Ao falar da onda nostálgica que andou tomando conta das redes tentando resgatar o ano de 2016, acabei pesquisando algumas coisas do início deste século que já completou sua primeira quadra (estou velho) e me peguei surpreso ao lembrar de algumas tendências que vieram e se foram. Tipo, vocês se lembram de quando parecia que todos os caminhos passavam de algum modo pelo Afeganistão? Digamos que o século XXI foi verdadeiramente inaugurado “à sombra das Torres Ausentes”, para usar o título de um belo livro em que Art Spiegelman, o mesmo artista criador de Maus, compilou uma série de curtas histórias em quadrinhos falando sobre os atentados de 11 de Setembro de 2001, o que ele viu e viveu no dia dos ataques (Spiegelman nasceu na Suécia, para onde seus pais haviam se transferido após sobreviverem ao Holocausto, mas logo a família se mudou para NY e lá ele foi criado e reside até hoje, então sua perspectiva do tema é visceral).
Apesar de a maioria dos atacantes da Al-Qaeda no 11 de setembro ser de muçulmanos sauditas, os EUA preferiram mirar seus canhões no Afeganistão, onde não só o Talibã havia posto em marcha um regime teocrático de arrepiante autoritarismo desde o fim dos anos 1990 como, dizia-se, estava escondido o próprio Osama bin Laden, mentor dos ataques – a recusa do Talibã de extraditá-lo foi retaliada com uma invasão pelos Estados Unidos em outubro daquele mesmo 2001.
De uma hora para outra, parecia que toda a imprensa ocidental tinha interesse no Afeganistão: no processo que o levou a ser um dos países mais pobres do mundo, nas diferentes etnias que formavam sua população (as principais sendo pashtuns, tadjiques, hazaras e uzbeques, e por ter passado seis meses como editor e tradutor na editoria de Mundo na sequência dos atentados, eu sequer precisei olhar no Google para me lembrar disso), no seu histórico inacreditável de invasões estrangeiras (a mais recente, a da União Soviética, ainda era fresca na memória. Curiosamente, na época, os EUA financiaram com dinheiro e armamentos os mujahedins que mais tarde seriam a base do Talibã inimigo). Isso teve repercussões também na indústria cultural – ainda quando a invasão estava em curso, o filme Caminho para Kandahar, dirigido por Mohsen Makhmalbaf e estrelado por Nelofer Pazira, obteve uma bilheteria além da que seria de se esperar de um filme com essa temática se houvesse sido lançado menos de dois anos antes.
Febre “de Cabul”
Na literatura, o marco deflagrador desse interesse geral tem nome: Khaled Hosseini, um médico afegão radicado na Califórnia e autor do best-seller de absoluto sucesso daqueles anos: O Caçador de Pipas (Nova Fronteira, tradução de Maria Helena Rouanet). Lançado em 2003, tornou-se um imediato sucesso editorial em vários países do mundo. Repetiu o fenômeno aqui no Brasil, onde foi o responsável por uma irritante “avalanche Cabul” que dominou as livrarias nos anos subsequentes, com editoras nacionais garimpando o que podiam sobre o tema. Nesse pacote, valia a pena a boa reportagem da jornalista norueguesa Äsne Seierstad, O Livreiro de Cabul (2006). O livro também gerou Eu sou o livreiro de Cabul (2007), no qual o patriarca retratado por Äsne em seu livro, Shah Muhammad Rais, contava seu lado da história – que eu me lembre, o livro foi publicado pela mesma editora do original na Noruega como forma de evitar um processo (aqui no Brasil, foram lançados por dois selos diferentes do mesmo conglomerado: Record e Bertrand Brasil).
Curiosamente, suspeito que O Livreiro de Cabul foi lançado ou fez sucesso primeiro em Portugal, o que explicaria por que o livro de Hosseini ganhou lá com os tugas o título O Menino de Cabul. Algumas outras coisas que também surgiram decidindo pegar carona no mesmo tema quente do noticiário internacional não tinham estofo para sobreviver ao tempo, como O Salão de Beleza de Cabul.
Nós étnicos
Quanto ao Caçador… propriamente dito, uma das pedras angulares do romance, apesar de seu apelo universalista, centra-se em uma questão muito específica do Afeganistão em particular: antipatias étnicas. Na colcha de retalhos étnica que mencionei lá no início, a etnia predominante no país é a dos Patanes, ou Pashtuns – daí saíram a elite dominante, os talibãs e a antiga família real. Há também uzbeques, tajiques, turcomanos e a etnia minoritária e discriminada dos hazaras, vítimas de um massacre étnico durante o governo do Talibã.
Nessa rede demográfica, é possível compreender esse primeiro nó dramático do romance de Hosseini e como essa especificidade se conecta com um cenário mais amplo. O caçador de pipas é dividido em três partes, todas narradas em primeira pessoa por Amir. Na primeira seção do livro, ele é um garoto pashtun órfão de mãe, filho de um audacioso e rico comerciante – uma figura, aliás, impossivelmente idealizada, parte da elite econômica pashtun, mas de posições políticas independentes e de uma generosidade peculiar (claro, todo rico é assim, sabemos). A primeira parte do livro retrata a infância de Amir, nos anos 1970, na mansão de seu pai, em Cabul, retratada como uma capital colorida e aberta às influências do ocidente. Em um casebre nos fundos da mesma casa, vive outro menino, também sem mãe: Hassan, um garoto hazara, filho do empregado Ali.
Embora Amir e Hassan brinquem juntos como melhores amigos, essa amizade é ilusória, mesmo que as próprias crianças não pareçam perceber. Quando Amir, o filho do dono da casa, acorda, Hassan já está em pé há tempos para servir-lhe o café e passar sua roupa. Enquanto Amir vai à escola, Hassan trabalha e não sabe ler. Mesmo a orfandade que os une assume feições diferentes. A mãe de Amir morreu no parto. A de Hassan abandonou o pai e saiu pelo mundo, algo muito mal visto em uma sociedade árabe e motivo para falatórios. Mesmo com esse aparente abismo, é o leal Hassan quem, com fidelidade desconcertante, defende seu companheiro de infância (na verdade seu “patrãozinho”) contra as crueldades dos garotos da vizinhança, com uma coragem que o ambíguo Amir mais inveja do que admira. A valentia de Hassan eleva o garoto a um status perante os olhos do pai de Amir, do qual este último se ressente.
Amir e Hassan são também uma ótima dupla quando se trata de empinar pipas, tradição afegã e símbolo múltiplo na trama do livro: as pipas são emblema tanto da inocência de Amir e de Hassan, que será perdida irreparavelmente após um ato de violência e covardia ao fim de um festival de pipas tradicional em Cabul, quanto do país, já que o colorido das pipas no céu será substituído pelo vazio arenoso do regime Talibã na terceira parte do livro. E, ao fim da história, a pipa é uma forma encontrada pelo Amir, já adulto, para devolver um pouco de vida a uma criança que sofreu no Talibã. Uma tentativa de resgatar a infância violada.
Mas voltando ao livro. Ainda na infância de Amir, no inverno de 1975, no torneio de pipas já mencionado, o personagem saboreia seu maior triunfo, e também sua derrota mais torpe para si mesmo. Posto em situação de defender seu amigo de uma brutalidade praticada por Assef, um cruel garoto da vizinhança, Amir prefere fingir que não vê o amigo em apuros. Depois, silencia para ocultar sua vergonha. O remorso pela falta de coragem vai envenenar de tal forma o relacionamento de ambos que Amir vai tramar a demissão do empregado e de seu filho. Encerra-se nesse ponto a primeira parte do romance.
Altos e baixos
Só muitos anos depois, já casado e exilado nos Estados Unidos, Amir vai ter a oportunidade de buscar a redenção para sua covardia. A maneira como Hosseini delineia o caráter ambíguo, ciumento e amedrontado de Amir em comparação com o bravo e servil Hassan quando ambos são crianças garante ao livro seus melhores momentos. Hassan, rebaixado a uma condição inferior por causa de sua etnia, não guarda rancor do status privilegiado de seu amo e amigo, e o defende em mais de uma ocasião. Já Amir, ressentido por Hassan ter muitas das qualidades que ele gostaria de possuir para ganhar a afeição do pai, muitas vezes humilha intelectualmente o amigo, lembrando-o constantemente de sua condição de analfabeto ou explicando erradamente o significado de palavras difíceis que o garoto ignora, por exemplo.
Também são preciosas as descrições dos costumes e tradições afegãos e as sutis pinceladas que ambientam a complexa situação política do país ao longo das quase três décadas de história. Nesse ponto, contudo, sempre tive uma implicância com a tradução de Maria Helena Rouanet, feita a partir do original inglês. Sei lá por quê, ela opta por transliterar palavras do árabe e do persa que Hosseini espalha pelo livro usando uma grafia que se ampara, sem motivo algum, na pronúncia da língua inglesa, caso de noor em vez de “nur”, por exemplo, para o termo “luz”.
Tendo falado tanto de um livro que eu li há mais de vinte anos, talvez eu esteja provocando em vocês a impressão equivocada de que eu amei O caçador de pipas. Um pouco sim, mas muitas vezes não, e a verdade é que esse foi um livro que me ganhou e me perdeu muitas vezes ao longo da leitura. Para falar diretamente, cheguei bem perto de grudar o exemplar na parede ao longo do terceiro ato, que flagra o retorno do Amir adulto ao seu país, agora governado pela mão de ferro radical do Talibã. A narrativa aí se acelera – e os problemas se avolumam. Hosseini reserva para o fim uma série de reviravoltas e coincidências que tornam a narrativa quase um vaudeville árabe e mudam os rumos da busca de Amir por redenção. O problema é que esses giros da trama, demarcados páginas ou capítulos antes por sinais nada sutis, são clichês previsíveis, melodramáticos e sentimentalóides.
Redenção forçada
O caçador de pipas virou também um filme na época, e o curioso é que, ao escrever este último trecho que vocês leram, eu me lembrei foi de Quentin Tarantino, que não tem nada a ver nem com o livro nem com a adaptação. Tarantino lançou um romance que conta parcialmente a mesma história que ele havia apresentado em Era uma vez em Hollywood. É um romance um tanto desconjuntado e que prova que Tarantino, embora seja um bom construtor de diálogos, ainda tem que ralar muito para conseguir vencer a parte mecânica mais básica de como avançar além deles e construir uma história. Mas, a certa altura, Tarantino apresentou uma única frase poderosa. Ao abordar a paixão do dublê Cliff Booth (o personagem do Brad Pitt no filme) por filmes japoneses e europeus, o livro conta que a descoberta daquele tipo de cinema foi um choque para o personagem porque, segundo ele, era como ler um livro – livros não se importam se você gosta ou não do personagem principal.
Bem, não todos os livros. Claramente, Hosseini (como muitos autores de best-sellers que ganham o mundo por um tempo e depois somem) se importa. Ele precisa dar um jeito de que o livro termine com um grande gesto que ofereça ao protagonista uma segunda chance para provar que a covardia de seus atos na infância não o define, mas ao fazer isso, a exuberância emotiva que o livro havia construído com sutileza se perde em nome de uma necessidade do autor de “redimir” a culpa de Amir – anulando a chance de fazer dele um dos personagens verdadeiramente complexo e único.
Na época, eu escrevia um blog de literatura que até chegava a mais leitores do que coisas que eu faço hoje (o que me leva a achar que o algoritmo dos tech bros contemporâneos e suas exigências de pagamento arruinaram a internet). Acho que só me incomodei menos ao escrever uma opinião parecida com essa quando falei mal de Harry Potter. Apontei, na época, entre outras coisas, que a correria de ação à la Rambo do final de O caçador… me parecia inverossímil comparada com o resto do livro e recebi vários e-mails indignados tentando me convencer de que exigir verossimilhança de um livro era errado (confundindo claramente “verossimilhança” com “realismo”), algo que apontei em algumas vezes que achei que valia a pena responder.
Não sei por onde anda Hosseini agora. Deve ainda ser lido por muitos, mas seu tempo sob o sol passou, seus livros saíram de moda e eu não o acho um escritor assim tão bom para ser resgatado daqui a algumas décadas. Ele costuma ser, claro, melhor que a média dos best-sellers sazonais que dominaram o panorama desde os anos 1970: Sidney Sheldon, Heinz Konsalik, Harold Robbins, Dan Brown, ou outro que surgiu para a fama no início do século, Nicholas Sparks.
Mas talvez eu esteja sendo meio injusto, porque claramente O caçador de pipas soube construir algo que Hosseini teve dificuldade em repetir em livros seguintes. A cidade do sol eu não li. O silêncio das montanhas, seu terceiro romance, eu sei que li e resenhei para o jornal, mas à parte o fato de que a história gira em torno de um casal de irmãos separados quando a irmã menor é “vendida” para uma família europeia, não me lembro de mais muita coisa – ao contrário de O Caçador, sobre o qual acabei de escrever uma coluna inteira apenas de memória…
Todos os textos de Carlos André Moreira estão AQUI.
Foto da Capa: Divulgação

