Pode ser que você esteja na sua festa de aniversário, rodeado de colegas mais próximos, amigos/as, familiares, mas a sensação é de dor no coração, aquela pontada de tristeza, você se sente ansioso/a, angustiado/a, atravessa sofrimentos e problemas que não consegue contar pra ninguém e se sente só, terrivelmente só.
Pode ser que você esteja morando sozinho/a, trabalhando em formato remoto, abastecendo sua casa via internet, tenha poucos amigos/as e raramente converse com a família. Aí se passaram semanas e as semanas se transformaram em meses, e você se pergunta: esse estilo de vida te é suficiente ou está sofrendo?
São duas situações diferentes. Na primeira, a solidão, na qual podemos estar rodeados de amigos e amores e, mesmo assim, sofrer de solidão, fisicamente. Na segunda, temos o isolamento social, mas nem sempre dele irá originar a solidão.
O certo é que somos seres sociais e precisamos uns dos outros, em alguma medida. E a falta de conexão social está adoecendo a humanidade, conforme relatório da Organização Mundial da Saúde – OMS. Baseada nesse documento, na coluna da semana passada, apresentei as dimensões da conexão social, expliquei em detalhes o conceito de solidão e isolamento social e dados sobre o tamanho desse problema no mundo. Hoje vamos adiante.
Causas e Efeitos
A solidão e o isolamento social podem acontecer por diversas causas e podem variar de pessoa para pessoa. Desde questões individuais, coletivas até por conta de políticas públicas. Os efeitos que causam nas pessoas, comunidades e mesmo em países inteiros são complexos e podem chegar à casa dos bilhões.
Saúde
Pessoas que sofrem de doenças crônicas ou que lutam contra transtornos mentais (como ansiedade ou depressão) frequentemente se sentem solitárias. Além disso, morar sozinho/a ou não ter relacionamentos próximos ou familiares pode aumentar a solidão. Mas não se trata apenas de estar sozinho/a; a forma como os relacionamentos que temos nos fazem sentir também influencia nossos sentimentos.
A solidão e o isolamento social aumentam o risco de problemas de saúde graves e até mesmo de morte prematura. Entre 2014 e 2019, mais de 871.000 mortes relacionadas à solidão ocorreram anualmente em todo o mundo. A solidão e o isolamento social podem levar a problemas como doenças cardíacas, derrames, pressão alta e diabetes. E se uma pessoa se sente desconectada durante a adolescência ou o início da idade adulta, esses riscos à saúde podem se estender para a vida adulta.
Manter laços sociais fortes pode ajudar você a viver mais. Pessoas socialmente conectadas tendem a ter melhor saúde. O apoio de outras pessoas pode, por exemplo, diminuir os níveis de inflamação e reduzir o risco de doenças cardíacas e derrames.
Educação e renda
Pessoas com menor escolaridade e/ou renda podem ter menos oportunidades de conhecer novas pessoas ou formar amizades fortes. Não é à toa que o segundo maior índice de solidão mundial está entre as pessoas em países mais pobres, onde cerca de 24% da população em países de baixa renda se sente solitária.
Estudantes que têm boas conexões sociais têm melhor desempenho acadêmico do que aqueles que se sentem solitários. Um estudo descobriu que adolescentes que se sentiam solitários tinham 22% mais chances de obter notas mais baixas. Na idade adulta, pessoas que se sentem solitárias podem ter mais dificuldades no trabalho e mais dificuldade para encontrar ou manter um emprego. Elas também podem ganhar menos. Em uma escala maior, a solidão afeta comunidades e países inteiros. Comunidades com fortes laços sociais tendem a ser mais seguras e se recuperar mais rapidamente de desastres. Nacionalmente, a solidão custa bilhões em perda de produtividade e assistência médica. Em suma, manter a conexão social não é bom apenas para os indivíduos, mas também para toda a sociedade.
Personalidade
Algumas pessoas são mais tímidas ou ansiosas, o que pode dificultar uma conversa ou se integrar a um grupo. Pessoas mais extrovertidas tendem a se sentir menos solitárias.
A solidão pode levar à depressão, ansiedade e até mesmo a pensamentos de automutilação ou suicídio. Pessoas que se sentem solitárias têm duas vezes mais chances de desenvolver depressão. Ao mesmo tempo, a conexão social pode proteger contra depressão, pensamentos de automutilação ou suicídio e doenças mentais em geral. A desconexão social também pode prejudicar o cérebro. Aumenta o risco de problemas de memória, demência e Alzheimer em idosos. A conexão social, por outro lado, pode proteger o cérebro e reduzir a probabilidade de demência.
Comunidade
Pessoas que vivem em vizinhanças e comunidades onde se sentem seguras, acolhidas e com um senso de pertencimento, têm menos probabilidade de se sentirem solitárias.
Transições durante toda a vida
Transições de vida, como mudança de casa, perda de emprego ou término de relacionamento, podem fazer com que as pessoas se sintam solitárias. Para os mais velhos, a aposentadoria, problemas de saúde ou a perda do cônjuge podem aumentar o isolamento (entre 1990 e 2022, estudo apontou que até um em cada três idosos vive em isolamento social). Para os mais jovens, o bullying, o sentimento de exclusão ou a busca pela própria identidade podem desempenhar um papel significativo (conforme este relatório da OMS, os jovens entre 13 e 29 anos são o grupo mais solitário na população mundial).
A discriminação piora a situação para muitas pessoas. Se alguém é tratado injustamente por causa de sua raça, gênero, sexualidade, deficiência ou status imigratório, pode ser mais difícil se sentir aceito e conectado.
Tecnologias digitais
Ainda não existem resultados definitivos a respeito do impacto da tecnologia digital na conexão social. Sabe-se que, em parte, depende do tipo de tecnologia, de como é usada, dos motivos para usá-la e de quem a utiliza. Pode ser útil, especialmente para pessoas com deficiência com mobilidade reduzida. Mas também pode ter desvantagens, principalmente se levar a tempo excessivo de tela ou a experiências online negativas. Especialistas afirmam que é preciso cautela, principalmente ao discutir como a tecnologia digital afeta a saúde mental dos jovens.
Medidas para fortalecer a conexão social
As medidas para fortalecer a conexão social estão construídas em três dimensões: individuais, comunitárias e na área de políticas públicas. Como já vimos, elas são interdependentes, afinal, como garantir saúde pessoal sem um sistema de saúde eficaz? Como atuar com relação a comunidades seguras sem depender de uma atuação na área de políticas públicas?
Estratégias na sociedade
Campanhas, redes, articulação
Quando planejadas adequadamente, a defesa de direitos, as campanhas e as redes podem ajudar a mudar a maneira como a sociedade vê o isolamento social e a solidão, além de construir comunidades mais fortes, gentis e conectadas.
Nessa perspectiva, o advocacy, campanhas públicas, redes e articulações entre instituições, governos e a comunidade são elos importantes nessa corrente para promover a conexão social em toda a sociedade.
Políticas públicas
Nos últimos anos, oito países adotaram políticas nessa área: Dinamarca, Finlândia, Alemanha, Japão, Holanda, Escócia, Suécia, Reino Unido (Inglaterra e País de Gales) e Estados Unidos. Isso indica que os governos estão começando a levar a conexão social a sério. Mais países precisam ser incentivados a adotar políticas que apoiem a conexão social.
Muitos recomendam uma abordagem que envolva toda a sociedade, na qual os governos colaboram com todos os setores, como escolas, sistemas de saúde, habitação, transporte, comunidades e empresas. As atividades frequentemente recomendadas por essas políticas incluem campanhas de conscientização pública, iniciativas para mitigar a vergonha e o estigma, financiamento de pesquisas e o envolvimento de pessoas que vivenciaram a solidão na formulação de políticas. Com melhor planejamento, maior financiamento e determinando o que funciona, as políticas podem desempenhar um papel importante na construção de comunidades gentis, com melhores vínculos e solidárias.
Estratégias comunitárias
Conexões são feitas em comunidades, na vizinhança, nos ambientes em que as pessoas vivem, trabalham, aprendem, se divertem e envelhecem. É por isso que estratégias comunitárias para ajudar as pessoas a se sentirem mais conectadas e menos sozinhas são importantes.
Uma das melhores maneiras de promover a conexão social é fortalecer e criar espaços e serviços comunitários mais acolhedores, também conhecidos como “infraestrutura social”. Isso inclui locais como parques, praças, bibliotecas, cafés, transporte público, prédios públicos, escolas e unidades de saúde. Embora esses espaços possam não ter sido originalmente construídos para incentivar a socialização, muitas vezes se tornam locais onde as pessoas se encontram e constroem relacionamentos naturalmente.
As comunidades também podem ajudar as pessoas a se sentirem conectadas por meio de eventos e atividades em grupo. Aulas de ginástica, corais comunitários e festivais são excelentes maneiras de unir as pessoas.
Outra abordagem é a “prescrição social”, quando profissionais de saúde incentivam as pessoas a participar de atividades comunitárias em vez de administrar tratamento médico.
É importante lembrar “nada sobre nós sem nós”, por isso, para que essas estratégias sejam bem-sucedidas, é importante envolver os membros da comunidade em seu planejamento, concepção e manutenção. Parcerias público-privadas e a colaboração entre os setores de saúde, educação e serviços sociais também podem contribuir para alcançar resultados de longo prazo.
Estratégias individuais
Existem muitas maneiras pelas quais as pessoas podem fortalecer seus relacionamentos para evitar a solidão e o isolamento social. Porém, é importante lembrar que, em especial nos países de média e baixa renda, as pessoas precisarão de apoio da comunidade ou de políticas públicas para se desenvolverem. Entre elas, estão:
Treinamento de habilidades
O objetivo é ajudar as pessoas a aprimorar suas habilidades sociais e de comunicação. Isso pode envolver aprender a iniciar conversas, participar de atividades sociais ou até mesmo a usar a internet para se conectar com outras pessoas. Busca-se construir confiança, para que as pessoas se sintam melhor ao fazer novos amigos ou se conectar com outras pessoas.
Oportunidades de Interação Social
Um exemplo desse tipo de programa de amizade é quando um voluntário passa tempo regularmente com alguém que se sente isolado, grupos de apoio entre pares, intergeracionais ou até mesmo animais de estimação e robôs. Em vez de simplesmente dar conselhos, esses programas criam ativamente oportunidades para interações regulares e satisfatórias.
Terapia e Apoio Psicológico
Às vezes, a solidão se deve a crenças internas, pensamento negativo recorrente, baixa autoestima ou dificuldades em lidar com as emoções. Conforme estudos, ferramentas que se mostraram úteis para redução da solidão e melhoria da saúde mental foram a terapia cognitivo-comportamental, mindfulness e sessões educativas sobre solidão e gerenciamento emocional.
Olhar para a Saúde Social é uma dimensão ainda pouco usual, mas que vimos que já ganhou importância em oito países em nível de governo, está recebendo agora este relatório da OMS, com estudos que comprovam seus impactos individuais, comunitários e em nações inteiras.
Para o Brasil, como início de um processo mais amplo, penso que o SUS e o SUAS, sistemas de saúde e assistência social, mundialmente reconhecidos, poderiam encampar campanhas de conscientização, incluir programas específicos, fazendo articulações com estados e municípios que estimulassem e desenvolvessem as conexões sociais. Afinal, essa é uma forma de economizar em gastos com doença para investir em saúde!
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Foto da Capa: Freepik

