Não gosto de domingos, e não há um em que eu não me lembre daquela música do Titãs e a cante pela casa. Para falar a verdade, às vezes consigo suportar o dia até o almoço e o início da tarde, mas, quando a noite se aproxima, um entristecimento começa a me envolver. Sei que isso acontece com muita gente, e a culpa é quase sempre da bendita ansiedade pela chegada da segunda-feira, um sentimento pesado, bem diferente do friozinho na barriga que sentimos antes de algo que realmente esperamos. A Síndrome da Segunda-feira, ou desânimo pelo início da semana, é real, e os sintomas, segundo o site Viver Bem Unimed, “começam usualmente no domingo à noite e podem ser físicos, como dores de barriga, de cabeça e taquicardia, ou psicológicos, como tristeza, irritação e ansiedade”. Esse também é o meu caso, sobretudo quando o primeiro dia útil da semana vem carregado de cobranças no trabalho, exigindo de mim muito mais do que consigo oferecer sem colocar em risco a minha própria sanidade mental. No entanto, o meu problema sempre foi com o domingo, e as questões do trabalho só aumentaram uma dor que me acompanha desde a infância.
Nas tardes de domingo — não sei por quanto tempo nem que idade eu tinha — meus pais me levavam para a casa dos meus avós, onde eu permanecia até a sexta-feira, quando voltavam para me buscar para passar o fim de semana em casa. Eu amava os meus avós e sabia que meus pais me deixavam ali porque era a forma que encontraram de poder trabalhar; ainda assim, eu não conseguia afastar a sensação de abandono. Também foi em um domingo à noite que o meu avô passou mal e chegou ao hospital já sem vida, causando um vazio enorme aos meus dias. No final de tarde de um domingo do mês de agosto, quando eu tinha cinco anos, vivi a perda trágica de tios do meu pai em um terrível acidente de carro na RS 239. Vê-los machucados nos caixões causou uma perturbação que carrego por anos, temendo percorrer estradas em viagens longas.
É verdade que também tive muitas boas lembranças de domingos: almoços em família, festas de aniversário, passeios. Mas a ideia de morte e abandono acabou se sobrepondo a qualquer alegria, como se eu passasse o dia inteiro à espera de uma notícia ruim que sempre chegaria no cair da noite. Nunca levei esse assunto para a terapia, mas acredito que um contato tão direto com a morte, em idade tão precoce, quando eu ainda começava a compreender a vida, foi a raiz de muitos outros traumas com os quais até hoje não aprendi a lidar.
No romance Dias de fazer silêncio, Camila Maccari nos apresenta Maria, uma menina que enfrenta a doença e morte do irmão, seguidas do abandono dos pais, refugiados no silêncio do luto. Sentindo-se culpada pelos próprios sentimentos, Maria busca um amparo que ninguém consegue lhe dar. Ocupados com a doença terminal de Rui e, depois, com a sua partida, os adultos, mergulhados na própria dor, esquecem-se de que Maria é apenas uma criança e ainda não tem maturidade para lidar com acontecimentos tão dolorosos. É possível perceber a angústia da menina na página 110 do livro: “Naquela manhã, quando ainda não tinha clareado, Maria acordou com o barulho da casa, e se levantou, sentou no chão da cozinha e ficou em silêncio, apenas ouvindo o barulho da casa, porque essa foi outra coisa que aconteceu totalmente ao contrário do que ela imaginava que seria: que a morte trouxesse silêncios era apenas uma ideia muito vaga que ela tinha tirado não sabia de que lugar e que não estava nem um pouco de acordo com a realidade, não porque a mãe berrasse, não porque o pai chorasse, por mais baixo que fosse, não porque a tia falasse alto um monte de lamentações e orações e o tio dissesse, ele próprio, coisas como ele foi em paz, mas porque a própria Maria, se isso fosse possível, estava mais cheia de coisas como jamais estivera antes e, quando pensava na morte do irmão, o pensamento era acompanhado de dúvidas (..)”.
Ao ler a dor de Maria, reconheci um pouco da minha própria infância marcada por domingos pesados demais para uma criança. Assim como ela, também fiquei sozinha com sentimentos que não cabiam no meu corpo pequeno e que ninguém parecia perceber. Talvez por isso, até hoje, os domingos me soem como um vestígio daquilo que nunca soube ao certo como elaborar, e, enquanto eu não resolvo os meus dilemas, sigo tentando não confundir “o domingo com a segunda”.
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