Indignação sem ação é só parte do espetáculo.
Josué Alves
Durante 5 anos, trabalhei como psicóloga na Política de Assistência Social de um município da região metropolitana de Porto Alegre. Lá atendi muito público em situação de vulnerabilidade social e entrei em contato com diferentes tipos de violências, entre as quais, a ausência do Estado. Talvez a maior de todas.
É que não evoluímos tanto como humanidade para prescindir dessa regulação. Infelizmente. Em meio a tantas pessoas que realmente só necessitavam de uma oportunidade, encontrei uma parcela significativa cujo adoecimento psíquico pelo abandono do estado – entre outros – só me indicava o papel fundamental das políticas públicas. A falácia do neoliberalismo é tentar te dizer que não; que tudo é possível com força de vontade e o famoso “empreendimento de si”. Que o Estado tolhe a tua liberdade. Enfim. Basta uma lupa média e você logo se dá conta de que todos os que chegaram lá obtiveram um bom incentivo do Estado, quer em financiamento, quer em isenção de impostos. Sem falar de estruturas como estradas, água etc. Pergunte quem são os maiores devedores de água. Com certeza, não é lá na vila, onde o saneamento básico quase nem chega.
Como trabalhadora com imposto retido na fonte, fui a presença do Estado em situações de fome, de evasão escolar, de violência de gênero, de abuso infantil, pedofilia e outras misérias. Exercício delicado, porque a presença estatal não é sinônimo de presença policial. Estive com muitas mães com crianças de colo para tentar me sensibilizar e sempre as entendi. Isso nunca será possível de comparar a uma deputada, de tiara de flores, que leva à câmara sua bebê de quatro meses como escudo humano para defender golpista e família golpista. Pobre da bebê! E que necessidade tão grande de certas mulheres de defender macho escroto! Estamos tão adoecidas de patriarcado que há mulheres que ainda não se importam muito com outras mulheres, qualquer que seja a idade.
Paralelamente, mas relacionado, eclodem dados alarmantes do aumento da violência contra a mulher. Basta ver os números do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025. Eclodem números de feminicídio no Rio Grande do Sul, se emolduram cenas de tentativas de feminicídio nos elevadores do país. Temos este resíduo nefasto do bolsonarismo: essa autorização discursiva para objetificar e descartar as mulheres. Além disso, é verdade que os red pills e os incels estão fazendo um “bom trabalho”, neste sentido. A Netflix já mostrou com o seriado Adolescência algumas das consequências dessa discursividade.
Para essa circunstância, a ausência do Estado nas redes sociais também cumpre um papel fundamental. Neste último final de semana, muitos se espantaram com o conteúdo exposto pelo influenciador Felca sobre adultização e exploração sexual nas redes sociais. Meninas rebolam sem saber o que rebolar representa, são vulnerabilizadas enquanto geram muito lucro para as Big Techs. Ai, que saudades da Playboy, tão inocente.
Gosto dos homens, gosto da internet e gosto cada vez mais de nós, mulheres. No entanto, ainda me pergunto: como curar nossa descartabilidade? Como sair desse ciclo de espetáculos e dessa indignação sem uma digna ação?
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Foto da Capa: Reprodução do Youtube.

