Como diletante da filosofia frankfurtiana, trago neste texto, mais especificamente, ideias dos escritos de Horkheimer e Adorno, em face do que tem ocorrido nas últimas semanas no cenário geopolítico mundial.
A partir das digressões realizadas no texto dos filósofos supracitados, mais especificamente em Eclipse da razão , de Horkheimer, obra que serve como uma introdução ao seu livro junto a Adorno, Dialética do esclarecimento , vamos compreendendo que as perversões do esclarecimento não são acidentais, mas, sim, históricas. Ele serve ao poder e à autoconservação. O esclarecimento é autoritário; subjuga tudo o que não se encaixa dentro de seus moldes, ou do que ele julga como razoável.
Mas o que seria razoável? Quais conteúdos poderiam ser definidos como racionais? Como a razão, mesmo em sua instância subjetiva (capacidade de cálculo, de classificação, de abstração), se encontra no fundamento de tudo que o homem logra pensar? Acredito que é preciso começar por essa questão para, talvez, compreendermos algo.
O modelo atual de racionalidade não foi o preponderante em todo o decurso histórico; sua hegemonia tornou-se concreta após o século XVIII. Antes, havia a racionalidade objetiva, que procurava estruturar conceitos ontológicos como liberdade, felicidade, justiça, telos, entre outros. De acordo com Horkheimer (2016), vários sistemas filosóficos, como os platônicos e os aristotélicos, foram fundados sob a égide da razão objetiva.
O suplantar de tal racionalidade pela subjetividade possui implicações, sendo elas: se definimos que aquilo que é razoável só pode ser definido a partir da faculdade do pensamento, então dizemos que tudo o que é razoável só pode ser conceituado pelo sujeito que pensa — ou seja, toda expressão natural perde o seu sentido e só passa a tê-lo a partir dessa definição. Transpondo essa ideia para as sociedades, aquele que se opõe à minha racionalidade, pautada na autoconservação, é considerado irracional e, consequentemente, errado. Obviamente, podemos inferir e compreender o que é certo ou errado; porém, o que se revela em jogo é apenas uma falsa aparência de ponderação nos meios e nos fins do outro — o que se busca é, na realidade, a subjugação do outro a partir daquilo que é por ele considerado como meios e fins.
De acordo com Adorno e Horkheimer (1985), o esclarecimento é totalitário. Ele age com o pensamento da mesma forma que o tirano age com os seres.
Eliott Jacques, baseando-se na psicanálise kleiniana, define que os sistemas e as estruturas sociais acabam por se defender em posicionamentos esquizoparanoides e depressivos (referente às posições esquizoparanoide e depressiva definidas por Melaine Klein em 1935/1940/1946). Quando esse modelo de funcionamento mental é transposto e externalizado nas relações sociais, tendemos a vislumbrar vínculos assaz agressivos sendo estabelecidos. Uma cisão entre o que é certo e o que é errado passa a turvar a nossa capacidade de julgamento. Dessa maneira, a racionalidade, que já pensava e definia o que é razoável a partir de uma ideia de sobrevivência, é ainda mais intensificada, sendo que o outro precisa ser dizimado, aniquilado, atingido por drones, mísseis; precisa ter a sua existência subjugada àquilo que considero como razoável e correto.
Parece que a geopolítica acaba expressando, em um plano macro, exatamente o que nós, humanos, tendemos a sentir em nosso mundo interno. Assim, os bombardeios, as tropas nas fronteiras, os massacres de civis e a destruição de cidades nada mais serão do que a externalização dessa mesma dinâmica psíquica de violência, na qual o outro é desumanizado para que o sujeito, ou o Estado, possa permanecer como ele é — na ilusão de autoconservação. A razão, ao invés de ser um instrumento de mediação, torna-se a razão da violência, perpetuando um ciclo de destruição que revela tanto os mecanismos de dominação presentes nas relações pessoais quanto nas relações internacionais.
Portanto, é preciso que nos perguntemos se é possível romper essa espiral de violência. Apenas uma consciência crítica, que vá às raízes dessa razão autodestrutiva – e tencione harmonizar as duas formas de racionalidade: objetiva e subjetiva – permitirá que a violência seja contida e que caminhos para a reconciliação, para o perdão e para a solidariedade apareçam. Isso implica a disposição de refletir sobre os mecanismos de dominação presentes nas nossas próprias mentes, nas relações que construímos e nas configurações institucionalizadas que perpetuam a violência. Apenas assim poderemos dar um fim às estratégias de extermínio do outro, seja ele um vizinho, um adversário político ou um povo inteiro.
Ainda que o atual contexto seja marcado pelas armas, pelo conflito permanente e pelas injustiças, é preciso que a razão se abra para o que é propriamente humano, para o que é compartilhado por todos — a dor, a vulnerabilidade, a possibilidade de redenção. Apenas assim poderemos romper o ciclo de violência, construindo caminhos para uma paz que vá muito além de um mero cessar-fogo, sendo fruto de um autêntico encontro, fruto do reconhecimento do outro como sujeito de direitos, um outro como um fim em si e não apenas legitimado (ou não) pela minha racionalidade.
Ralf Diego Silva de Souza é psicólogo e professor universitário. Atualmente, é mestrando em Saúde Coletiva pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e possui especialização em Psicologia Hospitalar pela ESUDA. Dedica-se ao estudo aprofundado de temáticas concernentes à Psicanálise Kleiniana, Marxismo, Teoria Crítica e Escola de Frankfurt. ralfsouzapsi@gmail.com
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Foto da Capa: Ucrânia / Unicef

