Na década de 1920, em Paris, era proibido, por lei, mulheres usarem calças em público. Podiam ser presas pela polícia. Foi quando a grande estilista Coco Chanel foi à luta e conquistou o direito das mulheres usarem calças compridas. E foi Chanel também que deu um basta ao rígido espartilho vitoriano, que era uma agressão à saúde.
Vejamos: a pressão excessiva do espartilho no abdômen para formatar uma cintura de boneca podia atingir os órgãos internos, aumentando a pressão venosa e precipitando o aparecimento de varizes e inchaço nas pernas. Em casos extremos, até uma trombose. A pressão também elevava o diafragma, modificando a dinâmica respiratória, que podia resultar na diminuição da ventilação pulmonar e provocar acúmulo de secreções e até uma infecção. Nas costelas flutuantes, presas apenas na parte de trás – são assim para não comprimirem o abdômen e proteger os órgãos vitais – a pressão do espartilho podia quebrá-las.
Hoje, há opções de corsets com materiais adaptados, como rendas e elásticos macios, que eliminaram estes problemas. Mas ainda continuam sendo vendidas as peças “cortadas em múltiplos painéis, unidos por numerosas costuras e estruturados com hastes rígidas para assegurar que não deforme sob a tensão da redução praticada no perímetro da cintura”. E são apresentadas com graves erros de interpretação, tidos como vantagens(!) no seu uso: “O corset (espartilho) tem um efeito profundo de reeducação corporal. Sua estrutura firme melhora a postura, modela o corpo e reduz efetivamente medidas, afinando até 10 cm a cintura e reduzindo o acúmulo de gordura na região abdominal. A peça também auxilia em dietas, pois força o controle alimentar e reduz o chamado ‘estômago alto’”, diz um anúncio da Madame Sher Corsets.
A marca se protege apresentando também cuidados, contraindicações e dados de procedimento cirúrgico para afinar a cintura: “O treino para a redução definitiva de medidas da cintura requer uma série de cuidados, incluindo acompanhamento médico e exercícios de compensação para a musculatura que passa parte do dia sustentada pela estrutura do corset. O Waist Training exige disciplina espartana a fim de usufruir os benefícios da mudança corporal sem sucumbir aos potenciais danos físicos que o uso irresponsável e desinformado pode trazer.” É nada mais, nada menos do que lavar as mãos: você foi alertada!
Esse tipo de espartilho continua sendo um modelador de corpo ainda usado, porque, na verdade, segue a vigorar a cultura da aparência feminina “perfeita”, que passa pela “cintura de boneca”. Quando escrevi o livro Mulheres Cérebro Coração, entrevistei a fisioterapeuta pélvica Cristiane Carboni e ela me alertou para o regime estético opressor vivenciado pelas mulheres na maioria das academias, estúdios de pilates, páginas de revistas, etc., que estimula a se manter o abdômen sempre encolhido – umbigo nas costas – fazendo um espartilho imaginário, provocando tensões inclusive nos músculos perineais. Ou seja, o corpo da mulher continua sob a pressão de ser “perfeito”, desejável, vendável.
E o pior é que isso começa já na infância. Na minha pesquisa, verifiquei um estudo mostrando que meninas de apenas sete anos já se sentiam pressionadas a ter “aparência perfeita”, sendo levadas a sentir vergonha de sua real aparência. Os dados faziam parte de uma pesquisa da organização britânica Girlguiding, de 2016, que revelou que apenas 61% das meninas se sentiam felizes com a própria aparência, em comparação com uma parcela de 73% em 2011. Sam Smethers, presidente da Fawcett Society, para quem o relatório da Girlguiding detalha o machismo enfrentado pelas mulheres ao longo de suas vidas, comentou: “Mulheres e meninas são persistentemente julgadas por sua aparência. Sabemos que 85% das mulheres jovens sofreram assédio na rua, 59% foram assediadas na escola e uma em cada quatro jovens se autoflagela. Elas apresentam taxas significativamente mais altas de depressão e problemas mentais do que os rapazes. Isso é sério. Como sociedade, precisamos enfrentar o fato de que a objetificação e o assédio estão arruinando as vidas das garotas e estamos deixando isso acontecer.”
Como se vê, acontece mundo afora, há inúmeros dados desconcertantes – já é passada a hora de mudar este quadro. Mais uma vez, destaco que esse é um movimento de responsabilidade de toda a sociedade, das mulheres e dos homens, os que também não aceitam mais serem regidos pela cultura machista.
Todos os textos de Vera Moreira estão AQUI.
Foto de capa: Corset Vitoriano Madame Sher

