
Quem visse minhas redes sociais nos últimos dias certamente diria que Lula estaria eleito com larga vantagem. Era vermelho pra lá, artista declarando voto pra cá e hashtag para tudo quanto é lado. É claro que me uni a tudo isso com a melhor boa vontade, assim como muita gente querida e nem tão querida que conheço. Estava bonito.
Essa é a “magia” do algoritmo: ele sempre está a favor do nosso próprio viés. O que quer dizer que nos intoxica. Essa fantasia fast-food vira o nosso próprio veneno. Temos um mundo de faz-de-conta ao alcance das nossas mãos. O resultado veio domingo, depois das cinco, quando a magia se desmontou e as cinderelas ficaram descalças. Para o Senado, já se esperavam alguns agentes trevosos, mas o Rio Grande do Sul superou as minhas piores expectativas. Em nível nacional, ⅓ da bancada ser do PL é a tragédia mor dessa eleição, qualquer que seja o resultado do pleito presidencial. Pelo menos, com a Câmara, tivemos alguns excelentes e alentadores resultados, como os novos Jones Manoel, Renato Freitas e as combativas Fernanda Melchionna e Érica Hilton. Mas o gosto amargo vem principalmente do segundo lugar de Lula, trazendo essa sensação de que estamos perdidos como militância progressista, como baratas tontas no bafo do raid.
Enfim, nós, do campo progressista, tão bonzinhos que somos, o que temos é boa vontade. Só que não está funcionando, até porque nossa boa vontade poucas vezes ultrapassa as barreiras do nível intelectual e cibernético de ação. E aqui me incluo nisso como autocrítica. O politólogo Miguel Lago disse durante a live do Foro de Teresina neste domingo que o que estamos vivendo é uma revolução. Só que uma revolução da extrema direita. E, segundo ele, o freio para a revolução é a contrarrevolução. O filósofo e psicanalista Vladimir Safatle há algum tempo alerta para algo semelhante. Em um de seus últimos artigos na Carta Capital, Safatle lembra que o rechaço de metade do eleitorado brasileiro a Lula faria com que qualquer outro candidato tivesse um resultado semelhante ao obtido pelo baby Bolsonaro.
Estimulados por esses intelectuais, alguns dirão: “É preciso ir para a base. Agora? Há anos escuto isso e, sinceramente, não sei se alguém foi. Em todo caso, antes tarde do que mais tarde. Mas, enquanto o ir para a base não tiver nada a ver com uma contracultura do capital, não sei se servirá de muito. Na base temos o neopentecostalismo que, honestamente, por mais execrável que seja em vários aspectos, a verdade é que ali eles realmente não soltam a mão de ninguém. E ali eles não te criticam porque você estudou pouco, coisa que nós, intelectuais tão generosos, ainda fazemos com as pessoas.
Nós humilhamos as pessoas que não pensam como nós ao dizer “vai estudar!”. Mas o que sabemos nós sobre as condições de vida que a impediram de estudar? Nos falta certa vontade política, menos paternalista e mais empática. Precisamos negociar essa vontade de ser importantes a qualquer custo com um laço mais coletivo, comunitário e horizontal.
Como disse Lula, agora é uma nova eleição. O que precisa vir de reação terá que ser novo também.
Todos os textos de Priscilla Machado de Souza estão AQUI.
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