Dona Ida mora no sobrado, onde antes havia a oficina de consertos gerais de seu esposo, Max. Depois da morte do marido, em um certo mês de agosto, ela se isolou ainda mais, uma reclusão que se renova sempre que o mês retorna. É possível adivinhar sua sombra espiando pelos postigos das janelas. Eles viviam sós; agora, ela ainda mais. Não sai nem para fazer compras, vivendo dos frutos da horta e do galinheiro. Ela não aceita qualquer ajuda; por um tempo, alguns tentaram deixar um prato de comida envolto em um guardanapo, ou uma fatia de bolo, mas acabaram desistindo. Ela não abre a porta nem para recolher os agrados.
Alguns até se ofendem, mas outros a justificam. É tida como doida. Ficou assim desde que se convenceu de que Max foi envenenado por um vizinho, com uma bacia de uvas que ele lhe presenteara. Segundo ela, esse vizinho era um tipo prepotente que queria se apropriar de suas posses, o sobrado e o terreno.
Com a ventania, mais um ciclone anunciado nesse agosto que se arrasta, eu tento entender Dona Ida. Há períodos em que parece não haver clima para sair. Dá a impressão de que, na vida, não há volta.
“Mas é preciso passar agosto”, diz o velho amigo em meio a acessos de tosse, “quem passa agosto ganha mais um ano.”
Auguste de Saint-Hilaire (1779-1853), o naturalista francês que nos visitou há pouco mais de duzentos anos, já notara, entre outros relatos e observações argutas sobre nossos costumes e tradições, a natureza do clima local, ainda hoje muito pouco civilizado.
Saint-Hilaire ouviu muitas queixas sobre as então recentes secas, ficou ilhado devido a enchentes, bateu o queixo com o frio “de renguear cusco” em Porto Alegre e sofreu com o calorão em São Borja. Viu o teto de sua hospedagem ser levado por um tufão inesperado em Restinga Seca. Pensou que ia morrer, e rezou repetidamente um salmo, quando o veleiro em que viajava foi envolvido pelos ventos da Lagoa dos Patos. Em suas próprias palavras: “Essa Capitania é certamente uma das mais ricas de todo o Brasil e uma das mais bem aquinhoadas pela Natureza.” Mas, ele também notou: “Os ventos, renovando constantemente o ar, fazem com que certas moléstias, tais como as febres intermitentes, sejam aqui inteiramente desconhecidas. As moléstias mais comuns são as doenças do peito e da garganta e os reumatismos, que provêm das contínuas mudanças de temperatura.” É possível afirmar que há controvérsias sobre a origem do reumatismo, mas não sobre o clima e suas mazelas, tanto nos foles ventilatórios quanto no encarangar das juntas dos viventes.
A má fama do mês de agosto é uma mistura de crenças, superstições de diferentes culturas e até mesmo de fatos históricos, alguns bem atuais. Muitas razões explicam sua má reputação, para além do clima local e do trauma de Dona Ida.
Essas raízes são profundas e variadas. No século XVI, as caravelas portuguesas partiam para o mar em agosto, uma época de risco. Para as noivas e esposas, casar nesse mês significava não ter lua de mel e ainda enfrentar a funesta possibilidade de mudar drasticamente de estado civil. Essa crença deu origem ao ditado “casar em agosto traz desgosto”, que evoluiu para “agosto, mês do desgosto”, uma herança dos lusos. Também se diz que é o “mês do cachorro louco”, isso adviria do aumento de casos de raiva canina nesse período. O cio das cadelas, pelo menos entre nós, coincide com o mês, o que aumenta a agitação e a agressividade dos cães machos, provocando brigas e, teoricamente, a transmissão do vírus. No entanto, não há evidências científicas que comprovem esse dado.
Outros países também têm suas superstições. Na Argentina, dizem que lavar a cabeça em agosto pode atrair a morte, o que nos faz pensar que pode não ser gel o que abrilhanta as melenas de determinados dançarinos de tango. Na África, o dia 24 de agosto é conhecido como o “dia em que o Diabo anda solto”.
O fato, coincidência ou não, é que a história guarda acontecimentos traumáticos no Brasil e no mundo, como o início da Primeira Guerra Mundial, as bombas em Hiroshima e Nagasaki, e a perda de figuras importantes, além de sérios eventos políticos, por morte, renúncia e impeachment de presidentes. A combinação de tantos fatores diferentes cria a percepção de que agosto é um mês azarado.
Os romanos também têm sua parcela de culpa. No século I, eles acreditavam que um dragão passeava pelo céu noturno em agosto. O aludido monstro era feito da luz de estrelas, a constelação de Leão, mais visível nessa época do ano.
Agosto tem 31 dias devido a uma decisão do imperador romano Augusto, que quis que seu mês de homenagem, Sextilis (o sexto mês, quando o calendário começava em março, posteriormente renomeado para Augusto), tivesse a mesma duração do mês de julho, em homenagem a Júlio César. Por vaidade, um dia foi retirado de fevereiro. E, para aumentar a aflição dos mortais, agosto não tem nenhum feriado, o que o faz parecer ainda mais interminável.
Apesar de eu ter casado em agosto, não julgo Dona Ida; também espero que o mês passe de uma vez. Há dragões passeando nos céus, pressinto cães raivosos e, percebe-se, o Diabo anda solto. Que bons ventos tragam “viração”. Em setembro, Dona Ida escancara as janelas do sobrado e aguarda o retorno da primavera.
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Foto da Capa: Gerada por IA.

