“Nossa civilização só será salva pela solidariedade.”
Albert Schweitzer (1875-1965) – Teólogo luterano, músico, médico e filósofo.
Segundo o filósofo italiano Giani Vatimo (1936 – ), diante da ciência e da tecnologia do século XXI, já não existe o cristianismo como dogma ou crença considerada como uma verdade única ou como um repertório metafísico de explicações deste e de outros mundos, mas apenas subsistem provas e atos de amor cristão.
A caridade ao outro, próximo ou distante, é a conduta que resiste à onda de secularização que nos avassala desde o final do século XIX.
Um outro filósofo, o alemão Gothold Lessing (1729 – 1781), escreveu:
“Basta que os homens se atenham ao amor cristão, pouco importa o que sucederá à religião cristã”.
Então a pergunta que se faz – e ela não nos surpreende – é se o amor cristão pode realizar-se fora da religião cristã ou melhor explicado: um ateu, se praticar a caridade, pode ser definido como cristão?
As primeiras associações de caridade criadas na Itália foram de origem operária e instituídas com a finalidade precípua de dar enterro cristão aos trabalhadores pobres. Aos poucos, os benefícios foram se alargando até as associações se transformarem nas chamadas SOCIETÁ ITALIANA DI SOCORSO MUTUO, lideradas por anarquistas ateus e dedicadas a prover uma ampla assistência social aos operários e aos seus descendentes, empregados ou desempregados.
São Francisco de Assis (1181-1226) é sempre lembrado como ligado à caridade cristã. Filho de família abastada, despojou-se de tudo para praticar não somente atos caridosos, como também atuar em ações efetivas de solidariedade e de justiça social aos numerosos miseráveis que perambulavam pela Itália. Ele pensava e praticava a caridade não apenas como algumas eventuais doações de parte dos bens supérfluos dos ricos, mas também pregava a caridade mais ampla, o que hoje se chama exatamente de justiça social. Suas regras eram de cunho socioeconômico e distributivas de rendas, as quais assustaram o Papa Inocêncio III ao ponto dele convocar Francisco para explicar melhor suas atuações e intenções.
E ao anunciar o concílio de Latrão IV, Inocêncio III argumentou que “tendo em vista que estes temas afetam todos os fiéis, no referido concílio deveremos discutir a respeito apenas da saúde espiritual das almas, eliminar os vícios, semear a virtude, derrotar as heresias e fortalecer a fé”.
E, provavelmente, São Francisco entendeu a mensagem de seu poderoso superior hierárquico.
A caridade de diversas ordens religiosas permanece até hoje dentro do clero católico, como também em várias ordens protestantes, onde existe um forte sentimento e intensa atuação no sentido da prática da caridade através das lutas sociais e políticas de caráter reivindicatório, cujo objetivo é a maior participação na renda do país para ser destinada à mais ampla parcela da população.
Lamentavelmente, certos autodenominados “pastores” (que, na realidade, “pastoreiam” pobres gentes de nosso país) não concordam e não praticam essas ideias.
É bem verdade que a caridade desperta vários sentimentos em quem a recebe, menos a gratidão, por força da ostentação de quem a pratica. Também é verdade que, para evitar esse tipo de sentimentos, a pregação e a prática da justiça social qualificam nobremente o ato caridoso, que então terá outro nome: o de solidariedade entre os homens, a mesma preconizada por Albert Schweitzer a fim de salvar nossa sociedade da secularidade tecnológica que nos avassala.
Por fim, fico pensando no que disse Fernando Savater, filósofo espanhol contemporâneo:
“Não é que nossa civilização seja tecnológica, é que a tecnologia é nossa civilização.”
Franklin Cunha é médico e membro da Academia Rio-Grandense de Letras.
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