Fixei o olhar nas três grandes aberturas envidraçadas na parede atrás do piano de cauda que se mantinha quieto, à espreita. Céu encoberto, ameaça de chuva em meio a notícias de um novo ciclone extratropical. Imaginei uma ventania aguardando na tocaia, pronta a interromper o concerto justamente no momento mais esperado. Forçaria os janelões, quebraria as vidraças, faria voar partituras numa sinfonia caótica.
Deu-se assim. Abertura da segunda edição do Projeto Música em Ação – Composição e Performance. Uma realização da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), através do Departamento de Difusão Cultural/Pró-Reitoria de Extensão Universitária, em parceria com o Programa de Pós-Graduação em Música e o Departamento de Música do Instituto de Artes. Segunda-feira, 8 de dezembro de 2025, às 19h. Centro Cultural, Espaço Figueira: sala cheia, murmúrio contido.
Na hora aprazada, o professor Celso Loureiro Chaves saudou o público e, em especial, o compositor homenageado, Flávio Oliveira. Foi por convite deste que eu lá estava. Por uma dessas inexplicâncias, um dia, em meio a uma consulta médica — sendo eu o profissional e ele a cura —, ressurgiu na memória a tentativa de um poema que eu havia escrito num arroubo de juventude. Ele ouviu atentamente e pediu que lhe enviasse por escrito. Passados alguns meses, avisou-me: descobri o que faltava para musicá-lo.
Foi mais ou menos assim que o “Soneto para um encontro” encontrou sua sonoridade. O poema teria ficado perdido num caderno de anotações.
Não conheço quem qualifique tão bem o encontro da erudição com a criatividade artística. Flávio Oliveira também detém um repertório de histórias e memórias, que alinhava, costura, emenda e dispõe para o maravilhamento do interlocutor que aceita e tenta acompanhar o traçado. Não é fácil; é desafiador e mágico. Para quem gosta de tramas, se deixa voar feito trapezista em salto vital.
Bem, o tal Soneto foi apresentado entre outros dois poemas musicados por ele: “Tudo Muda”, de Bertolt Brecht, e “Infelizes de vocês” – também de Brecht, mas na companhia de Ruth Breslau e Margareth Steffin, da peça O homem bom de Setsuan. O meu, o penúltimo a ser apresentado, ficou no meio.
No piano, o próprio Flávio Oliveira, e na voz, Carla Maffioletti. A soprano, embora de casa, possui uma experiência global. Eu a conhecia por sua participação marcante em shows da orquestra de André Rieu, através das fitas de vídeo que minha sogra Yeda exibia com entusiasmo. Carla é multitalentosa, cantora, instrumentista e dona de uma simpatia cênica rara.
Minha expectativa era grande, mas o que se deu foi além: uma epifania. Meu poema fora escrito como projeção de uma entrega almejada. Aconteceu e me deu crias (além da amada, três filhas e uma neta, até o momento). Mas, ao ouvi-lo, no encontro do amigo compositor e de uma diva surpreendentemente afável, entendi a que ponto cheguei. Tudo fez sentido. Não poderia ser outro a musicá-lo; não poderia ser outra a cantá-lo. Não há como descrever o encanto melódico nem sua interpretação, ampliados pela evidente admiração mútua entre os artistas. Tempo, vento, emoção, suspensos no olho do ciclone. Os versos entregues não eram mais meus.
“Andei a buscar somente / Todo o meu viver um instante / E agora que estou diante / Sei que será eternamente // Acompanhou-me, constante / A solidão, vagar pungente / Que segue indiferente / O procurar do viandante // Mas o encontro, tal a sedução / Finda a busca cigana / Quero deixar a sina errante // Abandonar caravana / E, simplesmente, amante / Acampar no teu coração”.
Encontros, quando se dão de verdade, são epifanias. Eles abrem portais que permitem ver o que não se explica, mas que justificam a existência e têm o tamanho da divindade possível.
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Foto da Capa: Carla Maffioletti e Flávio Oliveira. Encontro de artistas / Acervo do autor

