Quero muito crer que temos entre os leitores da SLER aqueles que sabem os dias dos colunistas e espero ter o meu quinhão nesse contingente de seguidores atentos. Então, em especial a eles, alerto: a minha coluna continua sendo publicada às sextas-feiras, e assim será depois de amanhã. Até já está editada, tratando do belíssimo filme “The world will tremble”, uma tomada de consciência essencial lá em 1942 que precisa voltar a ocorrer. Mas sexta-feira você lerá sobre ele. Agora, o calor dos acontecimentos me levou a usar este espaço extra, dois dias antes, pra ilustrar como o cara não precisa ser de direita pra entender a importância de neutralizar a teocracia iraniana, o regime mais obscurantista e cruel do mundo, sem qualquer resquício de dúvida. Antissemitas, homofóbicos e misóginos ao extremo! Digo isso porque acho que “o Donald Trump é bom companheiro, ninguém pode negar?”. Não. Os EUA têm seus interesses próprios quando começam uma guerra. Ninguém aqui é ingênuo. Mas os fatos têm camadas, e esse tem muitas, algumas delas com teor de relevância que está acima das outras, mesmo não sendo a principal.
Um querido amigo me mandou a seguinte piada: “Os americanos têm muita sorte. Aonde quer que vão para levar liberdade, encontram petróleo.” E eu respondi, não no sentido de contestar, mas de acrescentar a camada mais saborosa do bolo: “Ok! Mas cada aiatolá a menos deveria ser motivo de festa.”
É disso que se trata.
Tem pessoas de visão progressista não dogmática e com discernimento, sim. Eu próprio me ponho nesse grupo. Mas há aqueles que definem erradamente antissemitismo (racismo) como “debate ideológico”. Mais abaixo, nesta mesma coluna, ponho a íntegra de um texto extremamente preciso e lapidar do ótimo historiador e professor de História Iair Grinschpun num debate em que dolorosamente teve de se envolver. Mas tenha paciência, porque quero manter o fio.
Falemos de Irã.
Lembro perfeitamente quando o jornalista Jeffrey Goldberg, da revista norte-americana The Atlantic, ficou três dias de agosto em Havana entrevistando Fidel Castro. Nesse entrevista, publicada em setembro de 2010, Fidel pediu ao líder obscurantista iraniano Mahmoud Ahmadinejad, na época presidente do seu pais e agora morto pelos ataques de Estados Unidos e Israel, que deixasse de ser antissemita e entendesse a perseguição histórica aos judeus.
Fidel disse na ocasião: “Ninguém foi tão difamado como os judeus”. E pediu a Goldberg que a mensagem chegasse a Ahmadinejad, acrescentando que os judeus foram expulsos de sua terra e maltratados em todo o mundo, sendo culpados de tudo por séculos. Sim, senhores, Fidel Alejandro Castro Ruz disse isso, do alto da sua longa trajetória e do seu profundo conhecimento e mesmo sendo um crítico a políticas de Israel e também defendendo o Estado Palestino, numa solução incontornável de dois Estados pra dois povos! Voltando ao início desse texto, estamos falando de tomada de consciência e discernimento.
Aos 84 anos, a preocupação de Fidel era com uma guerra entre Israel e Irã, envolvendo outras potências.
O líder revolucionário cubano pediu que Ahmadinejad entendesse a perspectiva de segurança de Israel.
Percebam: não estou entrando no mérito sobre as opiniões de Fidel quanto ao governo israelense nem quanto à defesa de uma Palestina ao lado do Estado judeu.
Esse debate, sim, é legítimo. O que me interessa aqui é dizer: Fidel defendia a existência do Estado de Israel.
E, crianças, fazer tal defesa, na essência do seu significado, é sionismo, essa tão castigada palavra.
…
Agora, falemos ainda sobre o Irã, mas nos reportando à antiga Persia.
Você sabia que Ciro, o Grande, é um herói do povo judeu e de Israel?
Sim, o fundador do Império Persa (atual Irã) é um herói sionista.
Foi Ciro quem libertou os judeus do exílio na Babilônia em 538 a.C, permitindo o retorno a Jerusalém e a reconstrução do Templo, sendo reverenciado na Torá.
Essa foi a primeira diáspora do povo judeu. A outra ocorreu em 135 d.C, durante o império romano, e durou até 1948, quando Israel voltou a existir.
Na época, a região era chamada de Judeia. Os romanos, ao expulsarem os judeus, a renomearam como “Palestina”, em homenagem aos antigos filisteus.
São fatos históricos. Entendam! O povo judeu é originário, assim como os árabes. Por isso, a necessidade de partilha e reconhecimento mútuo.
Fidel sabia disso. Ciro também.
Voltemos a Ciro, o Grande (bota Grande nisso!): depois de conquistar a Babilônia, Ciro emitiu um decreto permitindo que os judeus retornassem à Judeia e reconstruíssem o Templo de Jerusalém, encerrando cerca de 70 anos de exílio. Ao contrário dos babilônios, Ciro praticava uma política de tolerância religiosa e cultural, permitindo que os povos conquistados cultuassem seus próprios deuses e sua própria fé e, de forma ampla, vivessem conforme a sua cultura. Frequentemente visto como uma das primeiras cartas de direitos humanos, o Cilindro de Ciro, feito de argila, confirma sua política de repatriar povos exilados e restaurar seus locais de culto. O retorno sob Ciro marcou o início do período do Segundo Templo, essencial para o povo judeu preservar sua existência.
Escrito isso aí em cima, ufa!, quero mostrar como está difícil o momento que vivemos: outro dia, me convidaram pra ir a um evento sobre os 50 anos da ditadura argentina. É um assunto que me interessa demais. Fui correspondente da Folha de S. Paulo em Buenos Aires e me dediquei muito a esse tema. Por que não fui? Porque haveria chance de, em algum momento, um “humanista” gritar: “Fora sionistas!!!” E eu me veria com vontade de me enviar num buraco.
Entenderam o contexto? É só um pequeno exemplo.
Peço que leiam na sexta-feira o meu texto regular aqui na SLER. De certa forma, ele é complementar a este.
E nunca é demais recordar: o primeiro país a reconhecer o necessário, urgente e inequivocamente legítimo Estado de Israel em sua refundação de 1948 foi a União Soviética. E o país que armou o novo Estado judeu quando foi atacado pelos vizinhos árabes no primeiro dia após a sua independência foi a Tchecoeslováquia, do então Bloco Socialista. Depois, os interesses econômicos, o petróleo e a política embaralharam tudo. Lembrem disso sempre, porque são fatos históricos extremamente reveladores.
E aqui vai o texto do historiador Iair que prometi lá no início da coluna, em resposta a uma pessoa sem discernimento da esquerda (lembro que o Iair é de esquerda e peço que filtre algo que o incomode e fique com a essência. Eu, particularmente, achei elucidativa e efetiva): “O nome para isso é ‘antissemitismo redentor’. Antes que alguém aqui venha me chamar de “sionista”, fiquem tranquilos. Sou judeu, sionista com orgulho e isso não é vergonha alguma. Vergonhoso é deturpar conceitos e arrotar ignorância/má fé para não assumir o que são (antissemitas convictos). Não adianta dizer que não tem “nada contra” judeus, tem “até amigos que são”… Isso tem o mesmo valor que um bolsonarista dizendo que não é racista ou que não é machista porque ama sua esposa e sua filha… Vocês são convictamente antissemitas. Só falta a coragem para assumir, então falam em “antissionismo” para não pegar mal… Xenófobos, sectários, dissimulados, e covardes. Simples assim. Zero diferenças com qualquer bolsonarista dos mais torpes (aliás, eles também se orgulham da sua ignorância e adoram deturpar conceitos básicos). Por fim, entendam: se a maioria das mulheres dizem que uma fala é machista, então é machismo. Se a maioria dos negros classifica algo como racismo, então é racismo. Se a maioria das pessoas LGBTQIAPN+ te considera homofóbico, é porque tu és… Vale o mesmo para o antissemitismo. Se a imensa maioria dos judeus está te dizendo que tu és antissemita, então é porque tu de fato és… Isso vale para a autora desse texto e os que a estão defendendo. Não querem ser chamados de antissemitas? Mudem. Ouçam. Reflitam. Do contrário é o que vocês são mesmo. OBS: nunca vi um bolsonarista se declarando fascista, racista ou machista abertamente. Eles até dizem que isso não existe as vezes… Dizem que é “vitimismo”… Ora vejam, vocês falam EXATAMENTE a mesma coisa em relação ao seu antissemitismo.”
Shabat shalom!
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Foto da Capa: Reprodução