Senti um misto de compaixão, enternecimento, divertimento e até alívio quando certa vez vi o depoimento de antigos chefes do Mossad falando de suas façanhas, algumas delas cinematográficas. Diante da pergunta: “Qual a ação mais espetacular de que o senhor já participou?”, o ex-chefe da inteligência israelense, já com mais de 90 anos, sorriu matreiramente, os olhos faiscando muito, vívidos sob as rugas desenhadas por muitas venturas e desventuras, e respondeu algo assim: “A nossa ação mais espetacular sempre é silenciosa, é algo que foi feito sem que ninguém saiba ainda hoje, para evitar um fato que seria devastador, mas não ocorreu justamente porque o desativamos e ninguém sabe.”
Ou seja, o Mossad age nos desvãos da vida cotidiana, no impublicável, no segredo, no secreto, naquilo de que você nunca saberá para o seu próprio bem, onde a diplomacia não chega, onde o assombro se desenvolve, mas, graças a esses caras, não se cria.
Começo esse texto pelo Mossad e peço uma abertura do seu raciocínio para que saiamos dos clichês distorcidos. Deixemos de lado as polarizações tolas que nos encapsulam em caixas. Vou dar um exemplo muito alheio para puxar você ao ponto onde quero chegar.
A palavra “populismo” se tornou arroz de festa no sentido mais negativo. Sim, aquele populismo utilizado por fascistas como o próprio Hitler para ganhar a simpatia do povo em momento de necessidade, com distribuição de benesses, é uma estratégia antiga. Muitos a usaram. Assim como Hitler veio cheio de “bondades” (aumentos salariais e várias outras leis trabalhistas favoráveis aos arianos, claro), regimes como o franquismo (1939), o peronismo (a partir de 1943 com o golpe e de 1945 com o próprio Perón, que antes era ministro do Trabalho, eleito presidente) e o getulismo (não é mero acaso que o Estado Novo, em 1937, veio só dois anos depois da intentona comunista de 1935) se impuseram pela classe dominante que abriu mão dos anéis pra não perder os dedos e deu suporte a esse método. Sim, um método. Mas não podemos confundir com ações verdadeiramente sociais de governos que têm real interesse em erradicar a miséria e atenuar as degradantes, desumanas e muitas vezes oceânicas diferenças socioeconômicas.
Eu, como convicto social-democrata, defendo muito essas medidas tomadas por um Estado regulador, que estabelece Justiça. Simplesmente não podia haver miséria. Ponto.
Mas vamos aonde quero chegar. Como eu disse ali em cima, sou social-democrata convicto – e apartidário. Em Israel, o partido que sempre me despertou mais simpatia foi o Avodá (trabalhista), e quero muito que ele se una ao Meretz (mais à esquerda) para que o lar ancestral do grupo étnico ao qual pertenço volte aos seus eixos sociais democratas e mantenha seu caráter lindamente democrático e plural numa terra judaica inclusiva.
E aí alguém me pergunta: “E o Netanyahu, hein?”. Creio ter deixado claro que, se eu vivesse em Israel, não só não votaria nele, como estaria nas ruas, faixa em punho, defendendo que ele dialogue; que o governo israelense se empenhe pela única solução aceitável, de dois Estados (Israel e Palestina) mutuamente reconhecidos, em paz e seguros; que a ideia de tirar a autonomia do Judiciário, deformando o caráter democrático e republicano do país (lembram dela?), seja evitada; que explique como pôde ocorrer o pogrom cruel e devastador do 7/10; que se preocupe com os reféns ainda em Gaza.
Logo, não gosto do Netanyahu e, sim, acredito que ele capitaliza politicamente muitas das tristezas que estão ocorrendo. Mas volto à aparentemente deslocada conversinha sobre o populismo ali em cima. O Netanyahu sabe que a insegurança e a necessária reação lhe convêm e tira proveito disso. Óbvio! Só que, assim como a necessidade de combater a miséria e de isso ser perversamente e indiscriminadamente definido como “populismo”, a luta pela sobrevivência é essencial, seja sob Netanyahu, Rabin, Einstein ou Freud.
Aliás, falando em Freud, tem uma inquietação que me persegue: já vi muita burrice na política. Já vi pobre votar em explorador, integrantes de minorias discriminadas apoiarem fascistas que as ignoram e perseguem, já vi até médico defender placebo e se voltar contra a vacinação por cálculo eleitoral. Mas, olha, ver, como tenho visto, sedizentes esquerdistas apoiarem aiatolás obscurantistas com mentalidade medieval, homofóbicos, misóginos, racistas e intelectualmente genocidas (sabemos que “genocídio” depende da intenção, da ação deliberada de erradicar um grupo humano), é algo distopicamente insuperável.
Haja antissemitismo atávico – e por isso a lembrança de Freud – pra fazer os caras chegarem a esse ponto. Meu amigo Nelson Asnis, psiquiatra e psicanalista, explica isso no esclarecedor livro “A Síndrome do Espectro Antissemita” (Editora O Viajante). Tenho a convicção de que esse ódio aos judeus e ao seu lar se dá pela mesma trajetória que levou supostos ilustrados alemães a aderirem ao nazismo nos anos 1930. Muda algo nas vestes, mas é a mesma textura, também sob clichês e álibis para defender grupos terroristas que usam a violência por um califado obscurantista varrendo os judeus do caminho (se formos à essência, não é diferente dos nazistas com seu objetivo de arianizar o mundo).
Em resumo, endosso quem tem dito que o Mundo precisa agradecer a Israel.
Creio que muitos esquerdistas, quando deitam a cabeça no travesseiro à noite, refletem sobre isso, mas acordam no dia seguinte endossando hipocritamente seus pares numa cômoda narrativa mainstream que não resiste a ponderações básicas sobre o mundo que realmente querem. Mas você sabe o poder que tem uma narrativa mainstream. O cara precisa ter muita personalidade para fazer uma transgressão com aparência conservadora. E dê-lhe maluquices pra negar a legitimidade milenarmente límpida dos judeus ao seu único e diminuto lar no mundo, onde podem ser quem são sem se sentir estranhos ou discriminados. Tem o velho clichê “até tenho amigos judeus”, tem a tokenização perversa denunciada em outros contextos, surgiu o inacreditável uso tipicamente fascistoide da palavra “vitimização” (contra judeu, tudo bem, né?). E, recentemente, andei vendo eventuais alegações (às vezes são sinceras e inclusive denotam apoio) de possíveis origens “cristãs novas” do sujeito pra supor um sui generis “lugar de fala” que curiosamente discorre sobre teses absurdas contra aquele que um dia teria sido o seu povo. Nada muito diferente de expressões desgraçadamente correntes como a do “negro bom”, do “é branco de pele negra”, do cara que “até convive com gays” ou, pasme, que contém nas veias algo de sangue africano, o que lhe permitiria fazer piada racista.
Enfim, o Mossad trabalha em silêncio, e aquele velhinho de olhos vívidos sob rugas de origens necessariamente secretas deu a dica, anos atrás: muito do que rola foge ao nosso conhecimento, e, por mais que lhe seja doloroso manter em segredo, assim deve ser.
O que sabemos? Que há indícios muito fortes de que os aiatolás, aquelas figuras medievais, estavam na iminência de ter armas nucleares, e essa combinação não fecha. Aiatolá não pode ter armamento de ponta, capaz de provocar o que eles desejam, assim como seria uma tragédia se os nazistas os tivessem. Nesse ataque ao regime iraniano há, portanto, o combo de urgência, alto risco acumulado e intenção manifesta de eliminar um país e seu povo. Se isso não fosse feito agora, as consequências claramente seriam irreversíveis. Os caras estavam muito próximos de produzir a bomba e iam enrolando em conversas ociosas. O que se sabe é que o volume de urânio enriquecido acumulado recentemente permite a produção iminente de dezenas de ogivas nucleares, conforme a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). Houve aceleração deliberada e clandestina dessa produção enquanto se desenrolavam os diálogos na superfície. Enquanto se negociava com os EUA, o regime acelerava seu programa com fins bélicos. As informações oficiais, as mínimas a que tivemos acesso, eram de que o Irã coordenava com Hezbollah, Hamas e Houthis um ataque contra Israel por terra, ar e mar, por norte, sul, leste e oeste. Estava chegando o ponto de não retorno, e ninguém iria querer isso, nem mesmo você, com seu implicitamente genocida grito de guerra “Palestina do rio ao mar”.
Os ataques israelenses são preventivos, não são uma provocação. E do outro lado há seres medievais que governam um país e pregam abertamente o extermínio de outra nação.
Claro está que não tinha outra.
Ou Israel deveria esperar a chegada do inferno atômico pelas mãos de bestas que se contrapõem a todas as conquistas civilizatórias de um mundo evoluído?
Enrole sua faixa tola e, também você, respire aliviado.
…
Shabat shalom!
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Foto da Capa: Reprodução de Redes Sociais

