Os ciclos de valores e ferramentas acompanham a humanidade desde que se é possível saber. Sociedades erguidas e derrubadas a partir de mitos e superstições. A agitação atual não muda o fato, mas amplia a gama de golpes sutis na boa-fé dos incautos. A esperança é que com mais informações os incautos diminuíssem, mas, de onde olho, não é bem assim. Muitas palavras da moda estão espalhadas por aí, vinculadas a eventos que até vencem, mas não convencem.
De uns anos pra cá aumentei bastante meus trabalhos voluntários e comunitários, em grande parte devido à minha aproximação do Coletivo POA Inquieta, que está capilarizado em praticamente todos os cantos e recantos de Porto Alegre. Mas isso é consequência de algo que considero uma característica minha de ver as pessoas como iguais, misturada a uma dificuldade quase biológica de compreender a segregação. Acima disso, a mania de questionar, que me leva a buscar nos detalhes as realidades que os slogans disfarçam.
Como exemplo básico, trago um grande evento de negócios importado, que acontece na orla da Capital. A ideia toda é bem organizada e a proposta de ser agregador é clara. O que me leva à pergunta: se você está há gerações sendo, literalmente, excluído da sociedade, se sentiria à vontade em um espaço onde só conseguirias dizer o nome se estudou no Yazigi ou viajou aos “states”? Estaria seguro de seu espaço quando praticamente toda a organização é ligada a quem historicamente te exclui da sociedade e da economia?
Eu ouvi respostas a essas perguntas sem fazê-las. Entre pessoas amigas, colegas de trabalho ou parcerias de ações coletivas, senti o constrangimento de minorias raciais, que elaboraram, inclusive, manifesto demonstrando seu descontentamento. Posso não sentir na pele problema, nem pretendo dizer que sinto, pois estaria me enquadrando na turma que acho que age errado quando pretende ser inclusiva, mas pra quem está atento às questões reais e não à beleza da vitrine, é triste o cenário
O que vi durante toda vida e um pouco mais a fundo nesses anos de imersão social, é a petulância de achar que incluir é trazer os outros para onde a gente está. Ter a certeza de que o que “eles” querem é estar onde eu estou, então vou ser legal e incluir eles. Seres humanos empáticos, altruístas, bem-intencionados, ativistas, engajados, conhecedores, que olham o mundo de uma sala fechada, na caverna de Platão, achando que os outros é que precisam de ajuda. A ajuda deles, claro, que chegaram lá e agora querem retribuir.
Outra feita teve um jantar para celebrar uma atividade inclusiva e vertical em um restaurante em um dos bairros mais nobres da Capital, onde o distanciamento de quem faz e de quem é “alvo” da benfeitoria foi gritante. Havia, claro, cortesias, pois incluir é pagar para ter o que eu acho que eles precisam. Lembro rápido o jogador de futebol Adriano “Imperador”, que é citado como a pessoa que foi milionária e “voltou” pra periferia. Como ser mais clara a incapacidade de compreensão sobre o que a vida do que isso?
Quando trabalhava na comunicação de um conhecido espaço cultural de Porto Alegre, recebemos um festival de teatro para pessoas com deficiência. Um premiado ator do nordeste brasileiro comentou em sua noite de estreia: “Não sou ator com deficiência, sou ator; e o que precisamos é estar na programação comum, em todos os palcos, não ter um festival para nós!” O sistema que criamos e vivemos é perspicaz, é comum fortalecermos e ampliarmos a exclusão com discursos inclusivos, como é o caso de criar espaço especiais para os excluídos.
Mergulho, de leve, nesse artigo em dois exemplos, mas as situações não acabam. Almoço beneficente de combate ao câncer com comida cancerígena (segundo a OMS); eventos ambientas financiados e abastecidos por agentes do desmatamento (o ambientalismo tem até um termo segregador todo seu, o inglês “greenwashing”); fortalecimento das mulheres para que elas possam continuar “ajudando” a resolver os problemas dos homens; eventos de acessibilidade onde cadeirantes são carregados no colo; mais e mais ações em territórios periféricos com nomes usando palavras em língua estrangeira. E tem as redes sociais, que merecem um texto a parte, essa festa privada onde pagamos com dados para vendermos nossas carências. Bah, e as religiões, quantas vidas teria eu de viver para falar delas todas?
A liberdade é uma luta constante, como disse a intelectual, e acho que existem vitórias e conquistas mesmo nas derrotas e nos campos minados pela exclusão sistêmica. Não tenho o direito que questionar as minorias que aguentam no osso a exposição na vitrine do inclusivo. Marcar o território é forte para quem a história dos vencedores deve. A questão é que não se pode acreditar em tudo, o que não é novidade para quem, há séculos, cria resistência a partir da falácia e dos slogans e títulos.
Mas enquanto há quem crê, há quem minta. Somos nós, os consumidores de produtos e ideias, que vamos mudar isso. A gente acaba um pouco excluído também, esperando sentado a ascensão e a queda tanto de quem fala como de quem não questiona. O preço de duvidar pode parecer caro, mas as minorias já pagam bem mais e não fazer parte dos apoiadores incautos, não tem preço
André Furtado é, por origem, jornalista; por prática, comunicador, de várias formas e meios. Na vida, curioso; nos Irmãos Rocha!, guitarrista. No POA Inquieta, articulador do Spin Música.
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