Li num texto do Umberto Eco, lá dos anos 1980, uma bela relativização do pavor humano pelos avanços tecnológicos. Eco sendo Eco. Ou seja, maravilhosamente lúcido. Ele fazia alguns questionamentos. Tipo: a invenção da roda levou o homem a parar de caminhar? O texto escrito arquivaria os idosos, que não precisariam mais testemunhar a História uma vez que ela estaria registrada sem a necessidade de alguém que a revele oralmente?
Já vimos muitas adaptações do ser humano a novas e fantásticas ferramentas. Peço perdão pela crueza com que digo isso, mas às vezes o alarmismo cansa. E aqui vai uma homenagem ao incontornável gênio Verissimo. Cada um tem dentro de si um “Dudu, o Alarmista”. Veja o futebol. A cada rodada, o cara morre e depois renasce eufórico.
Quando falamos de veículos de comunicação, meu Deus, o que poderia ser mais ameaçador do que a imagem da TV pro rádio e, muito em especial, pro cinema. Quando a computação foi popularizada e surgiu a internet, vi gente desesperada porque não escreveria mais seus textos nas laudas datilografadas em máquinas manuais. Quanto drama!
Sobre o jornalismo, aliás, fomos da parede da caverna à tela do telefone celular. Ok. Diferenças de forma. Mas o que importa é o conteúdo, você ainda não percebeu isso? O acesso mais fácil e a simplificação do veículo não alteram o que ele conduz. O que pode é aumentar a sua rapidez e o seu alcance. E quem pode ser contra isso?
Quando falam na ameaça da Inteligência Artificial, lembro a chatice que é a cada vez que o corretor ortográfico, na sua suposta perfeição, estraga uma mensagem trocando a palavra que quero usar. Por exemplo, quando enfia um acento no “e” que quero que seja uma conjunção aditiva e não o verbo ser no presente. É “ele e ela”, máquina xarope, e não “ele é ela”. E periga ainda o troço me sentar num “assento” quando quero só um acento.
Fico intrigado quando mando uma mensagem pro meu amigão Marcos Bliacheris, o “Xixa”, e a máquina, por conta e risco, sapeca um “Xuxa”. Parece que ela lê os meus mais antigos desejos de fazer contato com a Xuxa. E o Xixa, que tem o filho Amir e às vezes se dirige a ele como “Amor”? Convenhamos que a IA assusta ao traduzir a nossa alma.
Mas, pessoal, ela é só uma ferramenta. Não é um bicho que vai nos engolir. Nada, absolutamente nada, substituirá as nuances, a sensibilidade e a picardia humana. A IA não entende ironia. Dei risada com a piada de um cara que perguntava pra IA se ela conhecia o Mário. Hmmm. Nem fui conferir, mas ela já deve ter incluído o armário na sala.
O que a IA proporcionará ao homem, estou certo disso, é a diminuição da sua inteligência enciclopédica pelo gradual aumento da sabedoria. Sacam a diferença, né? Nem todo inteligente é sábio. E que bom termos um banco de dados disponível ao toque do dedo indicativo. Quanto tempo já desperdicei em penosas pesquisas no arquivo do jornal.
Em outras palavras, ao tornar homens e mulheres mais sábios e menos reféns de um banco de dados interno, o torna mais humano e menos máquina. Percebem a ironia? O troço nos empurra pra sermos melhores. Estou desdenhando da memória? De jeito nenhum. É a inteligência que nos internaliza um algoritmo orgânico muito refinado pra abrir janelas.
O professor Felipe Buchblinder, da FGV, cita Oscar Wilde (“As pessoas sabem o preço de tudo, mas o valor de nada”) e diz: “Para entender quais empregos correm risco de extinção e quais resistirão, é preciso ir além das descrições formais e considerar a realidade sociotécnica do trabalho, em que o valor não está apenas no produto final”.
E segue o professor, mestre em Ciências de Dados: “Ter um consultor que dedica horas para entender um problema específico, um médico que responde com paciência a cada pergunta, um assessor que analisa detalhadamente os investimentos de um cliente – tudo isso tem um valor que a IA, por mais avançada que seja, não consegue reproduzir”.
Precisa definição do que é a vocação humana, menos enciclopédica e mais sábia. Mas, evidentemente, a mudança requer alguns cuidados. “O que hoje é vendido às pessoas como inteligência artificial, por enquanto, ainda é uma forma muito sofisticada, avançada e complexa de pirataria”, disse o escritor Laurentino Gomes em entrevista pra Folha de S. Paulo. É o nosso conhecimento enciclopédico que alimenta a IA, e precisamos ter sabedoria pra nos proteger dessa usurpação nada ética (IA não tem ética).
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Seria outra “janela” abordar como tudo isso afeta o jornalismo, a minha linda profissão, cada vez mais incontornável na medida em que a falsidade culposa ou dolosa corre solta, livre e veloz pelas redes alucinadas, desreguladas e monitoradas por ignorantes, dogmáticos ou simplesmente burros e/ou levianos e/ou maus. Por ser tema central a respeito do contexto que estamos conversando aqui, a informação confiável e segura sempre será essencial e cada vez mais necessitada das humanas sensibilidade, sabedoria e ética, com nuances e até com eventuais erros que não mudem o sentido e simplesmente mostrem a nossa condição (os Beatles já fizeram obras-primas a partir de distorções, sabia?). Uma “commodity”?! Espero que sim, por que não? E de valor imenso. Rentabilíssima! Urgente e rara! A busca da verdade certificável (ou do que mais próximo podemos estar dela) é inesgotável. Mudou a forma de fazer? Sim! Mudaram atividades que já são desnecessárias na elaboração (você talvez nunca tenha ouvido falar em “copidesque”), a velocidade, o lucro e até a maneira menos formal de contar, mas a certificação do fato veiculado com qualidade e credibilidade sempre será humana.
Com muita sabedoria, acharemos o nosso caminho. Sem desprezar a ajuda da IA.
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Shabat shalom!
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Foto da Capa: Gerada por IA.

