A Marina Lima deu duas declarações que me tocaram fundo: uma foi quando eu era jovem, e outra no domingo passado. Quando eu era jovem, ela disse que caretice é não ser autêntico, e no domingo passado ela disse que só começou a dominar mesmo a sua vida depois dos 60 anos (aliás, escrevi exatamente sobre isso aqui na coluna do dia 11/7).
Pois bem, não temendo ser careta e sendo dono da minha vida, fico à vontade pra dizer que eu, um cara que defende a regulação do Estado para estabelecer justiça social e proteger fatias vulneráveis da sociedade – ou seja, um sujeito “de esquerda” -, fico chocado com o cinismo, a desonestidade e a falta de empatia de alguns dos meus pares ideológicos.
Começo pela visão maniqueísta a respeito de Israel e Palestina. Outro dia, um professor disse que a (deplorável) violência em Gaza é “pior” que o Holocausto. Ou seja, a ofensiva israelense, que é reativa a um pogrom monstruoso (o 7/10) e está num contexto de defesa existencial do Estado judeu, é “pior” que o extermínio industrial de 6 milhões de judeus pelo simples fato de serem judeus. Deploro o que ocorre em Gaza, mas “menas”, né?
Sendo eu um cara com a visão ideológica que tenho, é doloroso constatar tanta desonestidade. E aqui vai uma confissão: eu já tive a inocência de achar que, por pensarem como eu sobre justiça social, os meus pares seriam naturalmente mais humanos, justos e empáticos. Mas ando vendo cada delírio nas redes sociais partindo dessas pessoas…
Outro dia, um conhecido jornalista “corrigiu” o título correto de um jornal, expondo não o dono do veículo, mas o colega que o escreveu. O título, corretamente, dizia que o ex-presidente Bolsonaro pôs a tornozeleira eletrônica. O sujeito acha que deveria constar no título que “Bolsonaro teve a tornozeleira posta por um agente penitenciário” (!!!). Primeiro, é estilisticamente impossível fazer um título assim. Além disso, o fato de outrem ter posto a tornozeleira nada muda. De mais a mais, imaginem, numa analogia, alguém ir cortar o cabelo e dizer “o barbeiro me cortou o cabelo”. Ora, é “eu cortei”. E ponto! E o pior é que o “ombudsman”, irônica e arrogantemente, ainda disse “de nada”, como se tivesse dado uma aula e merecesse algum tipo de agradecimento pela prestação de serviço.
Vai te catar, meu! Só não contestei na hora porque estava sem saco pra bater boca e me desgastar com uma pessoa que, apesar dessas tolices, ainda tenho em alta conta.
Vejo essas leviandades rolando soltas por aí. Tempos atrás, um livreiro muito antissemita descascou desrespeitosamente a autora de um livro, citando seu pai famoso, que, segundo ele, se envergonharia pelos erros encontrados durante a leitura. Tchê, quanta maldade! Numa enorme falta de empatia, sedizentes intelectuais acima da média corrigem os outros e os expõem. E vejam só: muitos deles são pessoas que se intitulam “humanistas”!
Gilberto Gil já cantou lindamente: “Gente estúpida, gente hipócrita.”
Antes do atual vertiginoso crescimento do antissemitismo embalado em visões rasas e distorcidas sobre Israel (anteriores à violência insuportável cometida pelo inadmissível Netanyahu), eu era um pusilânime passador de pano. Ah, os caras se opuseram ao Tancredo no Colégio Eleitoral, rejeitaram a Constituição de 1988, foram contra o Muro da Mauá (sem o qual a enchente do ano passado teria sido ainda mais catastrófica) e apoiam incondicionalmente o orangotango Nicolás Maduro? Bobagem, eu pensava. Até que a conta chegou na minha caixa postal judaica, e eu gritei alto que essas distorções, em especial quando geram consequências graves (geralmente geram), são aberrações.
Agora vejo outro ícone da esquerda, ainda que já polêmico, se sujar na lama de uma contradição desconcertante. Ok, Juan Domingo Perón deu abrigo pra muitos nazistas depois da Segunda Guerra, mas o pessoal meio que ignorava deliberadamente essa falha gravíssima na sua trajetória e do seu caráter. A novidade é que ele vendeu armas ao ditador chileno Augusto Pinochet, um reconhecido facínora, entre 1973 e 1974. Será que os herdeiros dos montoneros (esquerda guerrilheira peronista) normalizarão também isso?
Pois é, pessoal. Documentos desclassificados afirmam que Perón e sua esposa Isabelita venderam armas secretamente pra ditadura do Pinochet por US$ 3,5 milhões da época, valor que equivaleria, se corrigido, a US$ 24 milhões atuais. Os decretos 382 e 1140 autorizaram a venda de milhares de projéteis, fuzis, pistolas e metralhadoras. A primeira remessa ocorreu em 26 de novembro de 1973, exatamente dois meses e meio depois de Pinochet ter derrubado o presidente Salvador Allende num golpe violento e traumático. Depois houve outra remessa em outubro de 1974. Você acha isso aceitável?!
Livre de amarras que sou, porque acredito muito na honestidade intelectual dos autênticos e porque os 60 anos consolidaram isso na minha alma, eu jamais vou aceitar algo assim.
“Noites de frio, dia não há. E um mundo estranho pra me segurar. Então, onde quer que você vá, é lá que eu vou estar. Amor esperto, tão bom te amar.” (Marina e Antônio Cícero)
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Shabat shalom!
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