Entre as histórias que um pai deixa para um filho, legado maior de uma transmissão, a do anel de ouro ocupa lugar especial na antologia de meu pai. Se não me falha a memória, já andei escrevendo sobre ela por aqui, e a memória costuma falhar. Por isso, peço aos leitores desculpas antecipadas pela eventual repetição, embora essa – meu atenuante – também faça parte da necessidade de compreender o valor de uma boa história.
Pai e mãe tinham ido a um cinema do shopping e, no caminho, a mãe arregalou os olhos para um anel exposto sem preço na vitrine. Quase sessenta anos de casados eram suficientes para a decifração do sentido de um olhar, e o pai não teve dúvidas. No primeiro dia útil seguinte, voltou ao local do anel, onde o encontrou exposto no mesmo lugar, de forma intacta. O diabo foi a revelação final do preço, impagável para a disponibilidade financeira do marido.
Que não deu a história por encerrada. Guardou o ticket do estacionamento, junto a uma foto do anel, provas incontestes de que havia tentado a compra a ponto de investir parte importante de uma manhã em suas tentativas daquela aquisição inatingível. Faz crescer a história o fato de que a esposa ficou comovida com aqueles gestos, ao mesmo tempo em que compreendeu a impossibilidade de o ato ir até o fim.
A história é autoexplicativa, mas um filho nunca deixa de buscar explicações para as melhores e piores histórias de seus pais. Ainda sinto essa como a metáfora cristalina de uma qualidade que me foi realmente transmitida. A de tentar. Ela não é uma história nova, já que está presente em muitos mitos que forjaram a civilização que coube aos pais e ao filho. Tem a do fio de Ariadne, tem a do Minotauro e o labirinto, tem a de Sísifo e a pedra, todas elas em sintonia na sugestão de que conseguir é algo muito mais difícil do que lutar para, mas nem por isso devemos deixar de.
Falando em gregos, lembro-me agora de um outro, bem mais contemporâneo do que os mitos, a ponto de a sua produção ser autoral. Constantino Kavafis, no poema Ítaca, metaforiza o assunto de forma exímia, sugerindo que, ao contrário de um herói como Ulisses, somos reles mortais batendo cabeça, antes da morte. Há, de fato e pensamento, um abismo enorme entre o que sonhamos, na vastidão da mente, e o que realizamos nos limites da verdade. Ou entre o ideal e a produção definitiva. Para seres de carne e osso que imaginam – nós, no caso – a vida não passará de um rascunho, mas isso não é motivo para não valorizarmos a luta constante de chegar a algo cobiçado, ponto em comum que mantemos com os grandes heróis.
A rigor – ou, melhor ainda, sem rigor – uma vida verdadeira não é suficiente para aportar em Ítaca, metáfora da realização total. Mas a depressão definitiva de seus viventes costuma desembarcar mais em quem, no meio das mazelas do caminho, desistiu de tentar percorrê-lo.
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Foto da Capa: Gerada por IA.

