Primeiro foi na semana passada. Claudia Sheinbaum estava num evento, e um asqueroso espécime do gênero masculino a bolinou, a assediou ostensivamente, pouco se importando de estar em frente às câmaras. Aquilo foi grotesco. Dias depois, Claudia foi atacada em outra identidade sua, num protesto contra o seu governo, o governo de uma esquerda ponderada e lúcida. Viu uma pichação com a frase “puta judia”. E também nesse caso o criminoso responsável pela violência certamente pouco se importou de fazer isso junto aos seus pares, diante de olhos que não piscam ao destratar o judeu.
Fiquei mal vendo as duas cenas. Na verdade, fiquei muito mal.
E esse sentimento ruim teve continuidade diante de reações que observei nas redes.
Você já deve ter reparado que dogmatismos, sectarismos, ignorâncias e preconceitos são características ambidestras. Do terraplanista de direita ao antissemita (“antissionista”, tergiversam) de esquerda, pouca diferença há.
Trato, então, de pôr alguns pontos nos seus devidos “is”, o “i” da ignorância, da idiotez, da indignidade, da insuficiência cognitiva e da irresponsabilidade.
Mas antes quero enfatizar um gesto ao qual aderi e que muito me orgulha: várias entidades e movimentos judaicos se ergueram contra a violência de que Claudia foi vítima. O grupo Judias e Judeus pela Democracia criou a hashtag #somostodasputasjudias. E fez o seguinte texto: “Nós mulheres judias do JJpD-SP, indignadas pela violência brutal dos ataques, nos solidarizamos e convidamos a todas e todos para que se manifestem em apoio à presidenta do México, Claudia Sheinbaum, vítima de misoginia e antissemitismo, durante manifestação de extrema direita no dia 15/11, na capital mexicana.”
Agora, vamos aos apontamentos:
1 ) Um semovente da esquerda, achando que escrevia algo bacana, ponderou: ela é judia, mas é contra o país (Israel). Peralá! Claudia pode ser oponente ao governo de turno em Israel, como o são muitos outros judeus e israelenses que saem às ruas protestando contra Netanyahu. Mas, à sua maneira, é, sim, sionista, porque defende abertamente o fim da guerra em Gaza com o estabelecimento do diálogo e de dois Estados mutuamente reconhecidos, em paz e segurança. Ou seja, em nenhum momento ela se disse “contra o país”, mas sim contra um governo ideologicamente oposto às suas convicções.
2 ) E aí me vem um cara da direita delirante e acusa a vítima: “Viu? Quem manda estar onde está (na esquerda)?” Peralá! Ser de direita (menos Estado e mais poder ao indivíduo) ou de esquerda (mais Estado pra empoderar o indivíduo a partir do coletivo socialmente justo) não tem nada a ver com isso. Assim como temos uma esquerda tomada pela absurda narrativa antissionista (o ataque a Claudia é mais um grãozinho de areia numa vastidão de milênios infinitamente intolerantes a mostrar o quão essencial é Israel para o povo judeu, e sionismo – que existe sob diferentes vertentes – é basicamente a defesa de que os judeus tenham seu único cantinho no mundo, a sua referência territorial protetora em seu lar ancestral), temos uma extrema direita e uma direita por ela cooptada em que uma base neonazista (skinheads etc.) se faz presente com intensidade. Ou seja, deixe de lado a visão ideológica ao falar de racismo (antissemita, no caso), porque esse absurdo não tem dono.
3 ) Aqui vai uma mensagem dirigida especialmente aos judeus, de direita e de esquerda. Sei que somos um povo plural, e isso está na nossa essência. Mas chegou a hora de realmente respeitarmos as diferenças e esquecermos os dogmas tonificados por uma polarização insana. O judeu de direita que aproveita a situação pra pôr o dedo em riste e dizer simploriamente “viu com quem tu te meteu?” não pode ser tão cego pelo fanatismo a ponto de ignorar que o protesto contra Claudia era da direita. E o esquerdista que uiva de prazer quase orgástico ao receber tapinhas nas costas dos seus pares ideológicos e ser classificado como “um bom judeu” (versão semita do “negro bom”) ao depreciar a importância inquestionável de Israel precisa se dar conta de que, sim, um setor importantíssimo e provavelmente majoritário da esquerda dá vazão ao discurso que permite hoje um canalha escrever “puta judia” impunemente, porque é chique.
4 ) Como alguns sabem, andei escrevendo livros sobre os judeus em geral (“Uma estrela no Pampa”) e sobre o antissemitismo em particular (“A cronologia do Alef Bet”), ambos pela Sler Books. E foi reconfortante receber retornos lindos de figuras importantes da nossa esquerda lúcida. Entre eles, os queridíssimos David Stival, Jair Krischke e Marcos Rolim. Cito os três e poderia ir mais longe, mas me limito a esses amigos porque não são judeus e representam setores diferentes (o David já foi presidente estadual do PT, o Jair é um ativista pelos direitos humanos e o Marcos é um ex-petista avesso a dogmas e sectarismos, que deixou a vida partidária justamente por isso). E veio do Marcos algo que me alegrou, mas não me surpreendeu, porque é impressionante a sua inteligência. Ele me disse aquilo que é a essência: ser contra a existência de Israel é ser antissemita. Os três são “putas judias”.
5 ) Vivemos tempos curiosos, distópicos. Na extrema direita, vemos um presidente argentino com figurino de roqueiro se dizendo “libertário” (que deturpação dessa palavra tão linda). Na extrema esquerda, vemos sedizentes humanistas, muitos deles mulheres e LGBTs, empunhando a bandeira do grupo terrorista e obscurantista Hamas (que é violentamente contra tudo o que eles acreditam). É doido isso. E o que nos diz o bom senso? O que nos diz a prudência, a sabedoria e a lucidez? Devemos nos esquivar dessas armadilhas, buscar o caminho da verdade e do humanismo. Devemos manter a solidez das nossas convicções e da nossa identidade. Devemos ter personalidade. Devemos ser honestos. Devemos ser empáticos com as vítimas do horror, mas necessariamente sem seletividade neste mundo repleto de morticínios e barbáries (e creio que vocês sabem a que me refiro). Talvez você ainda não tenha entendido, mas aí eu digo que essa falta de entendimento é própria da ignorância. Se não fosse assim, nem sequer seria ignorância. E este é o momento crítico que se presta a uma reflexão despida de preconceitos, mesmo os mais arraigados. Porque todos devemos ser “putas judias”.
*Esse asterisco está no título, e explico: como a Inteligência Artificial por definição não é humana, não vai entender o significado irônico do título original, que era “Sou uma puta judia”. A IA não é dada a essas sutilezas, porque na real é bem burrinha. Mudei pra não ser censurado pela máquina tolamente moralista (velho estratagema, hein?). A prostituta Raab vivia em Jericó. Escondeu dois espiões hebreus enviados por Josué para inspecionar Canaã (atual Israel) antes de seu povo atravessar as muralhas da cidade e ingressar na terra prometida. Raab posteriormente se casou com Salmom e se tornou ancestral do Rei David. É tida como uma heroína, e é, como a Claudia e eu, uma eterna “puta judia”.
Shabat shalom!
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Foto: Reprodução de Redes Sociais.

