Não existem apenas cinco continentes, há arquipélagos e uma infinidade de mares, evidentes e ocultos, dos quais os mais secretos já começam a nos emocionar.
Eduard Glissant.
Às vezes imagino que eu caí num mundo paralelo onde os portugueses foram os que conquistaram o Sul-America e as colônias não se separaram. Tive essa ideia um dia, no centro do Rio, tomando um café e olhando o VLT que passava no meio dos velhos edifícios que sempre me lembram um pouco o centro de Caracas e também a Havana, especialmente nas zonas mais decaídas. Foi uma impressão momentânea, mas o trem rolando entre os velhos prédios como uma serpente futurista entre pedras arcaicas me deixou pensando em mundos paralelos. É difícil não pensar nisso quando tudo é igual, mas totalmente diferente.
Se me faz difícil separar o tempo, discernir entre os momentos do passado, mas acho que foi nesses dias em que eu tinha um projeto de um livro – que não fiz e não vou fazer – chamado Memória da Grande Solidão, falando de minhas impressões do Brasil e do Rio desde os meses antes da pandemia, quando cheguei, até esse momento, já há vários anos, quando começava a lutar por me liberar, por ser restituído a meu mundo.
Eu sou do Caribe, da Venezuela. Mas também da Colômbia. Como milhões de colombianos, meus pais emigraram para a Venezuela, em meados dos anos 70, eu nasci lá e vivi saltando essa fronteira vários anos antes de ficar definitivamente. Saí da Venezuela há 6 anos, no meio do desastre, aproveitando um convite para um seminário. Tive que tentar três vezes antes de sair: na primeira, o Apagão fez impossível minha saída; na segunda, eu não tinha a vacina da febre amarela; só na terceira tive sorte.
Nunca me arrependo de ter passado pelo portal e ter chegado neste mundo paralelo. Mas agora me encontro como uma personagem menor de ficção científica, procurando um caminho de volta, não para a distopia venezuelana, mas para o Caribe, só então vai acabar a Grande Solidão e eu poderei enxergar esse exílio longuíssimo como uma prova, como uma forma de ascese, e talvez até lembrar com carinho.
Há tempo entendi que tenho uma diferença política com o Brasil que não tem a ver com a política brasileira: eu não gosto da continentalidade, dessa condição de ilha-continente, de uma cultura em que todos os estrangeiros são gringos e às vezes de um desconcertante provincianismo que, acho, é próprio desses países imensos como China, Rússia, EUA e Brasil.
Nos primeiros tempos, achava terrível que o Brasil desconhecesse o Caribe, que os universitários negros não conhecessem o grande intelectual haitiano René Depestre, que morou no Rio e considerava o Brasil e o Caribe parte do mesmo continuum. Mas logo entendi que o Brasil é o contrário do Caribe: um continente, uma ilha gigante, totalmente diferente e indiferente ao nosso arquipélago, talvez mais ligado aos Estados Unidos que conosco. Esse é simplesmente seu jeito. Não dá para julgar.
A diferença se pode explicar com um exemplo: na Venezuela, até a pessoa mais xenofóbica precisaria de pelo menos seis expressões depreciativas para falar dos estrangeiros: Caliche para os colombianos, Cotorro para os equatorianos, Gringo para americanos, canadenses, ingleses, etc., Portu para os portugueses, Gallego para os espanhóis, Turco para os árabes, Chino para todo o pessoal do extremo oriente… Na realidade, nem todas essas gírias são derogatórias, mas é totalmente inconcebível para nós que exista só uma gíria para todos os estrangeiros, para isso já existe a palavra extranjero que é usualmente neutra.
Esse é o sinal mais simples que posso oferecer de nossa condição arquipelágica, que nos liga não só à Colômbia, mas ao Porto Rico, Cuba e à República Dominicana, à diferença da continental dos brasileiros, embora todos os elementos étnicos e culturais que você encontra no Brasil se encontrem no Caribe, só que numa combinação distinta. Às vezes é divertido fazer quadros de paralelismos: entre a Umbanda e o Espiritismo Venezuelano, o Candomblé e a Santeria entre nossos barrocos e os barrocos brasileiros, a Salsa e o Samba e até nas expressões cotidianas (“fala” /“hablame” , “E aí?” “Que más?”) inclusive entre Rio e Caracas.
Rio é muito mais bela que Caracas, mas não porque as paisagens caraquenhas não sejam bonitas – no meio e ao redor do vale fica o Ávila verde, imenso e coroando a cidade, voa sempre uma multidão de araras coloridas que já não vou ver nunca mais – ou por quê.
O Rio tinha sido uma capital imperial, mas porque minha cidade nunca acabou de ser construída quando começou a ser demolida há décadas, destruindo ou abandonando prédios e monumentos que aqui teriam sido preservados. Só alguns pedaços dela mostram o que poderia ter sido.
No Brasil, a Venezuela existe literalmente, mas também como metáfora. No primeiro caso, é um vizinho difícil com quem o Brasil tem que conviver e também um constante fluxo de migrantes. No segundo, é simplesmente um símbolo dos conflitos da direita e da esquerda brasileiras. Com a Venezuela e os venezuelanos, os brasileiros são em geral muito amáveis, muitas vezes solidários, e seu sistema migratório talvez seja o melhor da Sul-América para nós.
Porém, isso vem com algumas ambiguidades: por trás da amabilidade, você percebe, na maioria dos casos, também uma inacessibilidade que faz que você entenda que nunca vai conseguir ser parte desse mundo, o que vai ser desnecessariamente difícil. Em geral, para todos os emigrantes no Brasil, o slogan “Brasil recebe, mas não acolhe” parece resumir essa ambiguidade que se desdobra nas políticas públicas, como na Operação Acolhida, um dispositivo quase único no continente que, porém, é criticado pela militarização, a precariedade e insegurança dos refugiados, e sua opacidade. A ambiguidade também está no contraste entre a relativa facilidade para ser recebido e as dificuldades para ter reconhecida a educação ou inserir-se no mercado de trabalho.
Porém, é por causa dessa existência metafórica ou simbólica da Venezuela que se deram as condições para que a gente recebesse um conjunto de facilidades para solicitar o Refúgio que fizeram minha vida mais simples, especialmente para mim que tenho uma aversão e horror patológicos à burocracia.
É quando a Venezuela vira metáfora que a gente vira irrelevante e o Brasil, sumido no seu próprio umbigo, começa suas fabulações sobre nosso país, embora a maioria das pessoas que acham que sabem como a Venezuela é não saberia dizer se a gente tem fronteira com o Peru ou praias no Pacífico.
No caso da esquerda, a amabilidade – mesmo espontânea e estratégica – do brasileiro usualmente lhe impede de fazer o que faria um americano, argentino, chileno ou espanhol: dar aulas aos venezuelanos sobre a Venezuela. Embora a maioria escute e respeite nosso testemunho, você percebe o incômodo, a tensão, em alguns casos o distanciamento quando escutam que as sanções não causaram a ditadura ou o colapso do país, ou qualquer outra coisa que lhes mostra o erro em achar que um país vizinho, do qual não sabem nada, é uma região utópica onde, sabe Deus por quê, militares pretorianos, não diferentes dos que apoiam ao Bolsonaro, decidiram um dia fazer uma segunda revolução cubana e trazer o céu à terra.
O problema não é tanto que eles acreditem ou tenham acreditado nessa história absurda, como que achem que nosso dever – e dos cubanos – é interpretar suas fantasias como os androides de Westworld: “viva la revolución, patroncito!!”
Se me faz muito difícil levar a sério essa esquerda que defende o Maduro enquanto condena as pretensões autoritárias da direita brasileira, mas também essa direita que não só tem, como a esquerda, ditaduras do bem e do mal, mas não é capaz de perceber a similitude entre os neo-militarismos de Chávez e Bolsonaro (embora o Chávez tinha uma inteligência e um carisma que, felizmente para os brasileiros, o Bolsonaro não tem).
Para nós, uma história como a de ‘Ainda Estou Aqui’ é o presente, atualidade: todas as semanas temos notícias de sequestros, desaparecimentos, torturas… inclusive de figuras da esquerda venezuelana… mas há muito tempo entendi que não adianta falar dessas coisas aqui, nem pregar para o Brasil conhecer finalmente esse continente que desconhece – ou para a América Latina conhecer o Brasil. Esse país tem demasiados problemas para lidar com os nossos e nenhuma pregação minha vai mudar sua autorreferência…
Entretanto, consigo acabar com esse exílio. Pensei num outro livro que vou completar sim: sobre um mundo como o nosso, mas diferente, onde grandes arquipélagos ligam os continentes: tem alguns que cruzam o Índico e o Atlântico, outros são subterrâneos ou submarinos e estão cheios de maquinarias antiquíssimas que a humanidade tenta minar e decifrar. Na ilha maior de um desses arquipélagos há uma cidade que é como Caracas, mas também, um pouco, como Rio de Janeiro, pois tem o que mais amo das duas. Estou mais perto de completar esse projeto do que de acabar com o exílio e voltar ao meu mundo, mas, seja como for, quando o completar, vou sentir que tudo valeu a pena.
Jeudiel Martinez é um escritor, tradutor e sociólogo venezuelano refugiado no Rio de Janeiro desde o ano de 2019. Na Venezuela, foi professor convidado da Universidad Central de Venezuela e editor literário do projeto de quadrinhos Biblioteca Ayacucho Ilustrada.
Todos os textos da Zona Livre estão AQUI.
Foto da Capa: Centro do Rio de janeiro / Reprodução Redes Sociais

