
Tenho presenciado, nas redes sociais, uma espécie de “guerra” discursiva(?) sobre a participação de homossexuais em movimentos políticos de direita ou, ao menos, identificados com posições conservadoras. Tais posicionamentos têm produzido, em geral, certo estranhamento e aberto espaço para debates — às vezes, por demais acalorados — sobre congruência, coerência ou a ausência delas. Há de se considerar, porém, que, por décadas, a associação entre homossexualidade e determinados movimentos progressistas foi fortalecida tanto pela história dos movimentos de libertação sexual quanto pela luta contra a discriminação, pela defesa dos direitos civis e pela construção de políticas públicas voltadas à população LGBTQIA+. Contudo, a experiência histórica e política dos homossexuais nunca foi absolutamente homogênea. Logo, a emergência de sujeitos que se identificam como gays e, simultaneamente, assumem posições políticas conservadoras ou de direita revela uma dimensão importante da vida política contemporânea: uma identidade sexual não determina, por si mesma, uma identidade política.
A partir desta premissa, aventuro-me em uma análise, de caráter pessoal, sobre a temática, sem, contudo, tecer julgamentos sobre o que é certo ou errado. Para tanto, busco no pensamento de Hannah Arendt (1906-1975) subsídios para uma discussão reflexiva mais ampla. A escolha pela filósofa política alemã — de origem judaica — justifica-se por ser ela reconhecida, na atualidade, como uma das mais influentes pensadoras do século XX, especialmente por suas reflexões sobre o totalitarismo e pela criação do conceito de banalidade do mal. Embora não tenha elaborado uma teoria sobre homossexualidade, movimentos LGBTQIA+ ou acerca do que hoje denominamos “movimento gay de direita”, os conceitos de pluralidade, ação, liberdade, espaço público, pertencimento, massas e ideologia, por ela propostos, permitem formular perguntas importantes sobre o fenômeno em questão.
Penso, portanto, que o objetivo não deveria ser simplesmente compreender “como um gay pode ser de direita”, como se houvesse uma contradição necessária entre sexualidade e posicionamento político. A questão, sim, consiste em: o que acontece quando indivíduos que compartilham uma determinada experiência sexual recusam a ideia de que essa experiência deva produzir uma identidade política comum? Essa pergunta desloca o problema da identidade para a política. Ou seja, o indivíduo deixa de ser compreendido apenas a partir da categoria à qual pertence e passa a ser considerado como alguém capaz de aparecer no espaço público, falar, agir, discordar e estabelecer alianças políticas diferentes das esperadas a partir de sua identidade social.
Destaco, então, alguns pontos que considero fundamentais à discussão proposta.
1) A pluralidade como condição essencial da ação política
Conforme Arendt (2014), “os seres humanos são simultaneamente iguais e diferentes: iguais porque podem compartilhar um mundo comum; diferentes porque nenhum indivíduo é absolutamente substituível por outro”. É essa pluralidade que impede, portanto, que uma categoria social seja transformada automaticamente em uma comunidade política homogênea. Tal perspectiva torna-se particularmente importante ao pensarmos na população gay, uma vez que a existência de uma experiência compartilhada de discriminação, estigma ou marginalização não significa que todos os indivíduos pertencentes a esse grupo desenvolvam as mesmas interpretações sobre a sociedade, a economia, a religião, a família, o Estado ou a política.
Richard Parker (1999; 2014), ao estudar as sexualidades masculinas no Brasil, por exemplo, demonstra que a homossexualidade não constitui uma realidade social única, mas que é atravessada por classe, gênero, território, raça, geração, formas de sociabilidade e diferentes processos históricos. As comunidades gays brasileiras constituíram-se em contextos sociais diversos, produzindo formas também distintas de identidade e pertencimento. Assim, o chamado “gay de direita” não deveria ser interpretado como uma exceção incompreensível dentro da própria comunidade homossexual, mas, talvez, entendido como uma manifestação da própria pluralidade interna dessa população.
O que parece paradoxal — um homossexual defender posições políticas conservadoras — deixa de ser necessariamente contraditório ou incompreensível quando abandonamos a ideia de que a sexualidade deve produzir automaticamente uma determinada consciência política. Então, a pergunta deixa de ser “por que ele não pensa como deveria pensar?” e passa a ser: “Quais experiências e interpretações do mundo levaram esse indivíduo a construir determinada posição política?”.
2) A sexualidade não como destino político
Sabe-se que, durante o processo histórico de organização dos movimentos LGBTQIA+, especialmente a partir da segunda metade do século XX, a identidade sexual tornou-se também uma importante categoria política. A afirmação pública da homossexualidade produziu a transformação do que anteriormente era experimentado como questão privada em uma questão pública — processo que teve enorme importância histórica, uma vez que a sexualidade passou a ser reivindicada como dimensão legítima da cidadania e da participação política.
Todavia, existe uma diferença entre afirmar politicamente uma identidade e transformar essa identidade em uma determinação política. E, neste aspecto, Arendt (2014) nos ajuda a perceber essa diferença, porque sua concepção de política está fundada na possibilidade de indivíduos diferentes aparecerem no espaço público e iniciarem algo novo. A ação política não deriva simplesmente daquilo que alguém “é”, mas daquilo que alguém faz e diz diante dos outros.
Assim, deve-se compreender que ser homossexual não determina uma posição política específica. Um indivíduo pode considerar a sexualidade uma dimensão central de sua existência e, ainda assim, discordar de determinados movimentos organizados em torno dela. Pode defender direitos civis para homossexuais e, simultaneamente, sustentar posições conservadoras em matéria econômica, religiosa ou institucional. Pode considerar-se liberal nos costumes e conservador na economia. Pode, ainda, rejeitar completamente a identificação partidária. A pluralidade proposta por Arendt permite entender essas combinações sem exigir que sejam reduzidas a uma identidade única.
3) Quando a identidade se transforma em pertencimento político
Deve-se considerar que a identidade possui uma força política porque oferece pertencimento. Permite que indivíduos reconheçam experiências semelhantes, produzam solidariedades e organizem ações coletivas. O problema surge quando o pertencimento passa a exigir uniformidade. É nesse ponto que a reflexão de Arendt (2012) sobre as massas pode ser mobilizada.
Não se pode negar que condições históricas contribuem significativamente para que indivíduos isolados se tornem particularmente suscetíveis a movimentos que lhes oferecem explicações abrangentes para a realidade e formas intensas de pertencimento. É lógico que não podemos equiparar movimentos gays, movimentos conservadores ou partidos contemporâneos ao fenômeno totalitário analisado pela filósofa. Mas, ainda assim, sua reflexão a respeito nos permite pensar uma questão mais geral: por que indivíduos procuram comunidades políticas capazes de oferecer pertencimento e uma interpretação compartilhada do mundo?
Creio que parte do fenômeno identificado como “gay de direita” pode ser interpretada como uma recusa de determinada forma de pertencimento político. Ou seja, o indivíduo pode dizer, explicitamente ou não: “sou gay, mas minha homossexualidade não determina meu posicionamento político”. Tal afirmação pode representar uma reivindicação de autonomia, já que o sujeito recusa ser reduzido à sua sexualidade e reivindica o direito de participar da esfera pública a partir de outras dimensões de sua existência. E essa questão revela-se especialmente relevante porque, paradoxalmente, uma identidade criada historicamente para produzir visibilidade pode também transformar-se em uma categoria percebida pelo indivíduo como limitadora.
4) Liberdade, ação e dissidência
A liberdade ocupa posição central na filosofia política de Arendt (2014), não devendo, contudo, ser compreendida apenas como liberdade interior ou capacidade individual de escolher entre alternativas. Para a filósofa, a liberdade possui uma dimensão essencialmente política, pois se manifesta na capacidade de agir e iniciar algo novo em um espaço compartilhado com outros.
Por si só, tal concepção já oferece uma base interessante para se compreender a dissidência política dentro de grupos minoritários. O gay que se identifica com a direita pode estar reivindicando justamente o direito de não corresponder à expectativa política associada à sua identidade sexual. Isso, porém, não significa que sua posição seja necessariamente correta ou incorreta. Significa que ela precisa ser compreendida como uma manifestação da pluralidade política.
O problema político não está em alguém divergir de seu grupo social. A divergência é constitutiva da política. E, nesse sentido, talvez seja mais adequado falar em dissidência política dentro da identidade sexual do que imaginar o “gay de direita” como uma anomalia. A dissidência é possível porque nenhuma identidade social é completamente capaz de determinar aquilo que um indivíduo pensa.
5) O contexto brasileiro
No Brasil, a relação entre diversidade sexual e política institucional tornou-se progressivamente mais visível. Estudos sobre candidaturas LGBT demonstram que a participação política de pessoas LGBT não se restringe à militância social, mas também envolve disputas partidárias, eleitorais e institucionais. Machado e Rodrigues (2016) destacam, nesse contexto, as relações e tensões históricas entre ativistas homossexuais e partidos políticos, especialmente partidos de esquerda, desde a redemocratização. Este dado é importante porque demonstra que a relação entre diversidade sexual e política partidária nunca foi completamente simples. Nesse ponto, faz-se necessário diferenciar duas questões frequentemente confundidas: a existência de pessoas homossexuais que se identificam com a direita e a posição da direita organizada em relação aos direitos LGBTQIA+. E, creiam, são fenômenos bem diferentes.
Uma pessoa homossexual pode apoiar determinado partido ou corrente política por razões econômicas, religiosas, culturais ou institucionais. Isso não significa que toda a direita política seja favorável aos direitos LGBTQIA+. Da mesma maneira, a existência de movimentos políticos conservadores que se opõem a determinadas políticas de gênero ou sexualidade não permite concluir que todos os indivíduos homossexuais vinculados à direita compartilhem dessas posições. Essa distinção é indispensável para evitar generalizações.
No país, atualmente, pesquisas também identificam a atuação de setores conservadores e de direita em torno de temas relacionados à moralidade, gênero e sexualidade. Mariano (2025), por exemplo, analisa o ativismo político evangélico conservador e suas alianças com grupos políticos de direita e extrema direita na disputa em torno de políticas de gênero e direitos sexuais e reprodutivos. Trata-se de um fenômeno relevante para compreender o ambiente político no qual diferentes sujeitos homossexuais também constroem suas posições. Entretanto, seria um erro transformar esse contexto em uma explicação única para todos os homossexuais que se identificam com a direita. Deve-se lembrar que a pluralidade exige justamente que se investiguem as diferenças internas.
6) A contradição do gay conservador
O chamado “gay conservador” produz um paradoxo apenas quando se pressupõe que a experiência sexual determina necessariamente uma determinada posição política. Esse paradoxo desaparece quando reconhecemos que o sujeito político é mais complexo que sua identidade sexual. Ou seja, um indivíduo pode ser gay e defender a liberdade individual; pode ser gay e valorizar a família tradicional; pode ser gay e ser religioso; pode ser gay e defender menor intervenção estatal na economia; pode ser gay e apoiar políticas sociais mais amplas; pode ser gay e rejeitar partidos de esquerda; pode ser gay e rejeitar partidos de direita.
Essas possibilidades não são equivalentes entre si e não devem ser confundidas, pois simplesmente demonstram que identidade sexual e identidade política operam em dimensões diferentes, ainda que possam se relacionar. E é justamente aqui que o conceito de pluralidade de Arendt se torna particularmente produtivo. A política começa quando diferentes pessoas aparecem umas diante das outras e precisam compartilhar um mundo comum, apesar de suas diferenças. A política, portanto, não elimina a diferença; ela existe porque a diferença existe.
7) A Questão dos Direitos
Este ponto especificamente evidencia uma questão que não pode ser ignorada. A liberdade de uma pessoa homossexual para assumir posições conservadoras não elimina a necessidade de analisar concretamente as políticas defendidas pelos grupos aos quais ela se vincula. Neste contexto, é possível distinguir, por exemplo, duas perguntas: quem tem o direito de assumir determinada posição política? E quais são as consequências concretas das políticas defendidas por determinada posição?
A primeira pergunta pertence diretamente ao problema da liberdade e da pluralidade. A segunda exige investigação empírica das políticas públicas, legislações, discursos e práticas institucionais. Mas essa distinção é fundamental para evitar tanto a condenação automática quanto a idealização do fenômeno. Não me parece adequado afirmar que um gay de direita é necessariamente “traidor” de sua comunidade. Da mesma maneira, também não seria adequado afirmar que sua presença na direita demonstra automaticamente que a direita é inclusiva ou favorável à população LGBTQIA+. Ambas as conclusões extrapolariam aquilo que a experiência individual permite afirmar.
8) Para além da identidade
Talvez a contribuição mais importante de Arendt para essa discussão esteja justamente na possibilidade de pensar a política para além das identidades fixas. O indivíduo não aparece no espaço público apenas como representante de uma categoria. Ele aparece como alguém capaz de falar e agir. Isso não significa negar a importância das identidades coletivas. Ao contrário, movimentos sociais dependem frequentemente delas para produzir reconhecimento, solidariedade e reivindicação de direitos. O desafio está em impedir que a identidade coletiva se transforme em uma espécie de destino político.
O movimento gay de direita pode ser interpretado, portanto, como uma manifestação de uma tensão existente dentro das próprias políticas identitárias: quanto mais uma identidade se transforma em categoria política, maior pode ser também a possibilidade de surgirem indivíduos que reivindicam o direito de não se enquadrar politicamente nela. Essa tensão não representa necessariamente uma falha do movimento LGBT. Tampouco representa necessariamente uma vitória do conservadorismo. Revela, sim, algo mais profundo sobre a política democrática: nenhuma comunidade humana é completamente homogênea.
Por fim, considero importante destacar que compreender o chamado movimento gay de direita exige abandonar a expectativa de que uma determinada identidade sexual produza automaticamente uma determinada identidade política. A homossexualidade pode produzir experiências compartilhadas, comunidades, solidariedades e movimentos políticos. Entretanto, não elimina a pluralidade existente entre os indivíduos. O conceito de pluralidade, de Arendt, permite compreender que pessoas que compartilham uma condição social podem atribuir significados diferentes a essa condição. A liberdade política, por sua vez, implica a possibilidade de aparecer no espaço público, falar e agir sem que o indivíduo seja inteiramente absorvido pela identidade coletiva.
Nesse aspecto, penso que o “gay de direita” pode ser compreendido como uma expressão de dissidência dentro de uma identidade historicamente politizada. Seu significado sociológico e político não deve ser estabelecido antecipadamente, mas investigado a partir de suas experiências, discursos, vínculos, valores e práticas. Assim, a questão mais produtiva talvez não seja descobrir se existe uma suposta contradição entre ser gay e ser de direita. A pergunta mais interessante é outra: por que uma identidade que historicamente produziu solidariedade política também pode produzir dissidências políticas em seu interior?
E é nesse ponto que a filósofa em foco permanece atual. A política, para ela, não nasce da homogeneidade, mas da convivência entre diferentes. A pluralidade não é um problema a ser eliminado; é a própria condição da vida política. Logo, compreender o gay de direita significa também compreender que nenhuma identidade esgota aquilo que um indivíduo pode ser, pensar ou fazer. A sexualidade pode ser parte fundamental da existência de alguém sem se transformar em seu único princípio de interpretação do mundo.
Em última instância, a questão não é saber qual deveria ser a posição política de uma pessoa homossexual, mas reconhecer que, em uma sociedade plural, essa posição pertence ao próprio sujeito que a assume – e que suas consequências concretas devem ser examinadas no espaço público, por meio do debate, da ação e da análise crítica.
Referências:
ARENDT, Hannah. A condição humana. 12. ed. rev. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2014.
ARENDT, Hannah. Origens do totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
MACHADO, A. M.; RODRIGUES, T. Diversidade sexual, partidos políticos e eleições no Brasil contemporâneo. Revista Brasileira de Ciência Política, Brasília, n. 21, 2016.
MARIANO, Ricardo. A reação conservadora do ativismo político evangélico contra os direitos sexuais e reprodutivos e as políticas de gênero. Religião & Sociedade, Rio de Janeiro, v. 45, n. 3, 2025.
PARKER, Richard. Beneath the Equator: Cultures of Desire, Male Homosexuality, and Emerging Gay Communities in Brazil. New York: Routledge, 1999.
PARKER, Richard. Beneath the Equator: Cultures of Desire, Male Homosexuality, and Emerging Gay Communities in Brazil. New York: Routledge, 2014.
Epitacio Nunes de Souza Neto é psicólogo, psicoterapeuta e professor universitário. Possui doutorado em Psicologia Cognitiva pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e Doutorado em Psicologia pela Universidad del Salvador (USAL) de Buenos Aires, Argentina. Possui também mestrado em Psicologia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).
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