Estou encerrando a série sobre os diversos desdobramentos a partir da obra de Dan Brown. Quero salientar que a receita dos seus thrillers de suspense nos faz mergulhar organicamente para dentro de seus livros, aguçamos nossas sinapses. Isso acontece porque o autor elabora sua ficção de tal forma embrenhada por fatos, pessoas, símbolos e lugares reais, tudo tão bem documentado, que o leitor se transporta, passa a ter uma sensação de que aquilo faz sentido, que pode ser – ou realmente é – verdade.
Na tradicional descrição do que é FATO, sempre na página inicial dos seus livros, Dan esclarece que as organizações mencionadas existem de verdade, assim como as obras de arte, artefatos, símbolos, documentos, experimentos, tecnologias e resultados científicos são todos fiéis à realidade. Até o seu editor e amigo na vida real, Jason Kaufman, é também o editor de Katherine Solomon em O segredo final. Assim como a editora da cientista é a mesma sua, Penguin Random House, que igualmente estabeleceu medidas de segurança e sigilo para o manuscrito dela – as editoras e os tradutores dos livros de Dan Brown pelo mundo trabalham em absoluto sigilo, regidos por cláusulas de confidencialidade rigorosas para evitar vazamentos antes da data oficial de lançamento dos livros, de forma simultânea em todos os países.
As cidades e seus locais escolhidos contribuem definitivamente; são como personagens de capital importância nas tramas. É impossível não se envolver pela atmosfera dos ambientes. E os lugares que você não conhece, sente-se compelido a visitá-los. Depois de ler Origem, não sosseguei enquanto não fui a Bilbao conhecer o Museu Guggenheim. Pronta para seguir os passos do professor Langdon no espaço do artista Richard Serra, ao entrar, precisei parar. Fui dominada pela aura mágica e fiquei reverenciando os deuses do metal e da gravidade, que permitiram tal desacato aos cinco sentidos humanos. As gigantescas esculturas em aço, sustentadas apenas por suas próprias curvas, com absolutamente nada que as prenda ao chão, são a genialidade do cálculo – seria inacreditável se não estivessem lá de verdade. Embrenhar-se nos labirintos que se afunilam impõe um duro embate com nosso senso de realidade. Onde estamos? No túnel do tempo? O céu (teto) vai cair sobre nossas cabeças? E há desenhos surgindo nas lâminas de Richard Serra, as mesmas árvores de galhos finos secos que vi pela janela do trem ao cruzarmos a Espanha, de Barcelona a Bilbao. Só pode ser um vínculo alienígena, divino – eu nunca quis tanto desenhar alguma coisa como aquilo. Agora, logicamente, já estou planejando minha viagem para visitar a Sinagoga Velha-Nova e o antigo gueto de Josefov, em Praga.
Os mitos e símbolos que Dan usa em profusão prestam outra contribuição determinante às tramas, nos envolvendo, nos devolvendo à riqueza desse universo. Afloram sem fazermos esforço, pois já estão lá, são inerentes ao nosso Ser; é só baixar a guarda do convencionado em nossas mentes e deixar fluir. Assim como os ritos religiosos, a maior expressão humana desde que nos levantamos sobre as patas traseiras. Dos aprimorados funerais no Paleolítico ao renascimento do sacral em nossos dias.
Joseph Campbell, reconhecido estudioso dos mitos e religiões das civilizações, escreveu em O Herói de Mil Faces (Editora Pensamento, 1993) que não seria demais considerar o mito a abertura secreta através da qual as inexauríveis energias do cosmos penetram nas manifestações culturais humanas. “As religiões, filosofias, artes, formas sociais do homem primitivo e histórico, descobertas fundamentais da ciência e da tecnologia e os próprios sonhos que nos povoam o sono surgem do círculo básico e mágico do mito. O prodígio reside no fato de a eficácia característica, no sentido de tocar e inspirar profundos centros criativos, estar manifesta no mais despretensioso conto de fadas narrado para fazer a criança dormir da mesma forma como o sabor do oceano se manifesta numa gota ou todo o mistério da vida num ovo de pulga.” A questão é que os símbolos da mitologia não são fabricados; não podem ser ordenados, inventados ou permanentemente suprimidos. Esses símbolos são produções espontâneas da psique e cada um deles traz em si, intacto, o poder criador de sua fonte, conforme Campbell.
Estamos nos (re)conetando ao divino, sem mais precisar da bengala tirânica dos dogmas religiosos. Alinhamos com Baruch Espinoza, o “príncipe dos filósofos”, que já nos abrira as portas do Paraíso, no século XVII, ao afirmar Deus sive Natura – Deus não criou a natureza, pois ambos são a mesma substância; tudo o que existe, da matéria aos pensamentos, é expressão da essência divina. Hoje são inúmeros filósofos, cientistas, escritores e pensadores de diversas áreas a documentar essa relação, como o cultuado filósofo coreano Byung-Chul Han, com Louvor à Terra, uma viagem ao jardim (Editora Vozes, 2021), e o sociólogo francês Michel Maffesoli, com A palavra do silêncio (Palas Athena, 2019) e A nostalgia do sagrado (PUCPRess, 2024).
Se for fato que Dan Brown encerrou a trajetória do professor de Harvard, Robert Langdon, como noticiado por alguns veículos de imprensa, e atentando à simbologia do número 9, arrisco o palpite de que Dan prepara algo novo e importante com a música. Afinal, sua inclinação musical é genuína e voltou a pulsar com força na Sinfonia selvagem. O psicólogo e pianista Robert Jordain pondera que, além das melodias bonitas, há questões candentes, tanto da musicologia quanto da neurociência, que começam a fazer surgir uma nova concepção da mente humana. No livro Music, the Brain, and Ecstasy: How Music Captures Our Imagination (William Morrow & Co, 1997), ele diz que “a música pode nos abalar até o mais fundo do nosso Ser e, de alguma forma, nos falar como as palavras não são capazes de fazer. Inevitavelmente, surge a pergunta: quem, ou o que se emociona com esses sons?”
Talvez Dan componha uma nova sinfonia para o Maestro Mouse, contemplando outros animais, como um coelho… Não sai da minha cabeça a cena de Matrix em que Neo é convidado a seguir o coelho branco para encontrar a verdade solapada pela realidade simulada – jornada que tem paralelo à de Alice no País das Maravilhas, em que a menina segue o coelho branco para resgatar a magia que nos pertence e, naquele século XIX da razão exacerbada pela Revolução Industrial, nos estava sendo roubada. De qualquer forma, seja lá o que for que Dan Brown irá fazer, certamente será cativante e terá propósito, isso é do seu Ser.
SÉRIE NA NETFLIX
A plataforma de streaming Netflix venceu a concorrência e adquiriu os direitos de adaptação de The Secret of Secrets para uma série de TV, tendo o próprio Dan Brown como roteirista e produtor executivo e Carlton Cuse (de Lost e Jack Ryan) como showrunner, função que combina as responsabilidades de roteirista-chefe, produtor executivo e diretor de produção, sendo mais comum em produções americanas. Previsão de estreia para 2026.
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Foto da Capa: Ouroboro / Ilustração de autor desconhecido / Wikipedia

