longe. Nós estamos na base da sustentabilidade, mas muitas vezes nosso nome não aparece. E, sem a nossa mão, muita coisa não existiria.” Na sua fala, a certeza de que preservar a terra é também preservar histórias, memórias e vidas.
“O nosso trabalho não é só plantar e colher. É cuidar da comunidade, ensinar as crianças, partilhar saberes que vieram de longe. Estamos na base da sustentabilidade.”
O evento fez parte do Julho das Pretas, colocando em evidência que mulheres negras criam mundos em que tudo é possível — e sustentam, com coragem e criatividade, caminhos para um futuro que é de todas nós.
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Paula Martins é associada da Odabá, diretora da Mkt de Causas, que nasce com o propósito de construir uma Comunicação Estratégica para o seu Negócio, a sua Marca ou Projeto Social. (@ppaulamartinss)
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Foto da Capa: Paula Martins

