
Há algumas décadas, assisti ao Roda Viva, programa que entrevistava um médico renomado. Em determinado momento, ele disse algo que me trouxe um certo alívio: a graduação é apenas a primeira etapa de uma carreira. A profissão e a vocação se constroem no compromisso diário de fazer e aprender. Depois, vêm os estudos de especialização, a pesquisa e o aprofundamento.
Ser um bom profissional é um processo. E isso precisa de tempo.
Na época, recém-formada, aquela afirmação me trouxe tranquilidade e aliviou um pouco a minha autocobrança.
Porque, afinal, queremos sempre melhorar.
Mas melhorar não significa apenas andar para a frente.
A medicina sempre me pareceu uma ciência fascinante justamente por isso. Ao ter como finalidade a saúde, precisa eventualmente rever procedimentos, abandonar medicamentos e modificar práticas que, em algum momento, pareceram corretas. O conhecimento também avança quando se admitem equívocos.
No urbanismo, temos experiências semelhantes.
Basta olhar para as grandes transformações de Paris promovidas por Haussmann, em meados do século XIX, ou para o projeto de modernização do Rio de Janeiro conduzido pelo prefeito Pereira Passos, no início do século XX. Em ambos os casos, intervenções profundas redesenharam a cidade, alteraram sua estrutura e modificaram a vida de seus habitantes.
Esses projetos faziam parte de uma tradição de intervenção urbana que circulou internacionalmente: o higienismo.
Ao longo do século XIX, a preocupação com epidemias, insalubridade, circulação do ar, abastecimento de água, esgotamento sanitário e condições de habitação ganhou força. As cidades precisavam responder a problemas sanitários reais, e as intervenções urbanas tiveram um papel importante nesse processo.
Mas havia outra dimensão nessa história.
A pobreza era frequentemente tratada como um problema de ordem urbana e sanitária, e não como consequência da desigualdade social e da falta de acesso à moradia digna. Os modos de vida das classes populares passaram a ser vistos, muitas vezes, como obstáculos à modernização desejada pelas elites.
No Rio de Janeiro, cortiços foram demolidos sob justificativas sanitárias, sem que fossem oferecidas alternativas habitacionais adequadas a seus moradores. Famílias foram empurradas para os subúrbios e para as encostas dos morros.
A cidade ficava mais moderna para alguns. Para outros, tornava-se mais difícil continuar vivendo nela.
Não se trata de negar a importância do saneamento ou das melhorias urbanas. Trata-se de reconhecer que uma intervenção pode produzir benefícios coletivos e, ao mesmo tempo, distribuir seus custos de maneira profundamente desigual.
As críticas ao urbanismo higienista ajudaram a tornar visíveis esses custos sociais e ampliaram o repertório de alternativas para intervir na cidade existente. Mas não eliminaram as remoções, a segregação ou a valorização imobiliária excludente.
Houve avanços na disciplina, mas não uma evolução automática dos resultados sociais.
A questão contemporânea não é simplesmente escolher entre demolir e preservar. É decidir como transformar a cidade existente, para quem, com quais instrumentos e garantindo a permanência de quem já vive nela.
Mais de um século depois, ainda aprendemos com esses processos. Buscamos alternativas para equilibrar, minimamente, as diferentes forças e demandas que disputam a cidade.
Não é simples.
É lento.
E os resultados, bons ou ruins, deveriam nos permitir refletir, reconhecer os impactos e melhorar os processos.
Mas, para isso, precisamos de espaços de troca ativos, nos quais diferentes perspectivas possam ser ouvidas e confrontadas. Um espaço em que nenhuma ordem, ideologia ou certeza se imponha acima de todas as outras.
Pensei nisso depois de assistir a um filme e a uma série que me impactaram por caminhos diferentes. Ambos retratam o que acontece quando uma ideia se sobrepõe a todas as outras, como se fosse uma verdade absoluta. Quando o diálogo desaparece, o pensamento crítico perde espaço e a discordância passa a ser tratada como ameaça.
Talvez eu tenha ficado ainda mais impressionada porque, nas duas histórias, há lideranças femininas que sustentam sistemas cruéis. Isso desconcerta uma imagem que, por vezes, associamos ao feminino como lugar natural do cuidado.
Mas nenhuma característica humana garante, por si só, a capacidade de cuidar. Mulheres também podem exercer o autoritarismo. E boas intenções, quando transformadas em certezas inquestionáveis, podem servir para justificar a crueldade.
O filme Aniversário retrata as consequências das divisões políticas dentro de uma família e a dimensão desproporcional que os conflitos podem alcançar quando já não existe espaço para o diálogo.
Já a série O Conto da Aia, baseada no livro de Margaret Atwood, apresenta uma sociedade que, diante de impactos ambientais que afetam a reprodução humana, aceita medidas totalitárias, impõe uma ordem moral rígida e divide as pessoas entre aquelas que merecem proteção e aquelas que devem ser submetidas.
Em ambos os casos, a promessa de corrigir um problema, restaurar uma ordem ou salvar a sociedade serve de justificativa para mudanças radicais, fanatismo e exclusão.
É uma espécie de higienismo social: a crença de que, para alcançar uma sociedade melhor, seria necessário eliminar, submeter ou silenciar aquilo que não se encaixa no modelo desejado.
E foi aí que as histórias se encontraram, para mim, com a história do urbanismo.
Não porque sejam fenômenos idênticos, mas porque revelam um mecanismo semelhante: a ideia de que existe uma ordem superior, uma solução definitiva, capaz de justificar os sacrifícios impostos aos outros.
Na cidade, foram os cortiços e seus moradores, tratados como obstáculos à modernização.
Nas sociedades autoritárias, são os grupos que não correspondem à ordem moral, política ou social estabelecida.
Muda o contexto. Permanece o perigo de acreditar que uma causa, por mais nobre que pareça, autoriza a eliminação da diferença.
E talvez a mensagem mais importante seja justamente aquela que anda banalizada por aí.
As palavras têm força.
Discursos de ódio e de exclusão não devem ser tratados como simples opiniões, provocações inofensivas ou exageros de ocasião. Quando repetidos, normalizados e incorporados ao cotidiano, ajudam a construir as condições para que a violência pareça aceitável.
As monstruosidades não surgem necessariamente de uma hora para outra. Podem começar com uma piada, uma generalização, a desumanização de um grupo ou a convicção de que determinadas pessoas não merecem os mesmos direitos que as demais.
Quando percebemos, o espaço para a reflexão já diminuiu. A crítica virou ameaça. O diálogo, sinal de fraqueza. E rever uma decisão passou a ser interpretado como derrota.
Voltando à medicina, talvez uma das maiores demonstrações de conhecimento seja justamente reconhecer os limites do que sabemos.
No urbanismo, também.
Nenhuma cidade se transforma sem conflitos. Nenhuma política pública está livre de consequências inesperadas. Nenhuma sociedade deveria abrir mão da possibilidade de rever seus caminhos.
Melhorar não é impor uma ordem perfeita.
É aprender a reconhecer quando o caminho escolhido está produzindo sofrimento, desigualdade ou exclusão. É ter coragem de rever decisões. É admitir que a cidade, assim como a sociedade, não pertence a uma única visão de mundo.
Porque, quando deixamos de questionar nossas certezas e passamos a justificar qualquer meio em nome de um suposto bem maior, todos podemos perder.
Se você também anda pensando sobre isso, escolha uma das indicações. Assista ao filme ou à série.
Permita-se refletir.
E, principalmente, não abra mão de questionar.