O ano novo não representa apenas uma data, mas a possibilidade de renovação da promessa realizada pelo capitalismo, promessa que remonta a um período histórico de escassez.
Segundo Herbert Marcuse (1969), hoje vivemos em um contexto de pós-escassez: o nível de desenvolvimento técnico e produtivo alcançado tornaria desnecessária a manutenção de formas extremas de exploração e do trabalho alienado. Os recursos materiais e financeiros existentes seriam suficientes para erradicar a miséria em escala global.
No entanto, essa possibilidade permanece bloqueada. A dominação não se sustenta mais pela necessidade objetiva, mas pela administração das necessidades. O trabalho alienado deixa de ser um meio para a sobrevivência e passa a ser um fim em si mesmo, legitimado por uma racionalidade que transforma eficiência, produtividade e crescimento em valores absolutos. A promessa de liberdade, assim, é continuamente adiada, enquanto o indivíduo é integrado ao sistema por meio do consumo e da falsa sensação de escolha.
Dessa forma, a renovação simbólica associada ao ano novo revela seu caráter ambíguo: ao mesmo tempo em que sugere recomeço e transformação, frequentemente opera como mecanismo de apaziguamento, reforçando a adaptação subjetiva a uma ordem que já não se justifica por limites materiais, mas por limites ideológicos. A verdadeira renovação exigiria não apenas mudanças individuais, mas uma ruptura com a lógica que converte abundância em escassez artificial e liberdade em mera formalidade.
Porém, isso não ocorre. A promessa não foi cumprida. Pelo contrário, a dominação se intensificou, assumindo formas mais sutis e eficazes: o imperativo do desempenho, a autocobrança constante e a consequente culpabilização do sujeito.
Walter Benjamin (1921), em O capitalismo como religião, sustenta que o capitalismo configura-se como uma estrutura análoga à religião. Contudo, diferentemente das religiões tradicionais, trata-se de uma religião não expiatória, mas essencialmente culpabilizatória. Não há, nela, possibilidade de redenção ou alívio da culpa; ao contrário, a culpa é continuamente produzida e aprofundada.
Esse ponto é crucial. Justamente por não ser expiatório, o capitalismo é estruturalmente incapaz de cumprir as promessas que ele próprio enuncia. Sua permanência depende da manutenção de um estado contínuo de insuficiência: nunca se é produtivo o bastante, bem-sucedido o bastante, livre o bastante. A dominação, assim, não é um efeito colateral do sistema, mas sua condição de possibilidade. A insatisfação deixa de ser um problema a ser resolvido e passa a ser o motor que garante a reprodução da ordem capitalista em escala global.
Hoje, o mundo celebra um recomeço. No entanto, esse recomeço opera como um engodo: uma armadilha simbólica que funciona como ferramenta para o aprofundamento da dominação. Os desejos e votos trocados na virada do ano, em sua maioria, orbitam em torno do sucesso, do desempenho e do dinheiro. Mesmo quando evocam paz ou tranquilidade, revelam algo distinto do que aparentam.
Trata-se, como já apontava Max Horkheimer (1947), da contradição entre os conteúdos da razão objetiva e da razão subjetiva. Fala-se em liberdade, mas pressupõe-se a dominação; deseja-se paz, mas apenas como compensação pelo cansaço crônico; almeja-se tranquilidade, não como forma de vida, mas como intervalo funcional para a retomada do desempenho.
Esses movimentos são típicos do capitalismo avançado: a linguagem da emancipação é preservada, enquanto seu conteúdo é esvaziado. O que se apresenta como desejo universal encobre, na verdade, a naturalização de uma forma específica de organização social, na qual até mesmo os votos de felicidade tornam-se operadores da adaptação e da continuidade da ordem vigente.
Por fim, que este novo ciclo não seja saudado com votos automáticos de felicidade, mas com a coragem da crítica. Não um “feliz ano novo”, mas um ano novo crítico: capaz de interrogar as promessas que se repetem sem jamais se cumprir, de desconfiar dos imperativos de desempenho travestidos de virtude e de reconhecer, no próprio cansaço, o sinal de uma dominação naturalizada. Que o recomeço não sirva à adaptação, mas à recusa; não à culpabilização, mas à lucidez; não à esperança administrada, mas à possibilidade — ainda que frágil – de pensar e viver de outro modo.
Ralf Diego Silva de Souza é psicólogo e professor universitário. Atualmente, é mestrando em Saúde Coletiva pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e possui especialização em Psicologia Hospitalar pela ESUDA. Dedica-se ao estudo aprofundado de temáticas concernentes à Psicanálise Kleiniana, Marxismo, Teoria Crítica e Escola de Frankfurt. ralfsouzapsi@gmail.com
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