Se, na primeira parte, a exibição foi compreendida como mecanismo de reforço da divisão de classes, é preciso agora aprofundar seus efeitos sobre a subjetividade e sobre a organização política da vida social. A exibição não é apenas um gesto individual, tampouco uma simples consequência da expansão das redes digitais; ela opera como tecnologia de subjetivação, disciplinando comportamentos, moldando afetos e definindo o horizonte do possível no capitalismo contemporâneo.
Michel Foucault mostrou que as sociedades modernas não governam apenas pela repressão, mas por mecanismos sutis que conduzem os indivíduos a regularem a si mesmos. Nas últimas décadas, tais mecanismos se intensificaram e se infiltraram no território da imagem. As plataformas digitais transformaram a visibilidade em moeda, e o sujeito, ao buscar reconhecimento, converte-se espontaneamente em empreendedor de si, termo que Byung-Chul Han retoma para descrever o sujeito neoliberal.
Exibir-se significa, assim, expor à avaliação pública cada aspecto da própria vida, aceitando tacitamente que o “eu” vale aquilo que pode ser mostrado. A interioridade deixa de ser fonte autêntica de sentido e torna-se um repertório a ser explorado. Cada gesto, cada refeição, cada experiência passa pelo crivo mental da pergunta silenciosa: “Isso rende uma postagem?”
Esse mecanismo interiorizado de autoexposição é extremamente eficaz porque não se impõe apenas de fora (do externo) — mas nasce também do desejo do próprio sujeito de ser visto (do interno).
Outro ponto a se considerar, ao contrário da leitura mais vulgar de narcisismo, não se trata de amor excessivo a si mesmo, mas da incapacidade de sustentar uma identidade que não seja mediada pelo olhar alheio. Christopher Lasch já descrevia, nos anos 1970, a “cultura do narcisismo” como resposta à insegurança e à fragilidade das relações sociais no capitalismo tardio. Hoje, essa cultura toma forma digitalizada.
O narcisismo se torna, portanto, funcional ao sistema:
• porque produz sujeitos permanentemente comparando-se uns com os outros;
• porque intensifica a competição simbólica entre aqueles que já competem materialmente;
• porque gera consumidores ideais, movidos não por necessidade, mas por desejo de reconhecimento.
A exibição transforma inseguranças em oportunidade de lucro. Quanto mais precário é o sujeito, mais propenso ele está a mostrar aquilo que não possui, buscando, na imagem, um alívio temporário para sua condição. É a alienação elevada ao plano da psique: um sujeito alienado de si, e não apenas do produto do próprio trabalho. Ou seja, o sistema deseja que essa precariedade tome formas e se intensifique. O capitalismo não apenas sobrevive da exploração do trabalho e de sua precariedade, mas também da fragilidade do próprio indivíduo — a dominação se instala em todas as áreas da vida do sujeito.
Para além do âmbito narcisista, a exibição também produz um fenômeno político fundamental: a estetização da desigualdade. A vida burguesa, transformada em espetáculo permanente, funciona como parâmetro aspiracional para todos os demais. Não se discute a estrutura econômica que produz a desigualdade; discute-se a “gestão da vida”, a “falta de organização”, a “produtividade”, as “escolhas individuais”.
O neoliberalismo transforma fracasso estrutural em culpa individual, e a exibição contribui para essa operação. Afinal, se “todos” estão exibindo vidas aparentemente prósperas, o sofrimento material e psíquico transforma-se em falha pessoal.
Trata-se da mais sofisticada forma de despolitização: a desigualdade deixa de ser um problema social e passa a ser uma narrativa pessoal.
Byung-Chul Han argumenta que vivemos uma crise da experiência. Aquilo que chamamos “experiência” é, cada vez mais, um fragmento estético produzido para o outro, e não vivido em profundidade. A exibição cria uma forma peculiar de temporalidade: o presente torna-se matéria-prima para o futuro olhar do público. Vive-se menos o acontecimento e mais a sua postabilidade.
Essa conversão da experiência em imagem produz sujeitos descentrados, incapazes de presença e presos a uma lógica de constante atualização. A vida torna-se fluxo contínuo de pequenas performances. A interioridade é substituída pelo gerenciamento constante da própria aparência — e, no limite, pela própria dissolução.
No texto “A sociedade da exibição”, listado aqui ao final, vimos como a exibição continha em si elementos contrarrevolucionários. O capitalismo atual opera deslocando a energia política dos sujeitos para a energia performativa. O tempo que poderia ser investido na crítica, na organização coletiva, na ação transformadora, é capturado pelo imperativo de exibir, comentar, reagir, produzir microconteúdos.
A exibição, enquanto prática generalizada, funciona como antídoto contra a consciência de classe:
• fragmenta a atenção;
• individualiza problemas;
• enfraquece vínculos comunitários;
• reduz a política à opinião;
• transforma revolta em estética;
• converte indignação em engajamento superficial.
É por isso que, longe de ser neutra, a exibição é profundamente contrarrevolucionária. Ela privatiza a subjetividade e estetiza a realidade social, dissolvendo a possibilidade de ação coletiva.
A exibição não é apenas uma prática cultural inofensiva; é uma engrenagem sofisticada do capitalismo contemporâneo. Ela organiza, disciplina e captura a subjetividade ao mesmo tempo que estabiliza a divisão de classes. Ao transformar todo aspecto da vida em imagem — e toda imagem em mercadoria —, impede o surgimento de formas de consciência que escapem à lógica do consumo.
O sujeito exibicionista é, paradoxalmente, o sujeito mais controlado: acredita ser livre porque se mostra, quando, na verdade, se mostra porque é capturado.
Encontra-se preso e, com suas ações, aumenta o seu próprio processo de dominação, tornando-se ainda mais unidimensional, alienado e acrítico. Torna-se um sujeito sem historicidade, uma vez que a sua alteridade é fragmentada na imitação do igual, do padronizado.
Um sujeito menos que um sujeito separado — um ser que reproduz a ordem do existente para sobreviver, tal qual, a repetição do trabalho alienado, só que deslocada e atualizada na vida psíquica. Não podemos pensar que esse sujeito é livre – a liberdade é tudo o que ele menos possui; contudo, como ela não é violentamente coercitiva, pondera ele sua liberdade como real.
Como diria Ferreira Gullar no seu poema “No mundo há muitas armadilhas”:
‘’No mundo há muitas armadilhas
e o que é armadilha pode ser refúgio
e o que é refúgio pode ser armadilha…
Há muitas armadilhas no mundo e é preciso quebrá-las’’.
Ralf Diego Silva de Souza é psicólogo e professor universitário. Atualmente, é mestrando em Saúde Coletiva pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e possui especialização em Psicologia Hospitalar pela ESUDA. Dedica-se ao estudo aprofundado de temáticas concernentes à Psicanálise Kleiniana, Marxismo, Teoria Crítica e Escola de Frankfurt. ralfsouzapsi@gmail.com
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