A filosofia Bakongo traz o ensinamento de que todo ser humano é um Sol Vivo, e é responsabilidade da comunidade acender esse sol para que ele possa caminhar livre pela vida. Mas esse caminho é de mão dupla: se o coletivo sustenta o indivíduo, o indivíduo também sustenta o coletivo. É nesse ciclo de cuidado, apoio e responsabilidade compartilhada que se constrói um indivíduo e uma comunidade viva, forte e transformadora.
Nós, Lisiane Canabarro, Marianne Gaspary e Kênia Aquino, carregamos em nossas histórias familiares e pessoais a força desse princípio. E é por isso que, para nós, fazer parte da Odabá como diretoras significa mais que exercer um papel institucional: é viver um propósito que atravessa gerações, alinhado à transformação de realidades.
Lisiane traz o legado de seus pais, Ruben e Rosa Canabarro. Ainda na adolescência, teve sua primeira experiência com o associativismo negro, integrando o departamento jovem da Associação Satélite Prontidão, presidida por seu pai. Desde então, uma questão segue presente: como engajar pessoas em projetos coletivos? Ao mesmo tempo, ela se pergunta: por que é tão desafiador mobilizar e sustentar esse engajamento?
Marianne, filha de Leilane Barbosa Gaspary e Tadeu Gaspary, cresceu em uma família marcada pela presença de mulheres fortes, pela participação em movimentos negros e pelo espírito empreendedor. Desde cedo, entendeu que empreender e doar tempo, conhecimento e trabalho eram formas de resistir, criar e transformar.
Kênia lembra vividamente do dia em que conheceu a Odabá. Naquele encontro para a criação da entidade no atual formato, em 2019, ainda que não compreendesse totalmente o propósito, sentiu a força do que estava nascendo e sabia que precisava fazer parte. Reconheceu ali um coletivo potente de pessoas negras empreendendo, praticando o black money na vida real, compartilhando saberes e fortalecendo negócios por meio de um espaço seguro de aprendizado.
Ao longo desses anos, em sua participação como co-fundadora, associada e atual presidente, compreendeu e busca transmitir que a associação não é uma solução mágica para todos os desafios dos negócios, mas, sim, uma poderosa ferramenta. Por sua capacidade transformadora, essa ferramenta precisa ser habilmente manuseada para que todos consigam, de maneira integrada, gerar resultados favoráveis ao grupo e ao seu próprio empreendimento.
Na Odabá, são oferecidos caminhos, conexões e aprendizados que podem fortalecer as engrenagens das empresas, mas o movimento de colocar isso em prática é de cada pessoa associada, que será fortalecido também pelo coletivo.
Para nós três, pertencer a uma associação é mais do que estar inscrita em uma lista. É escolher fazer parte de algo que constrói, fortalece e transforma. Esse pertencimento se traduz em muitos sentidos:
● Identificação: reconhecer-se na trajetória coletiva.
● Propósito: fortalecer causas sociais, culturais e profissionais.
● Apoio e pertencimento: compartilhar experiências e somar forças.
● Participação ativa: ser protagonista na construção de soluções.
● Reconhecimento: elevar-se junto ao coletivo.
Também sabemos que aprender no coletivo pode ser desafiador. Requer disposição para ouvir, trocar e se abrir para novos pontos de vista. Muitas vezes, a ferramenta mais valiosa é a vivência de outro empreendedor negro. Isso exige humildade e coragem, pois o crescimento nasce da vulnerabilidade e do compromisso.
O trabalho voluntário requer entrega, e nem sempre as satisfações pessoais podem ser atendidas de imediato. Não há caminho coletivo sustentável sem sentido individual, mas também não há sentido individual que se sustente sem o coletivo. É justamente esse espírito que move ações como a Semana do Afroempreendedor, em Porto Alegre. Idealizada e realizada pela Odabá, essa iniciativa institucional pioneira é dedicada à celebração do Dia do Afroempreendedor, em 26 de agosto, data em que foi instituído originalmente na cidade de São Paulo, no ano de 2019. O objetivo é a valorização de negócios negros com protagonismo, estratégia, ancestralidade e visão de futuro.
Mais que um evento, é uma construção coletiva de nossos associados, reunindo saberes, experiências e trajetórias potentes. É vitrine para expertises, palco para a cultura negra empreendedora, espaço de articulação, conexão e visibilidade. A Semana reflete a essência do que acreditamos: quando o coletivo se organiza, se valoriza e se apoia, somos todos impulsionados juntos.
Esse é o verdadeiro sentido de pertencer à Odabá: contribuir para algo que transforma o presente, honra o passado e projeta o futuro que queremos e que devemos ajudar a construir.
A Semana do Afroempreendedor 2025 vai acontecer de 25 a 31 de agosto, na Casa Odabá (Rua João Alfredo, 782), com uma programação contemplando momentos de qualificação, quebra de crenças limitantes e valorização cultural. Acesse o site e saiba mais.
Te esperamos para exercer e promover o protagonismo da população negra por meio dos seus saberes e negócios!
Sobre a filosofia Bakongo, pesquise os autores Patrício Batsîkama, historiador angolano e doutor em Antropologia pela Universidade Fernando Pessoa (POR), e Bunseki Fu-Kiau, professor congolês (nascido no antigo Zaire), pesquisador das áreas da antropologia cultural, educação, biblioteconomia e desenvolvimento comunitário.

Kênia Aquino é comissária de voo atuando como chefe de cabine e instrutora de voo. Graduada em Comércio Exterior e pós-graduanda em Direitos Humanos, Responsabilidade Social e Cidadania Global. Atual presidente da Odabá - Associação de Afroempreendedorismo. Cofundadora e produtora na Malê Afroproduções e do evento CinePretoPoa. Cofundadora do Quilombo Aéreo e do projeto ‘Pretos que Voam’. @aeropreta
Lisiane Moreira Canabarro é graduada em Gestão Financeira. Tem mais de 25 anos de experiência na área financeira em empresas privadas. Atualmente, é coordenadora financeira de empresa de TI, diretora financeira da Odabá e consultora financeira para pessoas físicas e jurídicas. @lisianecanabarro
Marianne Gaspary é empresária e consultora. Graduada em Design Visual pela UFRGS, possui mais de 10 anos de experiência em projetos para marcas. Está à frente do Patuá Estúdio, que tem como foco a criação de soluções e estratégias para desenvolvimento de negócios. Se considera uma profissional em constante aprendizado, buscando estar sempre atualizada, principalmente sobre Comunicação, Empreendedorismo, Design e Inovação. Trabalha com iniciativas que incentivam e promovem a diversidade racial, atuando assim na Diretoria Executiva da Odabá - Associação de Afroempreendedorismo, nas áreas de Governança Institucional e de Comunicação. @mariannegaspary @patuaestudio
Todos os textos de membros da Odabá estão AQUI.
Foto da Capa: Cintia Lentilha Fotógrafa / Divulgação

