Terça-feira, 24 de junho de 2025, após quatro dias de busca, foi encontrado o corpo da publicitária brasileira Juliana Marins, 26 anos. Juliana teria tropeçado e escorregado ao fazer uma trilha no monte Rinjani, na Indonésia. O local, um vulcão, é conhecido por sua beleza paisagística e pelo perigo, nove pessoas morreram lá nos últimos cinco anos, além de 180 feridos em duas centenas de acidentes registrados. Há controvérsias, mas, ao que parece, ela teria sido deixada para trás pelo guia e companheiros de trilha, que almejavam chegar ao pico.
Três horas depois do acidente, um outro grupo teria avistado a brasileira e conseguido perguntar seu nome. Através das redes sociais, tentaram contatar parentes e amigos. Fotos e vídeos chegaram à família e à mídia.
Durante os quatro dias, graças à capacidade de alcance logístico dos meios de comunicação, foi possível acompanhar as “tentativas” de resgate da, agora nossa conhecida, Juliana. Em meio às notícias e blefes das guerras, análises de especialistas em armas, instrumentos de precisão aptos a perfurar bunkers e usinas nucleares no subsolo profundo, mísseis inteligentíssimos e drones capazes de chegar à alma das gentes.
Naquelas condições, em que a jovem se encontrava, um pouco de água, comida e algum abrigo térmico poderiam ter mudado o desfecho. Clima adverso, cordas curtas, explicações pouco convincentes, há mais do que neblina nesse relato.
Ao anunciar a morte, a Agência Nacional de Busca e Resgate da Indonésia informou que Juliana foi encontrada por um socorrista a mais de 600 metros de profundidade. Devido às condições meteorológicas, decidiram resgatar o corpo na manhã seguinte (dia 25). Após o içamento, o corpo seria transportado por uma trilha até o posto de Sembalun e dali, de helicóptero, ao Hospital Bhayangkara, em Mataram.
Mataram é a capital de Lombok, ilha onde se situa o vulcão, ao lado de Bali, outro paraíso da Indonésia. No comunicado oficial, chama a atenção o detalhamento cuidadoso e organizado previsto para o resgate do corpo. O nome da cidade, fosse declinação de verbo em português, poderia servir para o atestado de óbito.
Billy Wilder (1906-2002), o genial cineasta polonês naturalizado americano, já havia conquistado sucesso quando se arriscou num argumento corajoso, que desagradou boa parte da crítica, ligada à imprensa. O filme de 1951, “Ace in the Hole” (a tradução seria algo como um “Às na manga”, “Carta na manga”) ficou conhecido no Brasil pelo título “A Montanha dos Sete Abutres”. Tornou-se um clássico.
O roteiro foi baseado num caso ocorrido em 1925, quando um explorador de cavernas, William Floyd Collins, ficou confinado onde hoje é o Parque Nacional de Mammoth Cave, no Kentucky, EUA. A operação de resgate gerou inédita sensação de mídia, um dos primeiros grandes relatos transmitidos pela nova tecnologia, a radiodifusão. Depois de poucos dias, em que conseguiram alimentar Collins, um desabamento fechou a passagem e só o contato de voz era possível. Ele morreu de sede e fome, agravados pela hipotermia, após ficar isolado por mais 14 dias, três dias antes de um poço de resgate alcançar a posição onde estava.
No filme de Wilder, o soterramento do personagem Leo Minosa (Richard Benedict) – ele fica preso numa mina onde fora procurar relíquias indígenas – é a grande chance que o jornalista fracassado Chuck Tatum (Kirk Douglas) tem para conseguir uma matéria que poderia levá-lo à glória. Deliberadamente, ele alonga e faz daquela situação um enorme palco circense. O lugar desértico do Novo México transforma-se numa usina de notícias e literal parque de diversões. O furor sensacionalista é uma poderosa antevisão desse nosso tempo. Não deixa de ser uma história de “vampiros”.
“Quem salva uma vida, salva o mundo inteiro”. A frase tem sua origem no Talmud judaico e no Alcorão muçulmano, mas também encontra consonância em cristãos, hinduístas, budistas, adeptos do sikhismo, do espiritismo, do bahaísmo, xintoístas e zoroastristas; ateus, agnósticos; qualquer indivíduo que se considere “humano”, na melhor idealização do termo.
O inverso, o desprezo à vida, parece ser mais estimulante. Aguça a potência do olhar do abutre.
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Foto da Capa: Ilustração do Autor sobre foto.

