Na semana passada viralizou pelas redes o episódio da “noiva do Brad Pitt”, quando uma mulher no dia 24 de dezembro de 2025 foi abordada no aeroporto de Erechim por vigias, mais tarde por policiais militares, contando que estava aguardando a chegada do famoso ator hollywoodiano Brad Pitt, com quem estaria se relacionando virtualmente. Mais tarde, já na delegacia, esclareceu que tudo não teria passado de uma brincadeira entre ela e seu filho adolescente. Mas a história incendiou a rede. Humoristas, influencers e todas as mídias divulgaram a respeito. Pela maneira como se deu, essa mulher teve a vida destroçada. A injustiça tinha sido feita.
Focaram na pessoa, a vítima. Onde estava o criminoso? A vítima foi julgada, teve sua sanidade mental questionada, mas não vi a pessoa que divulgou o vídeo ser apontada como a criminosa. Afinal, esse fato nem teria virado “notícia” se o vídeo não tivesse sido publicado sem o consentimento da vítima.
O papel da mídia
Qual era a notícia, mesmo? Muitos veículos “sérios” publicaram a “notícia”. Mas pra dizer, o quê? Qual foi o serviço público que prestaram? Onde estava a responsabilidade com o interesse coletivo? Noticiar esse fato serviu para quê? Além de engajamento e likes.
Aproveitaram para, a partir do fato, abordarem questões sobre educação digital ou o crescente ramo dos golpes virtuais no Brasil e no mundo?
Aproveitaram para, a partir do fato, abordar os riscos dos crimes de estelionato emocional que homens e mulheres correm em situações de vulnerabilidade e solidão? Já assistiram ao documentário “O Golpista do Tinder”, na Netflix? Como identificar, como ajudar?
A grande maioria das reportagens ficou no tom de fofoca. O que aconteceu? Quem é a mulher? Qual o estado civil? De onde é? Por que fez o que fez?
Oportunidade de negócio
Lamentável assistir quando a dor de uma mulher se torna lucro. Hotel, restaurantes, confeitarias, produtos alimentícios, produtos de beleza, livrarias, universidades, perdi a conta do número de empreendimentos, grandes e pequenos, que embarcaram na “onda Brad Pitt”.
Assisti humoristas fazendo piadas sobre essa situação, comentaristas, influencers se pronunciando em seus espaços e perfis ou comentando em posts alheios sobre essa situação. Engajamento em seus perfis foi garantido, fantasio aqui.
Ah, mas teve quem nem mencionou o fato… nem falou na mulher… só utilizou a imagem do Brad!
Porém, cada vez que fez, alguém lembrou ou buscou saber o motivo pelo qual o Brad Pitt estava sendo utilizado, e o fato ia se alastrando e a vítima sendo revitimizada, milhares de vezes. Pior, sendo lembrada de uma maneira pejorativa, ridicularizada.
Violência recreativa
Mas, acima de tudo, o que me chocou nesse episódio foi a violência recreativa que permeou todo esse episódio. Em cada lugar, seja nas matérias publicadas, nos posts ou reels nas redes sociais, os comentários eram muito cruéis. Diminuindo, rindo, num sentido depreciativo da situação, desprezando, questionando a sanidade mental da mulher.
A essa altura, parece que não importa mais o que realmente aconteceu. Infelizmente a verdade já perdeu sentido, mesmo a vítima afirmando desde o princípio que tudo havia sido uma brincadeira com seu filho. A versão do fato já ficou maior do que ele: ela estava esperando pelo Brad Pitt no aeroporto de Erechim, na véspera do Natal, onde acreditava que ele ficaria por dois dias com ela.
E, porque é mulher, sua voz não foi ouvida e considerada verdadeira. Pelos policiais militares e civis, pela imprensa, pelas pessoas que leram as reportagens. Foi desqualificada. Invalidada desde o princípio. O que realmente foi considerado como real foi o vídeo, feito em tom de chacota. Afinal, como uma mulher “interiorana”, “velha”, “feia”, “sem espelho em casa”, “burra”, “ignorante”, tem a petulância e a ousadia de pensar que o Brad Pitt se interessaria por ela? (Esses adjetivos foram retirados dos comentários das matérias e posts.)
Agora, por que a gente acha normal homens velhos, carecas, barrigudos, pobres, feios se relacionarem com mulheres mais jovens e bonitas do que eles?
No dia a dia, o homem é um “torcedor apaixonado” pelo seu time de futebol. Reportagens são feitas sobre carros sendo vendidos, empregos sendo abandonados, exaltando torcedores que vão atrás de seus times durante decisões de campeonatos. Enquanto isso, a mulher é tratada como a “fã histérica” de seus ídolos musicais, na esmagadora maioria das vezes colocado como algo fútil e pueril, um dinheiro mal gasto. Essa “diferença” abre um leque para a piada fácil contra as mulheres.
Essa violência e esse desprezo têm nome e endereço. Ela se chama misoginia e é dirigida à mulher.
Serve a quem?
Quem ganha com toda essa violência recreativa? Eu sei quem perde. Nós, mulheres. Porque nos mantemos nas nossas caixinhas, em nossas crenças limitantes: não pode, não faça, não pense, não ouse. Você não merece o Brad Pitt.
E muitas de nós reproduzimos esse comportamento. Quantas de nós defendemos essa mulher? Quantas de nós demos risada dela? Quantas de nós achamos ela ridícula?
O machismo também está dentro de nós, mulheres. Reconhecei e vigiai.
E os homens?
Numa situação como essa, quem sabe imaginar que essa mulher poderia ser sua filha, sua irmã, sua mãe?
O machismo e a misoginia fazem das mulheres as principais vítimas. Mas vocês, apesar de todos os privilégios, também sofrem – muito – por causa deles. Perder privilégio é ruim, eu sei. Mas será necessário e tenho a dizer que, ao final, vão perceber que nem foi tão ruim quanto imaginavam, pois se sentirão menos presos a amarras que os fazem sentir menos, sorrir menos, viver menos.
Misoginia disfarçada
A legislação brasileira tem um arcabouço legal amplo de direitos para a mulher, mas que até hoje não pune a misoginia, o ódio contra as mulheres, equiparando-a aos crimes de racismo e à LGBTfobia.
Para punir a misoginia, existem dois projetos de lei circulando no Congresso, um na Câmara e outro no Senado, mais avançado. Em ano de eleição, será que este Congresso terá agilidade suficiente para aprovar um deles? É uma incógnita. Vou esperançar, porque vejo a necessidade absoluta da aprovação de uma lei nesse sentido.
Um dos exemplos foi o que ocorreu com esse caso da “noiva do Brad Pitt”. Uma misoginia recreativa, que fez rir milhares de pessoas, às custas de uma mulher que teve sua vida revirada, acabada.
Fico imaginando que, com essa lei aprovada, a Maria, de São Valentim, poderia ter sua justiça restaurada, em parte. Ter coragem de lutar por ela é um papel que cabe a nós, homens e mulheres.
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Foto da Capa: Gerada por IA.

