Atualmente, um exército (figurativa e literalmente) de pessoas que comungam do ideário de extrema direita se autoelogiam, atribuindo a si mesmos a qualidade de críticos. O referido termo já se passa como aquele que significaria “acusador de defeitos”. E, sua atuação, a crítica, denotaria a capacidade de apontar defeitos e falhas. Isto posto, explica-se o porquê de até um deputado neofascista, um religioso oportunista ou um apresentador sensacionalista poderem, por essa definição corrente, tentar se passar como “um cara crítico”.
Então… No que residiria a criticidade do crítico e de sua crítica?
Para responder, vamos voltar lá para o Iluminismo e lembrar o que talvez seja o momento de legitimação do termo. Nos finais do Sec. XVIII, Imannuel Kant lança seus dois grandes clássicos Crítica (KRITIK) da Razão Pura e Crítica (KRITIK) da Razão Prática, consolidando o que muitos chamam de o método crítico-kantiano de especulação filosófica. Neste método, a Kritik (Crítica) consiste em dois momentos: o da analítica e o da dialética, que não é ainda aquela formulação notória com Hegel. Grosso modo, o momento da analítica consistiria na decomposição e exame de determinadas ideias correntes; e o momento da dialética trataria de apontar conceitos que dessem conta das condições de possibilidade para se superar as anomias e contradições expostas na analítica.
Assim, a criticidade da crítica e, por conseguinte, do crítico, não residia no mero apontar falhas, mas no especular sobre as contradições inerentes a um aspecto da realidade (nada é perfeito, toda efetividade na vida em sociedade tem algum nível de ambiguidade) e sinalizar alternativas que dialoguem com a própria realidade. O crítico aqui não é aquele que, desde o lugar de suas crenças e dogmas, gira sua metralhadora moral sobre os que não lhe são iguais. A crítica começa suspendendo e criticando os pressupostos primeiros do próprio crítico: Kant empreendeu magníficos esforços para analisar e examinar aquelas que foram suas primeiras convicções filosóficas, esforço que coincide com o que ele mesmo chamou de “despertar do sono dogmático”.
Tempos atrás, o papel da crítica era comumente atribuído a um ator social característico: o Intelectual, cuja performance lhe conferia certa aura de rebeldia. Pois, diferente do clérigo, cujo discurso se assenta sobre o moralmente institucionalizado, e do cientista, que se volta para o grupo dos que detêm conhecimento especializado, o Intelectual cumpria o papel social de provocar as contradições subjacentes ao que comumente se tinha por aceito.
Todavia, acredita-se que, devido às transformações sociais vivenciadas desde meados do século passado, testemunharíamos hoje o desaparecimento do Intelectual: consequentemente, da crítica elaborada. Dentre outros fatores, o avanço dos meios de comunicação em massa acarretou a multiplicidade de vozes e expressões narrativas, pulverizando o lugar público que antes fora ocupado pelos intelectuais. Neste sentido, é importante também lembrar das considerações de Bourdieu (Sobre a Televisão. Ed. Jorge Zahar – 1997) e sua crítica ao fast-thinking enquanto o túmulo do intelectual perscrutador. Porquanto, do modo como faz com as demais expressões da cultura (a literatura, o cinema e a dança), a indústria cultural utiliza-se da forma “intelectual” e a transforma em entretenimento: o intelectual foi transformado no fast-thinking, o animador “intelectualizado” de noticiários e programas de auditório. Sendo com muito pesar que constatamos que o progresso da comunicação digital aligeirou e banalizou ainda mais o fast-thinking: agora, o fugaz influencer.
Mas nem tudo está perdido: essas mesmas tecnologias digitais possibilitam uma maior circulação do texto escrito, uma maior propagação da crônica e a reinvenção do intelectual/escritor. Contudo, sempre ronda a ameaça de que, mesmo reconhecendo sua natureza de texto curto (porém perspicaz), o ambiente high-tech e os novos modos de consumo abreviem o que era crônica em fugacidades e reinventem o que era escritor em fast-writer.
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