A estatística é uma ferramenta matemática essencial na saúde para quantificar fenômenos, estabelecer relações e fundamentar a tomada de decisões clínicas.
Com os avanços da Inteligência Artificial (IA), a estatística se transforma e se amplia de forma infinitesimal. A IA, em sua essência, utiliza métodos estatísticos e a teoria da probabilidade para aprender com dados. Essa integração se tornará cada vez maior, a estatística como a base teórica e a IA, com recursos computacionais ainda mais avançados.
Caberá ao profissional de saúde aperfeiçoar-se na “arte de interpretar estatísticas ao paciente”. Essa arte permite que o paciente entenda as opções de tratamento, riscos (taxas de sucesso, riscos de procedimentos e prognósticos) para que possa fazer as melhores escolhas de acordo com seus valores, o que se denomina tomada de decisão informada.
A transparência e a clareza dessas informações constroem confiança e acolhimento, fortalecendo a relação profissional-paciente. Compreendendo melhor o racional que norteia o tratamento, o paciente torna-se mais propenso a segui-lo: a bem-vinda adesão.
Uma interpretação cuidadosa ajuda a diferenciar riscos reais de eventos menos prováveis, reduzindo ansiedade e medos.
Há técnicas para tornar essa arte da comunicação estatística eficaz. “Os profissionais de saúde devem adotar as seguintes práticas: conhecer o básico de estatística (conceitos como média, mediana, risco relativo e intervalos de confiança), o que ajuda na correta interpretação das evidências científicas; usar linguagem simples e evitar jargões, traduzindo termos técnicos e usando analogias; buscar a contextualização dos dados, apresentando-os de forma relevante (por exemplo: “1 em cada 100” em vez de “risco de 1%”); utilizar recursos visuais (gráficos ou tabelas simples) para ilustrar probabilidades; praticar a escuta ativa, ouvindo atentamente os medos do paciente; estabelecer um plano de cuidados compartilhado, definindo o tratamento em diálogo; e validar sentimentos, demonstrando empatia e acolhimento (vale dizer que “é normal” que se sinta preocupado).”
Em suma, a habilidade de transformar dados complexos em informações claras e compreensíveis para o paciente permite a tomada de decisões compartilhadas e melhores desfechos. A interpretação estatística é uma competência clínica fundamental que une o rigor técnico-científico com a empatia e a clareza na comunicação, sendo um pilar da medicina centrada no paciente.
É verdadeiramente uma arte. Sobre a força implacável dos dados e a ironia que eles podem carregar, vale citar um pequeno poema, intitulado “Um estatístico para o seu amor”, de Peter Goldsworthy. O médico e poeta, nascido na Austrália em 1951, aponta, com alguma acidez, que muitos profissionais acabam se tornando chatos, de tanto se valer de fatos sem enxergar nuances. Ele procura acalmar seus amigos (e amantes), embora possa até assustar pacientes com os fragmentos de dados que caem das mesas dos epidemiologistas.
“Homens matam mulheres em quartos, geralmente
à mão ou com arma de fogo. Mulheres matam homens,
com menos frequência, em cozinhas, com facas.
Não se alarme, há compreensão
a ser extraída de todos esses fatos duros
e ósseos, ou pelo menos um senso
de simetria. Homens afogados – um
exemplo – flutuam de bruços, mulheres para cima.
Mas mulheres, em chamas, queimam com mais intensidade.
No campo de extermínio, as piras eram, portanto,
sensatamente, mulheres e crianças primeiro,
uma espécie de lenha oleosa. Os homens
eram empilhados em fileiras no topo. Sim,
sempre há lógica no mundo.
E organização. E o conforto
do fato. Já mencionei que os suicídios
superam os homicídios? Os dados recentes
são confiáveis. Então, fique mais um pouco
comigo: a pessoa a evitar, sozinha,
é principalmente você mesmo.”
Como disse o escritor americano Samuel Langhorne Clemens (1835-1910), melhor conhecido como Mark Twain: “Os fatos são teimosos, mas as estatísticas são mais maleáveis”. Tudo se abranda quando não se está só.
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Foto da Capa: Gerada por IA.

