Não sei vocês, mas essa ideia de vivermos em permanente expectativa de inovação não me encanta. Esse desejo de que o dia de amanhã seja sempre diferente do de hoje, todo dia, a cada dia, é exaustivo. É tão bom acordar e encontrar tudo no mesmo lugar e lidar com as coisas da mesma forma que lidamos ontem. Nem digo na própria casa, mas no mundo lá fora. Reaprender, ou redescobrir como mexer nos aplicativos ou máquinas, as coisas que já fazíamos no automático tira tempo para outras atividades. Meditar ou contemplar, por exemplo. Ainda mais eu, que sou daqueles que gosta de perscrutar as nuvens – as de verdade, não as dos data centers.
A evolução tecnológica pode ser um engodo. Dou um exemplo. A qualidade da ligação telefônica por fio era muito melhor do que a que temos hoje com a tecnologia digital, seja móvel ou fixa. Normalmente, ouvia-se o interlocutor como se estivéssemos na mesma sala. Agora ligamos e religamos até por fim ficarmos num “hein? espera, repete, não ouvi…” E o que dizer dos corretores de mensagem que nos causam vexames piores que os da nossa ignorância?! A maldita conjunção e que sai sempre como verbo é. O que era para acelerar, retarda. Estamos numa corrida louca para chegar aonde?
E tudo isso em nome do quê? Melhorou a comunicação entre os humanos? Pelo contrário, não nos tornamos melhores como pessoas. O mundo nunca viu tanto narcisismo e ódio expostos, fazendo render dinheiro para poucos e ansiedade e depressão para muitos. Não me entendam mal, eu sou a favor de inovações, e até mesmo de algumas necessárias revoluções. O que discuto é a qualidade das iniciativas que nos chegam o tempo todo e não nos dão sossego. Como seria bom ouvir que vão ligar a Ilha da Pintada ao Centro Histórico por barco numa viagem de 10min, ou que vão implantar linhas de teleféricos para atender o Morro da Cruz e Santa Tereza entre outros. E que tal comportas eficientes para substituírem sacos de areia quando o Guaíba subir? O que não falta é necessidade de boas invenções para os velhos problemas da cidade! A lista é grande.
Vibrei, por exemplo, com o período que citei aqui na coluna anterior: os anos 90 de Porto Alegre. A gestão do prefeito Olívio Dutra soube aproveitar e dar sequência a um movimento de renascimento cultural que o Governador Pedro Simon iniciou investindo pesadamente na Casa de Cultura Mario Quintana. Estávamos culturalmente à míngua. Olívio inaugurou a Usina do Gasômetro e deu início à valorização do Centro Histórico, recuperando, entre outros equipamentos urbanos, o Mercado Público. Três edifícios que por pouco não foram demolidos.
Foram anos de uma cidade entusiasmada, com vontade de revolucionar o transporte público, a educação, a saúde, a pavimentação de ruas, a arborização e a implantação de praças. Todos conheciam e se orgulhavam da Agapan e do ecologista referencial José Lutzenberger. Passamos a ser exemplo para o mundo com o Orçamento Participativo. Ao natural chegamos no Fórum Social Mundial, talvez com a ideia ingênua que o sonho não tinha acabado… O fato é que pela primeira vez, no exterior, dizer que éramos de Porto Alegre, bastava. Entramos no mapa mundi.
Tenho na memória que ao andar pela cidade do centro à periferia eu percebia algo novo nas ruas: dignidade e respeito ao cidadão. Uma luminária diferente da outra em cada poste, asfaltamento mínimo, em sua largura, em ruas que nunca tinham visto isso indicavam uma vontade de atender maior que os recursos disponíveis. Cidadania era uma palavra nova para quem cresceu sob o manto da ditadura. Gostei dela.
Hoje, vejo exatamente o contrário. Uma cidade abandonada pelo poder público, depressiva, com olhos clementes ao capital privado: tenham piedade de nós, não nos tirem o sol, não privatizem nosso chão. Não sufoquem os trabalhadores em ônibus superlotados. É o que nos resta, já não temos olhos para a prefeitura, pois essa não assume o comando da cidade, só repassa para a iniciativa privada. E esta tem sido pródiga em invadir o espaço público com controle social, publicidade e luminosos que nos atordoam.
Os anos 90 foram mais vibrantes ainda porque os anos 80 tinham sido tão depressivos quanto agora, mas por motivos diferentes. O assunto dos porto-alegrenses, naquela década, era sobre quem estava de partida em busca de oportunidades longe daqui. Falava-se do próximo cinema que ia fechar, dos incríveis teatros Leopoldina e Presidente que encerraram suas atividades e tantas outras notícias tristes que minha memória, esperta, apagou.
Sei que hoje em dia toda a crítica é levada para o lado da polarização política, mas não é disso que estou falando. Na última eleição não vi nenhum candidato trazendo o sangue novo da esperança, com a pretensão de reacender a chama do é possível, vamos fazer. A virada de que precisamos não virá dos novos chips ou de edifícios alcançando o céu. Precisamos pensar em como consertar a cidade que foi transformada em chão de fábrica para negócios imobiliários. Em como planejá-la para seus cidadãos, todos, atendendo à vontade que se vê, cada vez mais, latente nos jovens em suas festas reprimidas (carnaval e outras), nos bares que ocupam alegremente as calçadas e no medo das emergências climáticas ameaçadoras que todos passaram a ter depois da inundação da cidade. Isto sim seria uma inovação bem-vinda.
Todos os textos de Flávio Kiefer estão AQUI.
Foto da Capa: Rafa Neddermeyer / Agência Brasil

