
Sou de uma geração, ou de uma época, em que se escreviam muitas cartas em papel comum de caderno ou em papel específico, que a gente chamava de “papel de carta”. Era a maneira de nos comunicarmos com amigos e familiares distantes. Quando vim morar em Porto Alegre, no início dos anos 1970, não tínhamos telefone. A comunicação se fazia por meio das cartas que colocávamos no correio e demoravam uma semana ou mais para chegar, dependendo do destino. Quando a Marlene, minha irmã, foi para Salvador/Bahia com o nosso primo Júlio, e o objetivo dela era trabalhar e lá ficar por algum tempo, foram inúmeras as cartas que eu e ela trocamos. E era uma emoção abrir a caixa de correspondência do prédio onde morávamos e lá encontrar uma carta que iluminava meu dia.
Quando conseguimos comprar um telefone e ajustar o serviço, foi uma festa. Mas ainda escrevíamos cartas. E muitas! Eu tinha uma gaveta cheia de cartas que recebi ao longo desse tempo. Um dia resolvi dar uma olhada em algumas e acabei rasgando todas para colocar fora. Os assuntos ali comentados interessavam só a mim. Aí inventaram o celular! A comunicação ficou instantânea, mas ficamos totalmente dependentes do aparelho.
Hoje não sabemos mais o que é uma carta escrita à mão, em papel comum, e colocada no correio.
Este assunto veio à tona agora porque, em 2025, ganhei de aniversário “Minhas queridas e outras cartas”, de Clarice Lispector (Editora Rocco), um livro que me surpreendeu muito. Cartas enviadas pela escritora para amigos e, especialmente, para as irmãs Elisa Lispector e Tania Kaufmann no período em que morou fora do Brasil em 1944. Teresa Montero, organizadora da publicação, diz na introdução que o livro “tem o poder de transportar o leitor para um outro tempo”. E assim entramos no tempo de Clarice, “quando as palavras eram saboreadas de outra forma. Tempo em que tudo era mais lento se comparado à velocidade de um computador”.
As cartas revelam as andanças de Clarice pelo mundo, suas emoções na jornada pelo exterior em mais de 15 anos acompanhando o marido diplomata, sua preocupação e o afeto pela família e pelas irmãs, suas amigas inseparáveis, que carregava para onde fosse. No livro estão também cartas que escreveu para os filhos. Foi uma leitura muito instigante porque tomei contato com a intimidade de uma escritora maravilhosa, que sempre levou a família no coração para onde fosse.
Neste ano de 2026, descobri outro livro, “Cartas” – correspondências inéditas trocadas por Érico Veríssimo e Jorge Amado (Cia das Letras) em mais de quatro décadas, que foi lançado em agosto. Dois dos maiores escritores brasileiros do século XX falam sobre literatura, política, afetos, censura, divergências, autoritarismo, intolerância e por aí afora. Comprei e dei de presente para uma amiga que estava de aniversário. Não li ainda, mas ela já me disse que está gostando muito.
É o “poder terapêutico da escrita”, disse recentemente o jornalista Thallys Braga, repórter da Revista Piauí, em uma entrevista sobre o livro “Filho” que escreveu e que despertou a minha curiosidade.
Muitas outras lembranças brotaram. Eu adorava comprar blocos de cartas, entrava madrugada adentro escrevendo para os amigos e ficava torcendo para que respondessem logo. Ler e escrever são caminhos que nos impulsionam para a abertura de outros caminhos, para o entendimento da vida e para seguir livres e confiantes.