Outubro é considerado o Mês do Idoso em virtude do Dia Internacional do Idoso, comemorado em 1º de outubro. A data foi instituída pela Organização das Nações Unidas (ONU) para conscientizar a sociedade sobre os direitos, desafios e oportunidades do envelhecimento, buscando promover o bem-estar e a dignidade da população idosa. No Brasil, o dia 1º de outubro também marca a vigência do Estatuto da Pessoa Idosa (Lei nº 10.741), que estabelece proteções e prioridades para os 60+. Mas de que pessoa idosa estamos falando?
Está mais do que na hora de, ao falarmos em pessoa idosa, reconhecermos a potência e autonomia dessa população que hoje circula na sociedade brasileira. Parar de discursos que as colocam apenas em caixinhas de fragilidade e vulnerabilidades. Não que elas não existam, mas porque podem estar presentes na vida de uma pessoa de qualquer idade e também porque – mesmo com eles – as pessoas 60+ deste país já fazem muito, como poderemos constatar. Falta reconhecimento e generosidade, sobra um olhar idadista, preconceituoso, discriminatório sobre as pessoas mais velhas.
Quem são as pessoas 60+ brasileiras?
Por conta da legislação brasileira, a idade pela qual toda pessoa é considerada idosa é a partir dos 60 anos. Muitos questionam esse marco legal. Mas é importante lembrar que as diferenças regionais, mesmo dentro do mesmo estado e cidade no Brasil, ainda são muito grandes. Atualmente, essa população é composta por um grupo de 32 milhões de pessoas no Brasil, com as seguintes características:
· Maior presença relativa de mulheres.
· Crescimento do número de mulheres idosas que integram a população economicamente ativa.
· Crescimento do número de mulheres idosas que são chefes de família.
· Apenas 10% deles da população é solteira.
· Os outros 10% são viúva.
· 22% do público idoso é divorciado e 58% deles ainda são casados.
· 44% dos idosos moram com o cônjuge, 39% com filho(a)s e 14% moram sozinhos.
· 91% dos brasileiros com mais de 60 anos contribuem financeiramente para o sustento da casa, sendo que 52% são os principais responsáveis.
· Independentemente de estarem trabalhando, 56% estão aposentados pelo INSS.
Elas são muito diversas
Quando olhamos números acima, tendemos a criar na nossa mente uma imagem única de pessoa idosa na nossa mente, mas, quando falamos que a maior parte das pessoas 60+ é feminina, vamos lembrar que está nas mulheres a maior expectativa de vida. No entanto, é importante salientar que essa feminização da velhice é branca, pois as mulheres negras, por carregarem no seu curso de vida – no geral – histórias de pobreza e de racismo estrutural, ficam com cicatrizes que têm como resultado a menor expectativa de vida.
Quando tratamos da velhice masculina, é interessante salientar que, no país, apesar de nascerem mais meninos do que meninas, esse número se inverte a partir da faixa etária dos 24 anos, e dali só vai decrescendo. Entre os motivos, estão a violência urbana e o racismo estrutural, pois grande parte dos que morrem são jovens negros periféricos. No envelhecimento, homens são vítimas do machismo, porque não tomam medidas de autocuidado por crenças de que eles irão expor suas fraquezas e vulnerabilidades. Por conta do racismo estrutural e também da pobreza, homens negros têm menor expectativa de vida do que brancos.
Outro recorte que pode se fazer é com relação à idade física. Conforme mais avançada for a idade, dependendo de como foi a sua história de vida, de qual estilo de vida que ela adota, sua genética e hereditariedade, irão se instalar com mais ou menos velocidade, agudeza e facilidade adoecimentos que vão lhe impor limites, vulnerabilidades, fragilidades crônicas ou não. As evidências mostram que existe estreita relação entre perda de autonomia e idade. Por exemplo, as mais elevadas taxas de prevalência de dependência se concentram no grupo de 80 anos e mais, como consequência de enfermidades crônicas como Alzheimer, Parkinson, artrite, osteoporose, ou como reflexo de perdas progressivas das funções fisiológicas, osseomusculares e mentais. Atenção: isso não é dizer que velhice significa doença!
Podemos apontar outro recorte importante no envelhecimento, como o das pessoas com deficiência, pois elas envelhecem, e mesmo aquelas que, no decorrer da vida, não possuem deficiências, com o envelhecimento podem vir a adquiri-las, como a perda auditiva e visual, por exemplo. Também há o das pessoas LGBTQIAPN+ que sofrem com a homofobia ao longo da vida e também o sofrem na velhice, a ponto de precisarem “voltar pro armário” para poderem ser acolhidas nas suas famílias ou em instituições de longa permanência para poderem ser cuidadas.
Pode-se ampliar essa diversidade nas velhices? Claro! Temos as velhices indígenas, ribeirinhas, quilombolas, em situação de rua, evangélicas, católicas, de matrizes africanas, periféricas, de elite, imigrantes, rurais, urbanas, etc. Cada uma com suas peculiaridades e necessidades específicas.
As camadas se sobrepõem, porque ninguém fica apenas numa só “caixinha”. Diferentes histórias, diferentes pessoas, necessitando de um olhar único, pessoal e personalizado.
O que une todas as pessoas idosas
Sem dúvida nenhuma, algo no qual podemos colocar todas “no mesmo saco” é o idadismo, o estereótipo, preconceito e discriminação baseados pela idade, que também chamamos de etarismo e ageísmo. Se ele atinge pessoas de todas as idades, às pessoas idosas ele é implacável, ao ponto de que uma a cada duas pessoas no mundo se considera idadista com relação à pessoa idosa.
E isso nos faz uma sociedade estruturalmente idadista. Nas instituições de saúde, de educação, de lazer, no ambiente de trabalho, na comunicação, no atendimento das lojas, entre nós e com a gente mesmo. Veja abaixo alguns exemplos:
· “É normal da idade” – Justifica os problemas de saúde ou de comportamento como se fossem típicos do envelhecimento.
· “Está esquecido(a) por causa da idade” – Perder momentaneamente a memória faz parte da vida de qualquer pessoa. Não causa preocupação o fato de alguém de 20 anos não lembrar onde deixou as chaves ou não recordar do nome da namorada do amigo. Porém, se isso acontece com alguém que tem mais de 60 anos, atribui-se o fato à velhice. Outra expressão com o mesmo significado, também muito usada, é “Está ficando velhinha/o”.
· “Gente velha vive na idade do ‘condor’: é com dor aqui, com dor ali…” – Frase dita como piada que embute a ideia de que a pessoa idosa é sempre uma pessoa doente e queixosa. Mesmo que ela possa ser mais suscetível a dores, isto não a determina.
· “Isso é coisa de idoso(a)/velho(a)” – Demonstra a discriminação da pessoa pela idade, que a pessoa está desgastada pelo tempo, está fora de moda. Demonstra a intolerância contra a pessoa idosa, quando, na realidade, em geral, muitas pessoas idosas se adaptam bem às novidades, inclusive tecnológicas.
Por isso que iniciativas como o primeiro Glossário para Enfrentamento do Idadismo, lançado em 2022, e o Pequeno Manual Anti-Idadismo, lançado essa semana pelo Coletivo Velhices Cidadãs, são fundamentais para uma sociedade mais justa.
Elas sustentam o consumo no país
Não obstante tudo o que apresentei até aqui, a economia prateada em 2024 no Brasil representou R$ 1,8 trilhão do consumo privado total do país, ou seja, 24% do consumo privado total dos domicílios brasileiros. E, tanto na fatia dos mais privilegiados quanto na dos mais empobrecidos, é a população idosa quem conduz o consumo no país.
A previsão é de que, em 20 anos, este consumo aumentará para R$ 3,8 trilhões. Em 2044, a Economia Prateada irá representar 35% do consumo domiciliar privado total no país. O resultado disso tudo? Uma nova força econômica global, um novo protagonismo que já não pode ser ignorado.
Elas são invisibilizadas pela comunicação
Poderíamos dar muitos exemplos disso. Seis em cada dez pessoas 60+ afirmam não se sentir representadas na comunicação. Mas, para além desse dado, também é possível apontar:
· Campanhas publicitárias que não incluem consumidores seniores.
· Pontos de venda que não pensam na acessibilidade de pessoas mais velhas com dificuldade de acessibilidade.
· Capacitação inadequada para atendimento em pontos de serviço e vendas.
· Iluminação e espaço de gôndolas das lojas e atendimento inadequados.
· Produtos ofertados com rótulos difíceis de serem lidos.
· Embalagens que dificultam sua abertura.
· Tecnologia digitais que levam em consideração apenas jornadas de sucesso de gerações mais jovens.
· Estereótipos que não consideram as diversidades das velhices no desenvolvimento de campanhas, muito menos no de produtos e serviços.
Por isso, a homenagem é justa neste mês de outubro, mas a conscientização e, principalmente, a mobilização para mudança sobre o papel, a forma de olhar e o valor da pessoa 60+ na sociedade brasileira é fundamental que aconteça.
Fontes consultadas:
Relatório Economia Prateada e Empreendedorismo Sênior – Sebrae
Pesquisa Idosos Dependentes – Pesquisadora Emérita Fiocruz Maria Cecília de Souza Minayo
Todos os textos de Karen Farias estão AQUI.
Foto da Capa: Tomaz Silva / Agência Brasil

