Ponha-se no seu lugar! — disparou um certo senador — homem branco, heterossexual e cisgênero — contra uma ministra do governo brasileiro — mulher negra, nortista, mãe, militante política e ambientalista.
Embora o bate-boca entre parlamentares seja mais comum do que se espera de tais representantes, a expressão utilizada traz à tona, mais uma vez, discussões urgentes sobre as relações de gênero e, neste caso específico, sobre o patriarcado — sistema social que reforça o comportamento masculino dominante; o machismo — sistema de crenças e comportamentos que sustentam a pretensa superioridade dos homens sobre as mulheres; a misoginia — ódio, desprezo ou aversão de homens contra mulheres; o racismo — discriminação pautada numa suposta superioridade racial; a heteronormatividade — crença que tenta impor a heterossexualidade como única orientação sexual legítima, natural e socialmente aceitável; e a cultura falocêntrica — ideologia que posiciona o pênis como centro da organização social e cultural, atribuindo-lhe maior valor que à vagina, e legitimando, assim, a suposta superioridade do masculino sobre o feminino.
Evidentemente, as definições simplificadas acima não dão conta da complexidade dos fenômenos sociais descritos, tampouco de seus desdobramentos e impactos na saúde mental, emocional e física das pessoas vitimadas. É sobre essa reflexão que me proponho a falar. Entendo que, por mais que alguns insistam em taxar esses debates como “mi-mi-mi”, afirmando que o mundo está chato demais ou que já não se pode fazer piadas, é essencial reconhecer o quanto essas formas de violência comprometem a saúde e a qualidade de vida das pessoas.
Não podemos esquecer que vivemos em um dos países com os maiores índices de homicídios contra mulheres: entre 2012 e 2022, 48.289 mulheres foram assassinadas no Brasil — dessas, 68% eram negras. Em 2023, registrou-se uma média de 10 homicídios de mulheres por dia (IPEA; FBSP, 2024). Somos também um dos países com os índices mais elevados de assassinatos de pessoas negras (CESeC, 2024) e, em 2024, fomos apontados, pelo 16º ano consecutivo, como o país que mais mata pessoas transexuais no mundo — sendo a maioria das vítimas mulheres trans e travestis, jovens, negras e nordestinas, com crimes frequentemente marcados por extrema brutalidade (ANTRA, 2025).
Portanto, não se trata aqui de banalidades ou caprichos de “politicamente corretos”, mas de fenômenos sociais que se consolidam como problemas de saúde pública. Para além das sequelas físicas, a violência — em suas muitas formas — atinge diretamente a estruturação da personalidade, a construção da identidade (Pinheiro, Junior e Mota, 2025) e a formação da autoestima (Souza Neto, 2020) das pessoas afetadas.
No livro Humilhação Social: um problema político em psicologia (1998), José Moura Gonçalves Filho, professor da USP, analisa os impactos da humilhação social à luz de Marx e Freud. A partir de uma perspectiva marxista e psicanalítica, ele demonstra como essa modalidade de angústia, disparada pelo enigma da desigualdade de classes, é determinada tanto por fatores econômicos quanto inconscientes. Assim, a humilhação social é um fenômeno psicológico e político.
O sujeito humilhado encontra-se impedido de exercer sua plena humanidade — algo visível em seu corpo, gestos, imaginação e voz, bem como em seu entorno: trabalho, bairro, escola, relações. Como afirma Gonçalves Filho (p. 6), a realidade da sociedade de classes, atravessada por desigualdades políticas, constitui um ciclo de mensagens traumáticas e enigmáticas. Crianças pobres, por exemplo, frequentemente se chocam ao ver a mãe sendo obrigada a entrar pelos fundos do prédio onde trabalha como doméstica, ou ao observar o pai calado diante da brutalidade do patrão.
Quem de nós nunca testemunhou situações semelhantes, em que as relações de poder se revelam profundamente assimétricas? Seja por hierarquia, poder econômico, gênero, raça, etnia, orientação sexual, local de origem, nacionalidade ou capacidade física, cognitiva ou mental, essas relações assimétricas de poder definem lugares para diferentes grupos de sujeitos. Então, como explicar para as crianças essas demarcações sociais impostas? E mais perverso ainda, não seriam nossas próprias explicações já moldadas pelas determinações do sistema econômico e produtivo, introjetadas coletivamente e convertidas em “realidades culturais”?
Gonçalves Filho (1998) destaca que a divisão política está entre os fatos mais sobredeterminados da história: permeia a economia, a cultura, a tecnologia, as ciências, o trabalho, as artes, a arquitetura, a religião, a filosofia — estando presente nas casas, nas ruas, nas escolas, nos hospitais, nos presídios, nos restaurantes, nas palavras, nos gestos, nos símbolos e até nos sonhos.
Assim, considerando nossa origem colonial, não é difícil perceber que a humilhação vivenciada por tantas brasileiras e brasileiros não nasceu ontem. Práticas e discursos como os daquele senador são apenas releituras de uma ideologia antiga, vendida como norma universal: uma falsa ideia de superioridade que se perpetua sob novos figurinos.
A angústia vivida por pobres, negros, nortistas e nordestinos, indígenas, mulheres, pessoas LGBTQIA+, pessoas com deficiência — e tantos outros grupos marginalizados — funciona como reguladora da subjetividade. Desde a infância, essas populações convivem com formas sistemáticas de violência e negação de direitos, e sofrem com o impacto de uma mensagem implícita, mas constante: você é inferior. A humilhação é, então, introjetada e fossilizada como algo a ser suportado. Resta-lhes, muitas vezes, a resignação e a submissão.
Por outro lado, o enfrentamento à subjugação das classes faz de alguém um rebelde, um perigo à ordem, passível de punição. Assim, quando dizem “ponha-se no seu lugar”, ainda que não haja mais o pelourinho em praça pública, o comando é o mesmo. Muda-se o cenário, os figurinos, os personagens — mas o roteiro permanece. “Sabe com quem está falando?” é apenas a versão contemporânea do “curva-te diante do senhorio”. E então, em que lugar deve se colocar uma mulher negra, nortista, ambientalista, ainda que ministra?
E, assim como ela, quantos de nós nunca ouviram um: “Reconheça sua classe”, ou “Quem você pensa que é?”. Quem nunca foi silenciado na infância com frases como “isso não é para você”. Quantos sonhos foram podados por um “não sonhe tanto”? Quem nunca sentiu o peso de frases como: “Quanto mais alto o voo, maior o tombo”; “não queira abraçar o mundo com as pernas”; “ninguém pediu sua opinião”; “isso não te compete”; “recolha-se à sua insignificância”; ou ainda: “reconheça o seu lugar”?
E aqui cabe a reflexão: até que ponto essas expressões rotineiras impactaram a estruturação do seu Self? Como esses mecanismos de controle social afetaram sua autoestima e a forma como você constrói sua identidade? Como reconhecer as próprias competências após anos ouvindo que se está sempre fora do lugar que “deveria” ocupar?
Na prática clínica, tenho constatado prejuízos profundos ao longo do ciclo vital de meus clientes. Os impactos são visíveis nos sentimentos de desvalor, não pertencimento, baixa autoconfiança e paralisia diante das decisões. Em casos mais graves, há dificuldade até mesmo de saber quem se é ou deseja ser. Essas são marcas de infâncias e adolescências vividas sob estratégias de controle, impostas por instituições como família, escola, igreja e Estado — que atuam como vetores de naturalização das desigualdades.
A experiência tem me mostrado que, no processo psicoterapêutico de desconstrução e reconstrução de si, é fundamental refletir sobre as mentiras que nos contaram sobre nós mesmos — e que, muitas vezes, tomamos como verdades. É preciso libertar-se das crenças impostas, dos limites traçados, dos lugares em que tentam nos prender. Só assim é possível escolher, conscientemente, onde queremos estar. Afinal, para alguém tentar me pôr em um lugar, ele precisa primeiro dizer de onde fala. E esse lugar, para mim, nunca será tão diferente do meu: o de sujeito consciente de seus direitos — sociais, políticos e constitucionais.
Portanto, o Brasil precisa urgentemente de mais Marinas da Silva!
Notas:
ANTRA. Dossiê: assassinatos e violências contra travestis e transexuais brasileiras em 2024 / Bruna G. Benevides. ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transexuais) – Brasília, DF: Distrito Drag, 2025.
GONÇALVES FILHO, José Moura. Humilhação social - um problema político em psicologia. Artigos originais. Psicol. USP 9 (2), 1998.
IPEA. Atlas da violência 2024 / coordenadores: Daniel Cerqueira; Samira Bueno – Brasília: Ipea; FBSP, 2024.
PINHEIRO, Weider Silva; JUNIOR, Valdir Barbosa; MOTA, Simone Fraga. Violence and its psychological effects: an analysis of mental health in high-risk contexts. Revista Caribeña De Ciências Sociales, Miami, v.14, n.3, p. 01-15. 2025. ISSN 2254-7630. DOI: 10.55905/rcssv14n3-014.
RAMOS. (Org.). Pele alvo [livro eletrônico]: mortes que revelam um padrão / Silvia Ramos [et al.]; ilustração Albarte. – Rio de Janeiro: CESeC, 2024.
SOUZA NETO, Epitacio Nunes. Violência sexual: impactos sobre as autorrepresentações do self. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Psicologia, Universidade Federal de Pernambuco – UFPE, 2020.
Epitacio Nunes de Souza Neto é psicólogo, psicoterapeuta e professor universitário. Possui doutorado em Psicologia Cognitiva pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e Doutorado em Psicologia pela Universidad del Salvador (USAL) de Buenos Aires, Argentina. Possui também mestrado em Psicologia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).
Todos os textos da Zona Livre estão AQUI.
Foto da Capa: Reprodução do Youtube.

