É bastante conhecido o dístico do Oráculo de Delfos, na Grécia antiga: “Conhece-te a ti mesmo!”, e que Sócrates tomou como uma das divisas de sua vida especulativa. A exigência do autoconhecimento não é algo muito simples: supõe que nossa “interioridade”, nosso “eu”, pode ser transparente à nossa consciência – uma consciência que examina a si própria, juíza e ré – e que tal exame pode ter uma incidência sobre nossas vidas práticas. Quanto mais e melhor nos conhecemos, mais eticamente conduziríamos nossa existência.
Esta autoinvestigação levou tanto Agostinho como Rousseau (com objetivos diferentes) a escreverem um tipo de gênero literário um pouco incomum para suas respectivas épocas: Confissões. O primeiro expondo sua vida para o encontro e o julgamento de Deus, o segundo para o julgamento dos Homens. Se eles conseguiram praticar a “sinceridade” que almejavam, é outra história! Bem mais tarde, Freud mostrou que tudo isto – esta transparência do Eu ao próprio Eu – era uma ficção: o inconsciente, com suas pulsões, estava situado numa esfera inacessível e só através dos sonhos, dos chistes ou da associação de ideias poderíamos vislumbrar nosso lado obscuro.
Eu discordo de tudo isto! Meu médico. Dr. Iran Costa, elevada figura humana e renomado oncologista, há, pelo menos, 15 anos investiga de tal maneira e com tal profundidade minha “interioridade” que, tenho certeza, consegui realizar a exigência délfica por vias insuspeitáveis: tomografia computadorizada, endoscopia, colonoscopia, toque retal, raio-X, ecografia, pet-scan, ultrassonografia, exames de sangue, de urina, de fezes…, que faço a cada semestre que, creio, meu “interior” aparece ali com a transparência que nenhuma filosofia da autenticidade poderia proporcionar. Meus colegas dirão que interior fisiológico não é o self (termo preferido pela pedantocracia universitária). Besteira: tenho muito mais prazer e satisfação em ouvir do Dr. Iran, que eu estou bem e que meus órgãos continuam funcionando, pelo menos ainda por algum tempo, do que teria ao receber de Sócrates ou de Freud a confirmação de que meu “eu” é fragmentário e tudo o que eu penso a respeito de “identidade subjetiva” não passa de uma quimera. Fico com Dr. Iran, que, ao menos, me garante que, com órgãos funcionando a contento, eu posso até me dedicar ao ócio filosófico ou à vida especulativa. O contrário é que seria difícil. Afinal, como diria qualquer nietzscheano debochado: primeiro comer, depois filosofar!
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Foto da Capa: Gerada por IA.

