Há tempos me chama a atenção a quantidade de vídeos nas redes sociais contendo o alerta antecipado: conteúdo sensível. A ideia é sinalizar algo neles que poderá causar desconforto e os ditos gatilhos emocionais em quem assisti-los. São de todas as ordens: agressões, violência, acidentes, tragédias. Quase sempre que o alerta de conteúdo sensível aparece, eu tento seguir sem assistir, mas confesso que sucumbo à tentação por muitas vezes; os vídeos são sempre exibidos até o momento exato do acontecimento dito sensível. O segundo da colisão, o momento do tiro, da queda. Porque o ser humano quer e não quer assistir à tragédia do outro. Não quer porque esse outro também sou eu e poderia facilmente ser, e por isso foge. E ao mesmo tempo quer, justamente porque esse outro é outro que não eu. A equação é sutil e, nessa fresta da vulnerabilidade humana em tudo que ela tem de mais genuíno, aproveita-se da sensibilidade para lucrar. A angústia que nos empurra para esses cantos sombrios não é apenas curiosidade: é um nó antigo entre medo e desejo, uma tentativa de entender o que nos ameaça observando-o à distância segura de uma tela.
Quando deslizamos o dedo e encontramos imagens de tragédia ou relatos crus, há um impulso contraditório. De um lado, a repulsa que nos lembra da finitude, da fragilidade; do outro, a sensação perversa de controle e de enxergar o horror como quem checa as notícias, como quem coleciona provas de que o mundo é, afinal, imprevisível. É um ritual moderno: olhamos para confirmar que nada do que já vivemos será tão incompreensível quanto aquilo. Ver é, para muitos, uma forma de se prevenir contra a surpresa.
Mas essa curiosidade traz peso. Ao consumir dor alheia como entretenimento involuntário, corroemos a empatia: tornamo-nos espectadores anestesiados. Há também a ilusão de entendimento fácil e de pensar que, ao ver a cena, compreendemos suas causas e consequências. O real, no entanto, permanece mais denso e resistente do que qualquer vídeo ou manchete. A imagem captura um instante, enquanto a história inteira exige tempo, escuta e presença, coisas que a rolagem rápida não permite.
Ainda assim, sabe-se também que a atração pelo proibido pode ser uma busca por sentido, uma maneira torta de confrontar a própria vulnerabilidade. Talvez, ao encarar o que dói, tentemos preparar e fortalecer nosso psiquismo. O perigo está quando a exposição vira hábito, quando a tragédia se torna pano de fundo constante e a alma se acostuma ao tom cinza das más notícias.
No fim, há uma escolha cotidiana: consumir com consciência ou consumir por impulso. Parar, perguntar quem sofre ali e se há algo que possamos fazer. Do contrário, tanto conteúdo sensível vai deixando-nos cada vez mais insensíveis.
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Foto da Capa: Arte Sler

