
Outro dia entrei no Instagram do meu escritório e encontrei, no feed, uma postagem feita pelo perfil de uma empresa de iluminação. A postagem parecia ter sido escrita pelo dono da loja e dizia que, por muito tempo, ele havia se abstido de manifestar sua opinião política, mas que agora não dava mais para segurar e tal, declarava apoio a Flávio Bolsonaro e defendia essa posição. Resolvi comentar a postagem, dizendo que, na minha opinião, uma empresa não deveria ter posicionamento político-eleitoral, que esse tipo de posicionamento cabia à pessoa física, e não à pessoa jurídica.
Alguns dias depois veio à tona aquele trecho da entrevista do técnico Renato Portaluppi, do Grêmio, após um Gre-Nal, quando ele foi perguntado sobre a soltura de seu auxiliar técnico, um dia após este ter sido preso preventivamente. O auxiliar técnico teria descumprido uma medida protetiva imposta pela justiça em função de suspeita de violência contra a ex-companheira. Renato respondeu incomodado e terminou dizendo: “É por isso que sou Bolsonaro”, encerrando abruptamente a entrevista e retirando-se do local. Apareceram também, nas redes sociais e na imprensa, imagens do recém-eleito governador do Rio Grande do Sul naquele mesmo Gre-Nal, em área reservada à comissão técnica gremista antes do início do jogo. Ele vestia uma camisa do Grêmio com o número 22 às costas, número dele mesmo e do candidato à presidência Flávio Bolsonaro. Seguindo no âmbito do futebol, a mesma rodada do campeonato brasileiro mostrou a cena de um grupo de jogadores do Vasco em frente às câmeras cantando, dançando e fazendo o “L”, em alusão ao candidato à presidência Luís Inácio Lula da Silva.
Durante o período eleitoral de 2022, presenciamos inúmeros casos de intolerância ideológica. Em muitos desses casos, podemos dizer que a intolerância se converteu em segmentação ideológica: prestadores de serviços e lojas passaram a ser boicotados em função de suas preferências, ou das de seus proprietários, por clientes e consumidores situados do outro lado do espectro político. Estabelecimentos chegaram a colocar cartazes em suas portas hostilizando simpatizantes do lado “inimigo” (utilizando aqui o termo preferido do presidente dos EUA, Donald Trump, para se referir a todos aqueles que não compartilham da sua ideologia). Essa segmentação ideológica seguiu se multiplicando. Ano passado, por exemplo, a porta de um frigorífico de Goiás apareceu estampada com a frase “petista aqui não é bem-vindo”. Este ano, o ator Paulo Betti encontrou dizeres semelhantes na fachada de uma loja em Bonito, no Mato Grosso do Sul, e divulgou em suas redes sociais. A placa dizia: “Proibida a entrada de petistas, inclusive clientes”. Recentemente, a hostilidade subiu alguns degraus e virou ofensa em uma loja de Campo Grande. Pouco antes do primeiro turno das eleições, a loja ostentou em sua porta uma placa com os dizeres: “Tenho nojo de petistas. Que se f#d@”.
O mundo está cada vez mais polarizado, e os polos opostos se fecham cada vez mais em bolhas. Como definiu Noam Chomsky, essas bolhas têm a característica de se autorreforçar, o que torna cada vez mais difícil furá-las e solidifica cada vez mais as ideias que as moldam. No mundo virtual, os algoritmos fazem com que o conteúdo que circula em cada bolha seja apenas aquele que a bolha deseja ver, já que isso causa mais engajamento e gera mais lucro às Big Techs. Na atual eleição, abra-se aqui um parêntese: estamos vendo que o interesse das Big Techs vai além do lucro, deixando clara a intenção de expandir o domínio da extrema direita pelo mundo… mas isso já é outra história.
A história sobre a qual proponho uma reflexão é a expansão dessas bolhas do mundo virtual para a vida real. Talvez possamos tomar como elo de ligação entre um mundo e outro as mídias de notícias. Antes da internet e das redes sociais, as notícias eram veiculadas somente por emissoras de TV, rádio, jornais e revistas. Os grandes veículos de mídia que dominavam a comunicação tinham um certo compromisso com a verdade e se diziam imparciais. Hoje, com os veículos de comunicação digitais, proliferam as mídias assumidamente de esquerda ou de direita. Ou seja, além do conteúdo selecionado pelos algoritmos, o membro da bolha pode escolher se informar apenas por meio dos veículos de comunicação pertencentes à sua bolha.
Expandindo para outros segmentos, podemos imaginar um mundo em que, cada vez mais, todos os nossos contatos físicos passem a ser realizados dentro de bolhas. A começar pelas amizades. Não é um tanto óbvio que nos sintamos mais à vontade com pessoas que compartilham da nossa visão de mundo? Antigamente, podíamos passar uma vida inteira sem saber o posicionamento político de uma pessoa com quem nos relacionávamos. Hoje em dia, com as redes sociais, é muito diferente: lançamos aos quatro ventos, que no caso são nossa rede de amigos virtuais, nossas preferências políticas e, muito frequentemente, nosso ódio a quem prefere o contrário. Podemos imaginar, então, um mundo em que iremos tomar uma cerveja somente com pessoas da nossa bolha. Onde o próprio bar e a própria cerveja – “A preferida do Bolsonaro”, por exemplo – serão voltados apenas para pessoas da bolha, e outros atenderão à bolha oposta. No comércio de todos os segmentos, haverá lojas para petistas e para bolsonaristas. No futebol e esportes em geral, teremos os clubes da direita e os clubes da esquerda. Escolas também serão de direita ou esquerda. Prestadores de serviços atenderão clientes somente da sua própria bolha. E assim por diante. As pessoas morarão em condomínios específicos para a sua bolha. Fico imaginando a propaganda de um empreendimento imobiliário voltado a clientes da extrema direita:
“Venha morar no Condomínio Residencial Cristão Vip. Aqui você estará livre de qualquer gentalha, pois o empreendimento é voltado exclusivamente ao cidadão de bem, pai de família, hetero e branco. Desfrute de ampla área de lazer com o nosso reservado ‘Brothel Space’ (espaço bordel), para que você possa trair sua mulher sem sair de casa. Sinta a liberdade: aqui você poderá humilhar o entregador de pizza à vontade, principalmente se ele for negro, sem o risco de ser denunciado por aquele vizinho politicamente correto chato.”
Pode parecer ficção científica, mas o crescente extremismo, radicalismo e a evolução da polarização tornam esse cenário bastante plausível. Aguardemos… ou descubramos a fórmula mágica para furar as bolhas.
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Eduardo Baldauf é arquiteto e mestre em Sustentabilidade e Gestão de Riscos.