Pode ser num dia de muita tristeza, naqueles que nada parece dar certo, e um/a amigo/a te liga e te convida para sair, almoçar, ir ao cinema, vocês topam com uma festa junina e, olha que bacana, ainda dançam, cantam, e você chega de alma limpa em casa.
Pode ser quase por acaso, você está caminhando e manda um whats para outro/a amigo/a e combina de se encontrar no parque com ele/a ao final da caminhada. Tomar um sol, colocar a conversa em dia, observar as pessoas e a Natureza.
Pode ser de uma emergência, o/a amigo/a te liga enquanto você está faxinando a casa, perguntando se você tem tempo, se tem algum programa, se pode ir pra tua casa e você sente a urgência. Ao chegar, vocês sentam ao sol, começam conversando bobagens, amenidades, até que o/a amigo/a sente vontade de contar por que está ali, aliviar-se, e vai embora.
Pode ser um reencontro depois de muitos e muitos anos com aquela pessoa na família, regado a chimarrão e bolo, colocando os assuntos em dia, comparando as mágoas e as traições sofridas ao longo da vida, espelhando as experiências passadas e presentes, e assim ressignificando.
Pode ser um convite de última hora para uma viagem entre amigos/as que, mesmo sem poder, você aceita, pois já aprendeu que certas coisas não se negam quando aparecem, não têm preço a uma certa altura da vida.
Pode ser num dia em que você planejava comer sobras, mas o/a filho/a manda um whats perguntando se pode almoçar contigo e você responde que sim e vai pra cozinha descobrir o que tem na geladeira e no armário pra poder fazer de última hora, e durante o almoço vocês riem, brincam, choram, se consolam, se abraçam.
Pode ser por whats com aquele/a amigo/a que é difícil de se encontrar pessoalmente, mas que te dá abertura, escuta e caminhos para tuas questões mais íntimas.
Pode ser coletivamente, em grupo de leitura, por exemplo, quando a gente mastiga o que leu por meio de outros olhares, pensamentos, refletindo os nossos sentimentos, emoções, valores, motivações, linkando com a nossa própria vida, criando essa grande rede coletiva de apoio.
Pode ser casual, mas que te dá a certeza da vida corriqueira, civilizada, amigável, como com o porteiro com quem diariamente aposta sobre a temperatura ou o resultado do jogo, a funcionária do prédio com quem conversa a respeito da família, o segurança do supermercado sobre quem já sabe a cidade de origem, os proprietários das bancas da feira ecológica com quem você troca conversas sobre seus produtos, as pessoas em situação de rua que se espalham com quem bate papo a cada vez que encontra.
Pode ser íntimo, com o convite do companheiro/a para te fazer uma massagem naquele dia que você está cansada/o, escutando sobre o teu dia, dando colo, dizendo que tudo passa e fazendo o jantar para vocês com uma bela taça de vinho. Terminando, quem sabe, dormindo de conchinha.
São essas tessituras que dão cor à vida. Elas fazem parte e constroem a nossa Saúde Social.
Semana passada, a Organização Mundial da Saúde – OMS lançou um relatório em que divulgou estudos relatando que a Saúde Social é tão importante quanto a Saúde Física e a Mental. Que estas três dimensões de saúde guardam uma conexão estreita entre si.
A desconexão social pode causar problemas cardíacos, acidentes vasculares cerebrais, depressão e ansiedade. E, entre 2013 e 2024, uma em cada seis pessoas afirmou que se sentia sozinha. Entre 2014 e 2019, 871.000 pessoas morreram ao ano por conta da solidão.
O que é conexão social
A conexão social tem três dimensões principais, são elas:
1. Estrutura: refere-se ao número de pessoas que se conhecem e à frequência com que se conversa com elas, presencialmente ou digitalmente. Dos mais variados tipos de relações, familiares, de amizades, de trabalho, etc.
2. Função: se refere ao tipo de apoio. Pode ser que sejam para apoio prático, de trabalho, ou para apoio emocional. Por exemplo: alguém que podemos chamar quando precisamos de ajuda para uma mudança no apto e alguém quando estamos tristes e precisando de consolo.
3. Qualidade: refere-se a como essas relações nos fazem sentir, de maneira confortável ou estressada, ansiosa. Não adianta ter muitas amizades se elas nos fazem sentir aflitas.
Passar tempo demais nas redes, mesmo que fazendo conexões sociais, não é o mais benéfico, por isso o formato presencial é sempre o mais indicado.
O que é a desconexão social
Quando uma pessoa não tem suficiente contato social, não se sente apoiada pelos contatos sociais que possui ou quando suas relações sociais são tensas, negativas, diz-se que há desconexão social. Essa desconexão pode adotar duas diferentes formas:
Solidão: se produz quando as relações não se ajustam ao que a pessoa quer ou ao que necessita. Desenvolve-se um sentimento doloroso. Real. De maneira que a pessoa pode estar rodeada de gente e, mesmo assim, se sentir só. Ela pode possuir amizades, mas não se sentir apoiada ou compreendida.
Toda pessoa pode se sentir só em algum momento da vida, por uma mudança de cidade, perda de emprego, perda de companheiro/a. Porém, a persistência desse sentimento pode se tornar um problema.
Isolamento Social: tem a ver mais com a quantidade de conexões sociais ou com a frequência. Por exemplo, alguém que não tem muitas relações sociais, vive sozinho ou que encontra poucas pessoas na sua vida cotidianamente.
Uma pessoa pode estar isolada, porém não se sentir sozinha. Mas há pessoas que este isolamento, com o passar do tempo, pode vir a prejudicá-las.
Os mais solitários no mundo
Conforme o relatório da OMS sobre Conexão Social, os jovens (de 13 a 29 anos) são os mais solitários. Entre 17% e 21% da população global relatam sentir-se solitários, com os níveis mais altos entre os adolescentes, porque estão ansiosos para formar conexões sociais mais amplas e próximas durante um período da vida repleto de mudanças.
A seguir, as pessoas em países mais pobres também se sentem mais solitárias. Cerca de 24% da população em países de baixa renda se sente solitária. Em países mais ricos, esse número é menor, em torno de 11%. E aqui a gente percebe o fator da desigualdade de renda, pois a explicação está na pobreza que limita o tempo e o local para conhecer outras pessoas, dificultando a construção de relacionamentos fortes.
Os mais isolados socialmente no mundo
A OMS relata que, apesar de não existirem muitas pesquisas sobre isolamento social ainda, os números disponíveis são preocupantes. Até um em cada três idosos vive em isolamento social (1990-2022).
No caso dos adolescentes, aproximadamente um em cada quatro relata estar em isolamento social (2003-2018).
Este é um assunto sério, atravessa todas as fases de nossa vida, não é papo de velho. É conversa para toda a sociedade.
Para a próxima coluna, vamos adiante e abordar as causas, os efeitos e as medidas para debelar este que é e será um dos grandes problemas da nossa sociedade.
Aqui, vale lembrar o Estudo de Harvard, iniciado em 1938 e o mais longo no mundo a respeito de bem-estar e saúde, que apontou justamente que o fator chave para a felicidade e longevidade com qualidade são as conexões sociais com bons vínculos. Elas são a alavanca das outras dimensões de saúde aqui apresentadas, a Física e a Mental. Explicada de uma maneira muito simples, mas não menos verdadeira, a Saúde Social é a saúde vinda do amor. Bora tentar?
Todos os textos de Karen Farias estão AQUI.
Foto da Capa: Gerada por IA.

