Eu sempre amei andar.
Amo observar,
descobrir
lugares
cheiros
coisas
que só na velocidade do caminhar é possível.
4 km/h
Nessa escala de movimento nada se oculta
cidade desnuda,
verdade crua
sem filtros
exposta
Tenho preguiça até de tirar o carro da garagem.
Dirigir revela o pior das pessoas,
falta de paciência
xingamento
infração.
Ficar no congestionamento,
ultrapassagem,
distância.
Morar longe
tem compensações que não compreendo.
Bom entendo uma delas,
a velocidade que desconecta
60 km/h
cenário rápido, de irrealidades
que leva apenas
onde é bom
estar
Atualmente prefiro a bicicleta.
sentimento construído em mim,
por Porto Alegre e pela desigualdade.
Eu descobri a escala da velocidade intermediária.
15 km/h
Provavelmente uma proteção
que me permite ver sem vivenciar,
circular sem ouvir, enfim
Só mente
perceber
o caos
A velocidade dos tempos…
É ela quem manda.
Este é um poema manifesto: quer provocar reflexão sobre nossa cidade, nossa forma de agir, de pensar e de nos mover. Os espaços que frequentamos, os trajetos cotidianos, o modo como nos deslocamos e até mesmo vestimos — tudo é condicionado pela forma urbana e pela estrutura social que nos envolve.
As cidades são laboratórios de aprendizagem permanente. Nelas criamos mecanismos de controle e proteção, códigos de convivência que se estabelecem quase de maneira involuntária, moldados pela percepção ambiental. Cada estímulo afeta nossos sentidos; a experiência urbana nasce do espaço vivido. Mesmo quando acreditamos agir de maneira autônoma, nossas escolhas são direcionadas, influenciadas por elementos urbanos.
O poema usa a mobilidade como lente, mas a reflexão se aplica a outras dimensões da vida urbana: aos espaços que frequentamos, aos serviços a que temos acesso, às interações que evitamos ou permitimos. A cidade nos atravessa e nos condiciona, muitas vezes sem perceber.
Na cidade, a desigualdade é uma protagonista silenciosa do cotidiano. Ela molda trajetórias, limita encontros e reorganiza a vida urbana para evitar confrontos e realidades incômodas. Habitamos essa normalização: pagamos o preço diariamente, mesmo que os “juros” da exclusão sejam cada vez mais altos. O mais inquietante é que só a consideramos intolerável quando nos atinge diretamente. Por isso é importante que nos toque.
A desigualdade só deixará de crescer quando estivermos dispostos a enxergá-la e enfrentá-la.
A pergunta fica no ar: teremos coragem de romper essa velocidade automática ou nos manteremos em eterna utopia?
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Foto da Capa: Freepik

