Já expliquei algumas vezes aqui que o antissemitismo, aquele irredutível e sorrateiro preconceito de 4 mil anos, traveste-se ao sabor dos contextos. Revestiu-se de religioso quando o que pegava era acusar os judeus pela fé diferente; depois foi “científico” ao lhes atribuir defeitos de raça (o caso clássico do nazismo); e mais adiante, quando enfim esse povo tão perseguido, segregado e castigado conseguiu se reinstalar no seu comprovadamente legítimo e altamente necessário pequeno lar ancestral, deixou de ser uma questão racial para se tornar política, negando esse direito indiscutivelmente legítimo e chegando ao absurdo da tentativa de apagamento identitário.
É interessante que variam as formas, mas a essência se mantém, indo do “comedor de criancinhas” a “assassinos malvados de palestinos indefesos”; do “povo que quer dominar o mundo” ao “aliado do imperialismo expansionista ianque” (sempre vale lembrar que o social-democrata Israel ressurgiu com forte apoio do bloco socialista na Guerra Fria, mas depois as circunstâncias e o petróleo reviraram o jogo).
Agora quero pontuar as peculiaridades dos antissemitas do século 21, ou seja, o “antissemitas 2.0”. Para se banharem de suposto verniz humanista, esses racistas (sabemos que biologicamente raça entre humanos não existe; logo, o racismo pode se dar pela cor da pele ou pela origem étnica) criaram a expressão “antissionismo”, um conjunto de teorias que se contorcem pra justificar a absurda negação ao lar ancestral judaico (também vale aqui a ressalva de que defender a existência do Estado judeu -sionismo- não implica ser “expansionista” e contra o Estado árabe vizinho a este, conhecido como Palestina, que se instalaria numa parte daquela região que já foi Judeia e, depois, exatamente a partir da expulsão dos judeus para a diáspora, virou “Palestina”, numa referência provocativa aos antigos e já inexistentes filisteus, mas essa também é outra história).
Enfim, vamos pontuar num decálogo o perfil do antissemita 2.0.
(obs: este texto foi motivado por um post, que vi no Facebook, de um jovem completamente tomado pela narrativa antissemita travestida de intelectualidade falsamente humanista. Evidentemente, o bloqueei. No post genocida, aparecia a “Palestina do rio ao mar”, com os nomes de todas as cidades em árabe e a explicação: assim seria a Palestina sem o “imperialismo” e o “sionismo”. Como curo a dor provocada por tamanho absurdo, por tamanha violência e apagamento? Escrevendo)
1 ) Se ofende: o cara fala os maiores absurdos. Ignora a dor que tu trazes de outras gerações, o trauma transgeracional que arde, o histórico familiar de perseguições e segregações, as perdas, muitas vezes próximas, provocadas pelo recente pogrom do 7/10/2023. Desdenha do fato de que parte da tua família sucumbiu a inquisições, dos pogroms que os expurgaram de onde emigraram, do Holocausto e de tantos outros horrores. Diante da tua reclamação mais que procedente, o sujeito fecha a cara e diz que está sendo ofendido quando acusado de antissemitismo. Ou seja, inverte completamente a discussão. É o vitimário que vira vítima! E isso tem sido muito comum. A ponto de ter um atentado antissemita violentíssimo na Austrália e culparem os judeus, Israel, o sionismo e o Mossad (!). Vivi uma situação muito peculiar quando um conhecido intelectual da aldeia reclamou da minha indignação. Recomendou, em tom de xingamento e depreciativo, que eu me tratasse (procurasse ajuda na psicoterapia). Dois problemas sérios aí, que demolem ainda mais o suposto humanismo do sujeito. Primeiro, não é demérito recorrer à psicoterapia. E respondi que ele tinha razão. Diante de tanto sofrimento, tanta dor provocada pelo preconceito, a busca de ajuda é uma bela opção. Quase agradeci ao ogro revestido de intelectual humanista.
2 ) Nega seletivamente o lugar de fala de uma minoria: quando tu dizes, com muita propriedade, que negar o direito do povo judeu ao necessário, urgente e extremamente legítimo Estado judaico (poucos países no mundo são tão legítimos) é ser antissemita, o cara nega. Aí tu usas um argumento comum, corrente e correto na esquerda pra alegar que a definição de antissemitismo deve ser feita pelos judeus, mas o cara, excepcionalmente, nega o conceito do “lugar de fala”, consagrado pela ótima filósofa negra Djamila Ribeiro. Ah, é ele quem define o que é antissemitismo?! Não diga! Negar a única referência territorial do povo judeu, uma conquista enorme contida na refundação de Israel em 1948, pra ele, é algo normal. Mas não é, não. É de uma maldade e uma ignorância descomunais.
3 ) Utiliza-se seletivamente de uma estratégia que rejeita quando vem da extrema direita, que é a toketinação: aí, surge uma figura abjeta, um oportunista fantasiado de intelectual, jornalista dogmático (deveria ser uma contradição), que, brandindo sua identidade judaica (única vez na vida em que faz isso), ofende os judeus, demoniza Israel, vilaniza o sionismo (ou seja, o cara é um tarado: assume a identidade de judeu pra demolir os judeus). E, “ops, temos aqui um judeu antissionista”, dizem os antissemitas salivando de prazer! Tokenizam ultraortodoxos delirantes e extremamente minoritários (minoria dentro de minoria) que são contra a existência de Israel porque Israel só pode existir depois da vinda do Messias, e… “opa! Aqui tem outro judeu que odeia judeu”. E o utiliza como o racista que usa o “negro bom” e é acusado, pelos mesmos antissemitas de uma esquerda bovina citados acima, de estar “tokenizando”. Concordo. Mas com judeu vale?
4 ) Usa verniz intelectual pra sustentar a própria maldade: o cara ignora os quilos de informações límpidas que tu colocas na frente dele e mantém uma narrativa distorciva pra comprovar o dogma antissemita (“antissionista”), dando-lhe caráter acadêmico, intelectual e até humanista. Torna-se perversamente convincente. E o mais sorrateiro nisso é que a narrativa do cara tem lógica, só que se vale de omissões sobre fatos essenciais que a derrubariam tijolo a tijolo. Pra esses caras, quando tu dizes que o primeiro país a reconhecer Israel foi a União Soviética e que foi o bloco socialista (Tchecoslováquia) quem armou Israel na primeira guerra contra os países árabes que rejeitaram a partilha de dois Estados (árabe e judeu), ele pigarrea, mas continua acusando o “sionismo” de ser “imperialista”. Não adianta nem o fato de que Israel só quer existir e ocupou terras pra se defender.
5 ) Busca argumentos “acadêmicos” pra repetir os mesmíssimos preconceitos de sempre, só que repaginados pra tentar ajustá-los ao mundo da informação acessível e da imagem (falsa) de racionalidade: o judeu é acusado dos mesmos elementos de 4 mil anos, só que com outro embrulho. Muda a semântica. E a impossibilidade comprovada de eliminar fisicamente leva à adoção da eliminação identitária. O antissemita travestido de antissionista usa os mais diversos e absurdos argumentos pra desqualificar o judeu como grupo étnico (e assim desqualificar também Israel). Tu esfregas o dicionário na cara da figura pra mostrar o que é etnia, mas o cretino tenta apagar tudo, ignora o hebraico como idioma comum, diz que o iídiche (mistura de alemão com elementos do hebraico pra sobreviver na diáspora, algo muito usual pra imigrantes) não é semita, questiona a comprovada origem comum dos judeus, faz pouco caso da cultura, da tradição e dos hábitos, busca um grupo que muito supostamente se converteu ao judaísmo no século 8 (os judeus foram expulsos da Judeia, renomeada como “Palestina” pelo império romano, no ano 135 dC, espalhando-se por Ásia, África e Europa. Isso teria ocorrido no século 8, há 13 séculos. Ok! E se for verdade? Qual o problema de haver alguma miscigenação? Os exames de DNA são objetivamente reveladores sobre o vínculo ashkenazi com sua origem)… tenta de tudo, e isso é exasperante.
6 ) Risca a palavra “empatia” do seu dicionário: os absurdos vistos acima machucam muito. Qualquer pessoa lúcida e sensível enxerga isso. Mas não o racista, o homofóbico e o antissemita. Pra esses caras, sejam de direita ou de esquerda, pôr-se nos sapatos do outro pode até ser uma preocupação, mas só em tese, só na retórica chique de sedizentes humanistas. E, sobretudo, seletivamente. Tem casos muito menos graves, contra negros, homossexuais e mulheres, que justificam revoltas, protestos e passeatas. Contra os judeus, as ofensas mais extremadas são normalizadas, porque xingar judeus é mainstream.
7 ) Não põe na prática, seletivamente, as teorias que grita nas esquinas e nos palanques: esse item tem elementos em comum com o dito aí em cima. Mas vou retomar uma seletividade perniciosa dita ainda antes. O jornalista judeu tokenizado (lembram do item 3?) é ateu. Pense nisso e acompanhe o meu raciocínio lógico: se o cara desconstrói criminosamente o judeu como grupo étnico pra tentar a deslegitimação de Israel, então ele não deveria se dizer, porque, segundo ele, o judaísmo é só uma religião. Mas o pior é que o patife, em parte, está correto, o que estabelece uma completa incorreção. O judeu pode se dizer ateu, ser espírita etc. Mas nunca deixa de ser judeu. Se um cristão faz o mesmo, deixa de ser cristão. Por que essa diferença? Porque o judeu é um povo, um grupo étnico-religioso; o cristianismo é uma religião. Ou seja, o tal jornalista se assume como judeu só pra agredir, desconstruir, deslegitimar, depreciar… os judeus! O cara é um monstro!
8 ) Medidas diferentes em relação a outras minorias: já falamos sobre isso, mas aproveito este item pra contar uma situação que vivi algumas vezes. Uma pessoa me “acusa” de radical (sim, nesse assunto, muito em especial, sou radical) e pede que eu dialogue com quem “pensa” diferente. Ora, vamos ao grão. Não estamos falando de “polarização política” ou ideologia. Nada disso! Estamos falando de racismo antissemita. Não peçam a um negro que dialogue com racistas.
9 ) Silêncio: como dói. É o amigo que alega ser um debate ideológico (!) pra não se envolver. Ou diz que não entende de religião (!). O mesmo cara não entende do sofrimento de outras minorias por sua identidade, mas aí se envolve. Por quê? Porque é bacana, é mainstream. Rende tapinhas nas costas. O gigante Martin Luther King, grande amigo dos judeus, dizia duas frases importantíssimas. Uma era a de que o que mais doía era o silêncio dos “inocentes”. A outra, dita lá nos anos 1960, era que o antissemitismo voltaria a assombrar a humanidade, mas na forma de “antissionismo”. Martin era king!
10) Invisibilidade: é o sentimento que nos invade e nos corrói por dentro diante de tantos absurdos repetidos séculos após séculos (peço que leiam o meu texto mais acessado em 2025, que fala justamente sobre esse apagamento). A nossa geração se assusta, porque via os relatos dos nossos antepassados como muito distantes, com aparência de ficção, por mais que soubéssemos ser verdadeiros. Nos anos mais recentes, em especial depois do praticamente ignorado e devastador pogrom do 7/10, aquilo tudo entrou no nosso cotidiano. A sensação é de impotência, sofrimento, desamparo e muita invisibilidade. Rola aquele lance que os meus avós tanto falavam de não saber em quem poderiam acreditar. Parece um pesadelo. Mas temos sempre os “justos entre as nações”, não judeus que nos entendem. Recorro a essas pessoas com alguma frequência. Cito uma: o publisher da SLER, o queridíssimo Luiz Fernando Moraes, que me dá esse espaço pra gritar a nossa dor. Digo sempre pra ele a gratidão que sinto, porque reconheço o real valor.
PS: não grito sozinho. Peço que procurem nas redes o que andam falando pessoas incríveis como o Matheus Alexandre, o Nelson Asnis, o Bruno Bimbi (assessor do ex-deputado Jean Wyllys, que se viu obrigado a deixar o PSOL porque batia de frente com os antissionistas), o André Lajst. Por favor, a nossa verdadeira e melhor arma sempre foi a palavra. “Povo do livro”, não? Abram os olhos e nos ajudem a acordar desse pesadelo que temos vivido num revival da mais antiga ignorância!
…
Que falta vou sentir do Volmar!
Depois de escrever sobre pessoas tão ruins, vou falar sobre um anjo que subiu ao céu na última segunda-feira. Poucos sabem, mas aquele ser generoso e querido que era o Volmar Santos tinha viés trabalhista. Por muitos anos militou no PDT e era fã do Brizola, mas sempre com muita independência intelectual, própria de uma alma livre. Era um social-democrata desprovido de dogmas e preconceitos. Não comecei a minha coluna por ele porque, merecidamente, muitas homenagens já foram feitas e muito já foi falado. Mas, como autor de “Coligay, Tricolor e de todas as cores”, o livro que resgata a sua história, devo e quero abordar o legado do meu amigo também neste espaço (já o fiz nas redes sociais durante a semana).

As nossas conversas eram frequentes desde que o conheci, ao decidir contar a história da inédita e na verdade ainda única (se levarmos em conta só os clubes grandes, de massa) torcida LGBT Coligay, que vejo como uma linda página da história gremista tanto quanto os corintianos veem a “democracia corintiana” como uma linda página da sua história. Ambas são as grandes manifestações políticas contra a opressão do regime militar. E convenhamos que defender a democracia e enfrentar a homofobia continuam sendo lutas legítimas e muito válidas, seja preventivamente aqui no Brasil ou aguerridamente no Irã dos aiatolás, com seu obscurantismo tão justificado por setores burros e ignorantes de uma esquerda que jamais foi a do meu amigo ou a minha. Pelo contrário.
Volmar foi calouro de programas de auditório com sua voz potente e dono de boate LGBT com seu enorme senso empreendedor e criativo. Gremista fanático, soube conduzir uma torcida gay em plena ditadura militar, debochando da opressão e lutando pelos verdadeiros direitos individuais, de se ser quem se é. Entendia de preconceito e segregação. Era um gênio, além de generoso e humano. Sua lucidez era desprovida de clichês, frases prontas e dogmas. Ou seja, era inteligente. Um amigo fiel, com quem mantive contato até o fim da vida. Quando meu filho mais velho morou em Israel, o Volmar me ligava preocupado a cada vez que ouvia sobre atentados terroristas por lá. “Como está o Pedrinho?”, me perguntava assustado. Entendia as agruras do povo judeu. Era solidário. Preocupava-se conosco.
Um amigo! Um querido! Um gigante!
Vai com Deus, amado Volmar. Tu é a prova de como vale a pena lutar pelo justo de cara limpa, coração aberto e espinha reta, sem ceder à maldade, mesmo que envernizada. Tu é a prova de como vale a pena confiar nas pessoas, porque os bons estão por aí.
Tua vida azul, preta, branca e de todas as cores foi muito mais profunda que um verniz.
Shabat shalom!
Todos os textos de Léo Gerchmann AQUI.
Fotos: Freepik e Arquivo pessoal

