Aqui, nos meus confins subjetivos, vacilo ao lidar com os fins objetivos do trabalho intelectual. São as minhas imprecisas impressões com o uso indiscriminado da palavra luta. Vivemos um belicismo tão entranhado, tão esgarçado – e, tristemente, tão instagramável – que, com o perdão por mais um inversinho, reluto em usar a palavra luta. Quando é assim, uma boa resistência, para mim, tem sido torcer o fio da palavra para outros lados. Luta é uma palavra que ainda utilizo, mas que, por vezes, me intriga mais do que veicula meu dizer.
Nesse contexto, quando se fala em “luta antirracista”, temo que se pareça a algo do contemporâneo, momentâneo como uma moda. Afinal, as lutas parecem ter o seu apogeu, o seu início, meio e fim. No entanto, há mostras suficientes de que ruir a estrutura do racismo passa por revirar a linguagem não apenas de agora, mas também do passado. Trabalho incessante e que não parece combinar com uma luta, a não ser que possamos chamá-la de eterna luta, o que me parece desalentador.
Prefiro pensar que estamos musculando, que estamos exercitando outras formas de sustentação que desobedeçam à lógica capitalista e racista de sempre. Entre lutadora sacrificial e desobediente obstinada, creio preferir a segunda pecha. Indagar a linguagem e as estruturas que a sustentam e que, ao mesmo tempo, ela sustenta é uma desobediência programática necessária. Não consigo dar mais crédito à retórica da luta, na medida em que ela sempre pressupõe a manutenção da inimizade em algum nível. E, nesse caso, a inimizade é, para mim, dar crédito demais ao racismo e aos racistas. A essa altura do campeonato, não me importo com racistas, me importo com as pessoas que sofrem racismo.
É difícil articular esse pensamento nessas poucas linhas, mas, honestamente, dar luta ao racista, por vezes, é alimentá-lo. Deixo a frase para ressoar na leitura e conto minha preferência. Prefiro jogar toda a luz possível nas produções das pessoas negras, especialmente naquelas que trazem o seu olhar negro na construção de novas possibilidades de mundo; que o “desocidentam”.
É assim que o livro Também existem os tambores: outras gramáticas entre racialidade e psicanálise (Discurso, 2025), da querida amiga, a escritora e psicanalista Taiasmin Ohnmacht me atravessa. A autora não se furta de propor uma outra coisa. É que já não se trata de mais um lugarzinho negro no universo branco. E sim, de abrir e escancarar as nossas potencialidades. É isto o que habilita a criação de uma psicanálise efetivamente brasileira e, portanto, muito escura – já que somos um país forjado no estupro de mulheres negras e indígenas, mas também nas encruzilhadas das religiões afro-indígena-diaspóricas. No tambor, na sabedoria cabocla e de exú, no gingado do jogo de cintura da vida, da capoeira e do samba. É a poesia desenquadrando e dando um jogo de corpo na gramática. É deixar um pouco de lado esse eurocentrismo que tantas vezes nos deixa com cara de bobas, vestindo uma roupa que não nos cai bem.
Em tempo: dentro de alguns dias subo no avião para estar de perto em um novo lançamento desse livro maravilhoso. Taiasmin chamou a talentosíssima Eliane Marques e a mim para conversar sobre o livro, literatura e psicanálise na livraria Baleia, dia 28/6, às 18h. Não perde!
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Foto da Capa: Helosa Araújo / Divulgação

