
O verão acabou. De repente. O ar já está mais fresco, as ondas do mar maiores e com mais força. Dia 22 de setembro foi o equinócio de outono no hemisfério norte, de primavera no sul – trazendo a mudança das estações: aqui em Portugal, chega o outono; no Brasil, a primavera.
As estações do ano são, na verdade, uma convenção: dividimos o tempo em quatro partes iguais a partir de dois pontos, os solstícios e os equinócios. O solstício é quando um hemisfério recebe o máximo (verão) ou o mínimo (inverno) de luz solar do ano, porque a Terra está mais inclinada naquele ponto da órbita. O equinócio, ao contrário, é o momento de equilíbrio: dia e noite têm a mesma quantidade de horas. 7:25 o nascer do Sol, 19:25 o pôr do sol. No auge do verão, dez horas da noite, ainda há luz; já no inverno, cinco e meia da tarde, o breu. No dia a dia, faz muita diferença. Gosto de sentir cada estação e como elas me afetam: mais ou menos energia, mais ou menos introspecção, mais ou menos cansaço… me sinto mais conectada com a natureza e, logo, comigo mesma.
Muito antes de existir calendário, esses dois pontos já eram sagrados. Stonehenge, na Inglaterra, foi erguido de um jeito que alinha suas pedras exatamente com o nascer do sol no solstício de verão, e foi construído séculos antes de qualquer teoria sobre órbita ou inclinação axial existir; os povos celtas marcavam o equinócio de outono com uma festa de agradecimento pela colheita, o último fôlego de fartura antes do frio. A própria Páscoa é celebrada no primeiro domingo após a lua cheia depois do equinócio de março.
No Brasil, essa transição temporal é discreta. Cresci sem sentir, de verdade, quando um verão terminava e um outono começava: o calor ficava, ia, voltava. Aqui não: verão e inverno são fases completamente diferentes, tanto quando pensamos em paisagem e clima, quanto emocionalmente. O ar fica frio, as flores aparecem, o sol esquenta, as folhas caem… com uma pontualidade quase didática.
Junto com o equinócio de outono, recebi a informação de que faltam, agora, pouco menos de cem dias para o ano acabar. Cem dias parecem pouco e parecem muito, dependendo de como se olha. É tempo suficiente para terminar algo que anda pela metade, ou para começar algo que só existia como ideia. Em cem dias, conseguimos colocar na prática projetos e, com constância, evoluir em algo específico. Quinze minutos diários de pintura, meia hora por dia de exercício físico, uma hora estudando… Quero aproveitar esse momento marcante e me comprometer a trabalhar pelo menos uma hora por dia em um livro que estou escrevendo muito vagarosamente. E você?