Sentir os pelos do braço se arrepiarem quando escuta uma música que ressoa nas entranhas. Ter borboletas no estômago quando vai encontrar a pessoa por quem está apaixonado. Mergulhar nas águas do mar e deixar o corpo fluir com seu balanço. Pisar na grama molhada de sereno. Olhar bem no fundo dos olhos de quem você mais ama no mundo. Chorar ao ver uma paisagem absolutamente surreal depois de uma trilha de horas. Rir até doer a mandíbula. Ter consciência da finitude da vida e escolher como navegar. Sentir prazer. Sentir amor. Sentir.
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O termo “inteligência artificial” surgiu nos Estados Unidos, numa conferência na universidade de Dartmouth, em 1956, onde seus participantes acreditavam que construiriam máquinas pensantes em uma ou duas décadas. Quase setenta anos depois, temos sistemas que fazem coisas impressionantes, mas nenhum que pense de verdade. Talvez devêssemos ter chamado o campo de “automação cognitiva” ou “processamento avançado de informações”, nomes menos empolgantes, certamente, mas mais honestos sobre o que essa ferramenta realmente faz.
Porque o que ela faz, sejamos francos, é automatizar tarefas cognitivas específicas. E isso é, sem dúvidas, valioso, útil e transformador. Sistemas de IA já dirigem carros, diagnosticam doenças, recomendam produtos, filtram spam, traduzem idiomas. São poderosas ferramentas que, nos últimos anos, vêm mudando como vivemos. Mas ferramentas não pensam. Martelos não entendem de carpintaria. Calculadoras não compreendem matemática. E sistemas de IA, por mais sofisticados que sejam, não entendem os problemas que resolvem, não têm consciência.
E como podemos saber se algo é consciente? Nem sequer sabemos se outros humanos são — só temos acesso direto à nossa própria experiência subjetiva. Inferimos consciência nos outros porque eles se comportam como nós, têm cérebros como os nossos, pertencem à mesma espécie e interagem como se fossem.
Um sistema que identifica gatos em fotos processou milhões de imagens e aprendeu correlações estatísticas entre pixels. Mas não tem a menor ideia do que é um gato. Não sabe que gatos miam, ronronam, dormem muito, pedem carinho. Não sabe que algumas pessoas são alérgicas a gatos, que gatos eram adorados no Egito antigo, que gatos caem sempre de pé (eu mesma, quando era criança, já fiz esse teste muitas vezes). Todo esse conhecimento contextual, essa rede de significados que torna “gato” um conceito rico e conectado ao resto do mundo, simplesmente não existe para a máquina. Ela detecta padrões. Não compreende nada.
Mas claro que o termo “inteligência artificial” vende muito mais, e ainda mascara os grandes problemas da automação — o maior deles sendo a substituição em massa de empregadores por máquinas. A Amazon, a segunda maior empregadora dos Estados Unidos, planeja automatizar todo o seu negócio até 2033, o que pode implicar no desaparecimento de 600 mil postos de trabalho. Em 2025, foram 30 mil despedimentos, sem nenhuma conversa sobre reposicionamento de mercado, ou para onde vão essas pessoas.
Acho que o perigo real da “inteligência artificial” não é ela se tornar consciente, como muitos filmes de ficção científica apostam. É esquecermos que nós, sim, somos conscientes e naturalizarmos um mundo onde eficiência vale mais que experiência, onde produtividade importa mais que propósito, onde algoritmos decidem quem merece trabalhar e quem não. E aí, quando percebermos, teremos construído uma sociedade tão automatizada, tão otimizada, tão produtiva, tão “inteligente”, que não sobrará espaço para o que realmente nos torna humanos: a capacidade de sentir.
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Foto da Capa: Canva

