Que a ficção pode antecipar e até moldar futuros já é dito e sabido. Ou melhor ainda, como o gênio literário Mark Twain (1835 – 1910) escreveu: “A verdade é mais estranha do que a ficção, porque a ficção é obrigada a se ater às possibilidades, a verdade não”.
Desde Mary Shelley (1797 – 1851), com Frankenstein, um vislumbre da criação de vida artificial e suas consequências éticas, e Júlio Verne (1828 – 1905), com Vinte Mil Léguas Submarinas e Da Terra à Lua, prevendo tecnologias como submarinos elétricos e a exploração espacial. Passando por George Orwell (1903 – 1950) com 1984, antecipando a vigilância em massa e a manipulação da informação, e Ray Bradbury (1920 – 2012) com Fahrenheit 451 e sua sociedade distópica e censura da informação, entre outros como Aldous Huxley, Arthur C. Clarke, Isaac Asimov, Philip Dick e Ernest Cline, que veremos adiante. E também os vários filmes visionários, sendo Matrix, das irmãs Wachowskis, de 1999, um dos mais icônicos, um verdadeiro tsunami nos alicerces de nossa mente cartesiana na época. E hoje já não causa qualquer espanto, dada a velocidade com que estamos incorporando novas tecnologias.
No livro Origem, Dan Brown apresenta um processo evolucionário da humanidade conhecido como endossimbiose forçada. “Se não acreditam que os seres humanos e a tecnologia vão se fundir – disse Edmond –, olhem em volta.” Edmond Kirsch é o futurólogo e bilionário, brilhante ex-aluno de Robert Langdon, que construiu o E-Wave, um supercomputador quântico para rodar um programa simulado da evolução humana desde o Big Bang até o futuro. De onde viemos? Para onde vamos? Passo a passo, minuciosamente, Edmond explorou desde as leis da física e a entropia até parâmetros de estruturas gerais como o tamanho do cérebro, mapeando milhares de marcadores genéticos sutis que influenciam as habilidades cognitivas, como reconhecimento espacial, extensão do vocabulário, memória de longo prazo e velocidade de processamento. Na sopa primordial borbulhante, substâncias químicas ricochetearam, ligando-se e se religando umas com as outras, moléculas cada vez mais complexas foram ganhando forma até criarem uma estrutura e se expandirem na forma de hélice dupla, o DNA! E seguiu pelas inúmeras etapas da evolução animal, desde 100 milhões de anos atrás, até chegar ao organismo humano e ao ambiente em que vive hoje. “Pedi que o computador prestasse atenção especial aos fatores que mais afetariam o desenvolvimento futuro do cérebro humano: novas drogas, novas tecnologias de saúde, poluição, fatores culturais e assim por diante. E então rodei o programa”, disse Edmond para a plateia, mostrando a seguir, na tela, toda a linha do tempo e explicando cada etapa até o desfecho final, primorosamente elaborado por Dan Brown. Para não dar mais spoiler, só vamos destacar que as revelações de Edmond acontecem de forma engenhosa e mirabolante em um evento para seletos convidados no titânico Museu Guggenheim Bilbao, com transmissão ao vivo para todo o planeta.
O que Dan descreve, didaticamente, em Origem – e era perturbador oito anos atrás – já pode ser interpretado hoje como mais um aspecto “banal” de nossa realidade, a distração full time. A dopamina neuroquímica do cérebro recompensa breves momentos de distração, nos faz sentir bem e, então, queremos repetir o estímulo – basta apenas alguns segundos de intervalo. As big techs identificaram o filão e, desde o ano passado, investiram pesado nos vídeos de rolagem rápida. TikTok saiu na frente, o Facebook seguiu e logo também o Instagram, o X, o YouTube e todos os outros, que faturam cada vez mais com as redes sociais. “Tudo é projetado para prender os usuários em um ciclo viciante. Qualquer coisa que possa persuadi-lo a sair da plataforma — uma notícia ou qualquer link externo — é brutalmente punida pelos algoritmos. Isso poderia libertá-lo do seu status de viciado em drogas, e não vai ser permitido”, escreveu Ted Gioia, crítico cultural, historiador e produtor musical, pianista de jazz e autor de 12 livros. Porque a distração é esse trampolim para o verdadeiro objetivo hoje em dia: o vício. “É para isso que Apple, Facebook e outras empresas estão dizendo para você colocar seus óculos de realidade virtual — onde você é engolido pelos estímulos”, segue Gioia no seu artigo The State of the Culture, 2024 (O estado da cultura, 2024), definindo que esta é a futura cadeia alimentar cultural, “perseguida agressivamente por plataformas tecnológicas que agora dominam todos os aspectos de nossas vidas”.
Exploração da mente
Em O segredo final, Dan Brown intensifica a exploração da realidade virtual e apresenta um cenário futuro plausível e, mais uma vez, perturbador. Durante a Guerra Fria, foi notório que EUA e União Soviética travaram as corridas nuclear e espacial. Mas foi deflagrada também uma corrida pela exploração dos limites da consciência e uma potencial libertação do tempo e do espaço, com pesquisas da mente nos mais variados campos do desconhecido. Alguns documentos vazaram e ficamos sabendo um pouco sobre os programas Stargate e Psicotrônica, que exploraram o potencial da mente para uso militar.
Personagem central no livro, a embaixadora dos EUA em Praga, Heide Nagel, diz que “a corrida atual para mobilizar o poder da mente não é diferente. Os russos já conseguem ler ondas cerebrais por meio de ultrassom; os chineses estão fazendo encomendas enormes de implantes cerebrais da Neuralink; campanhas em redes sociais movidas por robôs influenciam nossas eleições; e acabamos de descobrir o que parecem ser tecnologias de controle do cérebro embutidas em aplicativos de redes sociais estrangeiras. Não se iluda: estamos no meio de uma corrida informal que já alcançou velocidade máxima e, francamente, essa é uma corrida que é melhor tanto a senhora quanto eu desejarmos que nosso país vença”. Ela está confrontando a cientista Katherine, que manifestou não concordar que uma organização de inteligência militar seria o melhor veículo para explorar questões filosóficas mais profundas da humanidade. A cientista rebate o “alerta” da embaixadora dizendo ser consciente do papel da agência e das questões de política mundial, porém, ressalta o contrassenso de assumir posição de superioridade moral e adotar práticas eticamente condenáveis. É a questão com a qual nos deparamos cada vez mais dramaticamente: o problema não são as tecnologias em si, mas as decisões humanas. Oppenheimer, com o Projeto Manhattan de desenvolvimento da bomba atômica, não nos permite esquecer.
Aldous Huxley (1894 – 1963), com seu Admirável Mundo Novo, explorou os impactos da tecnologia, da ciência e das drogas na consciência humana e também nas suas outras obras, como A filosofia perene e Moksha. Arthur C. Clarke (1917 – 2008), diplomado em matemática e física, foi reconhecido como um grande divulgador científico e escreveu a obra-prima 2001: Uma Odisseia no Espaço, promovendo a primeira conversa de um humano com uma inteligência artificial. Stanley Kubrick, em 1968, adaptou o conto para um dos filmes mais cultuados da história do cinema, com colaboração do próprio Clarke no roteiro e mantendo o título original. Isaac Asimov (1920 – 1992), doutorado em bioquímica e professor na Universidade de Boston, afirmava gostar mais de escrever não ficção do que literatura de ficção. Mas sua habilidade para traduzir ciência aos leigos tornou-o um sucesso na ficção. Com a série Robôs, idealizou as três leis da robótica – neste nosso tempo de avanços tecnológicos exponenciais, suas diretivas frequentemente permeiam as discussões sobre os dilemas éticos no desenvolvimento de máquinas autônomas. Philip Dick (1928 – 1982), filósofo e metafísico, com Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? explorou a evolução da natureza da realidade, identidade e consciência. Inspirou Ridley Scott a criar mais uma obra-prima do cinema, Blade Runner, de 1982. E uma continuação igualmente inspirada, Blade Runner 2049, de Denis Villeneuve.
William Gibson, em 1984, cinco anos antes de Tim Berners-Lee apresentar ao mundo uma das formas mais populares de usar a internet, a World Wide Web, cunhou o termo “ciberespaço” em seu conto Burning Chrome. Com Neuromancer, sua obra posterior e a mais conhecida, com o hacker que transita pelo submundo das operações obscuras de transferência de dados, genética ilegal, inteligências artificiais avançadas e estimulação simulada, antecipou a humanidade obcecada e dependente da tecnologia, já se fundindo a ela.
Ernest Cline, em 2011, abordou o universo dos games com seu livro Jogador Número 1. A humanidade preferia a realidade virtual do jogo OASIS ao mundo real, numa existência Willy Wonka/Matrix – Steven Spielberg adaptou para o cinema, com roteiro do próprio Cline, e o filme foi lançado, com grande sucesso, em 2018. Na aguardada sequência do best-seller, em 2020, Jogador Número 2 mostra que a coisa ficou ainda pior – as pessoas passaram a usar um dispositivo Interface Neural Oasis (INO), que permite acessar os cinco sentidos no ambiente virtual e controlar o avatar apenas com o pensamento. Também se tornara possível gravar suas experiências no mundo real e outras pessoas poderem revivê-las. O INO, assim, ainda que revolucionário (a ficção é ambientada em 2045), torna o OASIS mais viciante e perigoso do que nunca.
São muitos os autores geniais de literatura visionária. Obras sérias, inspiradíssimas, nada de ficção científica distópica sem fundamento, para consumir feito bala de goma. Todos vendem muito desde os lançamentos dos livros, mas Dan Brown se tornou o maior dos best-sellers de divulgação científica. Por quê? Porque encontramos ordem na sua escrita, é um imperativo em nossa mente: Ordo ab Chao (do caos à ordem).
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Foto da Capa: Rodger Shija / Pixabay

