Desperto. Parece que meu corpo sente que falta pouco para o destino. Depois de uma viagem de oito horas, pontuada por um sono fragmentado — o frio cortante do ar-condicionado, o barulho de gente entrando e saindo na parada em Resende, Rio de Janeiro —, acordo com as curvas da chegada à rodoviária de Juiz de Fora, Minas Gerais. Já devo ter feito essa viagem pelo menos cinquenta vezes. Luzes se acendem, esfrego os olhos inchados de sono e olho instintivamente pela janela. São seis e quinze de uma manhã de sábado.
Meu avô me espera, como sempre, pronto para me dar um abraço e um beijo e pegar a minha mala para levar até o carro, mesmo sob os meus protestos. Não importa se seis da manhã é mais cedo do que o horário que levanta, se o ônibus atrasa duas horas, se está chovendo, se está um frio cortante típico das manhãs de inverno em Juiz de Fora: ele sempre vem, demonstrando do seu jeitinho que minha chegada é evento, nunca inconveniência. Reconheço amor.
—
Moro em Portugal há quatro anos. Não me sinto totalmente enraizada, apesar de ter cidadania portuguesa – graças a esse mesmo avô, que foi aos treze anos de navio, sozinho, para o Brasil tentar uma vida melhor. Acho que ele também nunca se sentiu pertencente a lugar nenhum. Viveu a vida entre São Paulo e Juiz de Fora, cidade onde morou por mais de quarenta anos, mas o sotaque português nunca o abandonou completamente. Amava Juiz de Fora e foi parte importante da cidade – dono de um dos restaurantes mais célebres da região, o Faisão Dourado, e presidente do sindicato de hotéis, bares, restaurantes e similares – e, mesmo assim, talvez sempre tenha se sentido estrangeiro. Quando voltava a Portugal, já não era mais visto como português, e sim como brasileiro. O jeito de falar já soava menos lusitano do que supostamente deveria, ou seja, também já não se encaixava mais aqui.
Infelizmente, não pude ter essa troca com ele e entender qual era seu sentimento na condição de imigrante. Meu avô faleceu quatro anos antes de eu me mudar para sua terra. Mas agora vivo o que imagino que ele também tenha vivido: essa estranheza de não pertencer completamente a lugar nenhum. Quando volto ao Brasil, também já não me sinto parte, embora a memória visual, auditiva e olfativa me faça sentir que estou em casa.
Durante esses anos expatriada, a saudade vem como um mosaico, sem linearidade, e aperta o coração. Sinto saudade do colo da vó, dos vizinhos amigos, do cheirinho de lenha de Ibitipoca, do mar entre as montanhas de Maresias, da couve-manteiga rasgada e refogadinha, da risada da tia Lu, do samba do Formiga, de surfar de biquíni, dos almoços com as amigas, da vista da casa do meu pai. Mesmo assim, não tenho perspectiva de voltar a morar no Brasil. Portugal tem qualidades que me atraem. Gosto da simplicidade dos portugueses, que têm uma vida que não é work driven , me identifico. Gosto do sotaque, das gírias. Gosto das festas nas vilas, que sempre incluem os velhos na programação. Amo que, por ser um país litorâneo, quando as pessoas se perdem, falam: “Não sei nem pra que lado está o mar”. Calma, paz, tranquilidade, uma vida mais leve, menos intensa, menos caótica. Talvez com mais limitações, mas com menos medo.
Entendo agora que imigrar é escolher sentir saudade o tempo todo – do cheiro, do gosto, do sotaque, do sentir-se parte. É ter uma vida em que nunca mais serei protagonista, sempre à margem, observando de longe tanto a vida que deixei quanto a vida que construo. Figurante em ambas.
Quando volto ao Brasil, sinto como se visitasse minha própria vida póstuma: as pessoas seguem suas vidas mesmo sem aqueles que partiram, o que parece óbvio, mas é estranho constatar sendo você quem partiu. A vida não guarda lugares vazios por muito tempo. As rotinas se reorganizam, os vínculos se enfraquecem. Visito minha própria ausência. Vejo o buraco que deixei ser preenchido, costurado, cicatrizado, tapado. Observo no meu bairro vários prédios gigantes onde antes eram vilas de casas. Meu grupo de amigos da faculdade já se ramificou e agora existem outras pessoas que eu mal conheço, rostos novos nas fotos, piadas internas que não entendo. Minhas amigas têm outras amigas. O apartamento do meu pai, onde cresci e morei por mais de quinze anos, está alugado. Está tudo como eu deixei, mas, ao mesmo tempo, diferente. Eu estou diferente.
Todos os textos de Helena Ruffato estão AQUI.
Foto da Capa: Canva

