Domingo passei grande parte da tarde toda tomada por um novo hobby para o qual nunca me considerei minimamente capaz, ainda que o tenha feito na adolescência, movida pela paixão da minha geração por agendas, que, à medida que o ano passava, iam engordando vertiginosamente. Tudo culpa das inúmeras recordações de um dia especial, uma embalagem que lembraria um lanche especial, o ingresso de papel de algum show, mil bilhetes trocados com colegas de sala que por vezes acabam grudados nas páginas daquele diário secreto. Os stories da minha adolescência eram as páginas da minha agenda. Agora viraram essa nova mania linda de fazer colagens.
A arte da colagem nasce do gesto de reunir fragmentos, restos, pedaços de outras histórias, materiais encontrados, para produzir algo novo. Ela é feita tanto de escolha quanto de acaso, de controle ou surpresa. Ao olhar uma colagem, é possível perceber camadas que convivem sem se fundir completamente. O recorte continua sendo recorte, a sobreposição nunca apaga totalmente o que está por baixo. Nesse sentido, ela é uma metáfora poderosa para pensar a vida e a psicanálise, meus temas mais recorrentes por aqui.
Viver é colecionar fragmentos. Guardamos cenas, vozes, afetos, palavras que nos marcaram. Há pedaços que escolhemos manter e outros que se impõem apesar de nós. Nem tudo se encaixa perfeitamente, e é aí que a vida ganha textura. Somos feitos das colagens que herdamos, das que desprezamos, do que repetimos sem saber, do que reinventamos conscientemente. No meu processo do domingo, em muitos momentos percebi ter dificuldade de fazer a montagem, eleger quais dos recortes que eu tão cuidadosamente havia selecionado seriam escolhidos para cada composição. Eu sabia que estaria passando uma mensagem ainda que apenas por uma simultaneidade de imagens e palavras soltas. Seria eu bem lida? Ou, como na literatura, cada um lerá nas colagens seus recortes internos?
Na clínica psicanalítica, a colagem poderia ser comparada à forma pela qual o inconsciente trabalha. O sonho, material tão precioso a nós, psicanalistas, nada mais é do que uma montagem: uma sucessão ou amontoamento de cenas condensadas, pedaços de dias e vivências diferentes, marcas psíquicas e imagens que não conviveriam na vida consciente e desperta, mas que se justapõem para expressar algo essencial. A transferência também é um tipo de colagem, em que o paciente toma elementos do passado e os cola, sem perceber, na figura do analista. Cada sessão é uma tentativa de organizar essa montagem psíquica. O analista escuta para ajudar o paciente a perceber que certos recortes (memórias, fantasias, repetições) foram colados sem uma escolha consciente, e que talvez possa ser possível reposicioná-los. O trabalho analítico não elimina os fragmentos, mas permite uma nova composição, menos rígida, mais orgânica e autoral.
Assim, a colagem ensina que fragmento não é falta, mas possibilidade. O pedaço arrancado de seu contexto inicial jamais volta a ser o mesmo: ao ganhar nova vizinhança, adquire um sentido inesperado. Da mesma forma, na análise, aquilo que parecia apenas resto, algo que não fazia sentido, pode se transformar em elemento central para a construção de uma nova narrativa.
A vida, como a colagem, é feita de encontros improváveis. E a psicanálise, como uma outra arte, oferece o espaço para que o sujeito examine seus materiais internos, escolha o que deseja manter, o que precisa deslocar, o que já pode ser deixado de lado. Imagens que vinha guardando sem nem saber o porquê, já que não combinam com nenhuma das outras que foi colhendo ao longo da vida. O certo é que não há colagem final: há sempre a possibilidade de novas combinações. Ainda que depois de colado, seja bem difícil refazer sem rasgar. Aliás, saber colar com maestria é coisa que se aprende com o tempo e errando: cola demais empapa, podendo até rasgar a página. Cola de menos solta as pontas.
No fim das contas (ou das colas), a colagem nos lembra que somos feitos de descontinuidades e isso é o que conta do que somos feitos: de restos e, ainda assim, a partir delas contar uma vida inteira. Eu poderia passar horas elegendo imagens, palavras; outras horas recortando, escolhendo o tipo de corte que pode tornar cada imagem o mais interessante possível. Serei óbvia, metafórica, ou completamente desconexa?
Não sei. Minhas colagens que falem por mim.
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Foto da Capa: Colagem da Autora.

