Esqueça a lógica empresarial. Estou falando do Jornalismo em si como profissão e arte (é assim que o vejo) e seu futuro. Como pode ser empacotado pra se tornar lucrativo tal qual já foi? Ah, bom, aí é mais do que uma dúvida, é uma questão que passo 24/7 tentando resolver e, definitivamente, não me considero capaz.
Mas voltemos à atividade: há diversos elementos que amparam a minha opinião. E vou pontuá-los como faz meu querido amigo Pedro Gonzaga em seus ótimos textos. É uma forma inteligente de organizar as ideias.
1 ) Se o Jornalismo já foi essencial porque as pessoas precisavam se informar, hoje a urgência, por incrível que pareça, é ainda maior. Se antes o problema era a ausência de informação, hoje é a falsa informação a ser refutada. É como na matemática. Temos o zero ou o número negativo. Pra torná-lo positivo, a soma a partir do zero requer um número menor que diante do negativo.
2 ) O Jornalismo precisa agir como o cara que tem um papo reto, é sincero, franco, direto. Como dizia o saudoso Alceu Collares, “sem Gre-Gre pra dizer Gregório”. Por isso, a crise do excesso de academicismo até fortalece os jornalistas, uma vez que a atividade jornalística deve ter como premissas pétreas contar bem uma história que seja uma verdade verificável.
3 ) Essa “verdade verificável bem contada” é como a frase de ouro na religião: “Não faça ao outro o que não queres pra ti”, dizia o sábio Hillel. O resto, ainda parafraseando Hillel (não por acaso o “sábio dos sábios”), é interpretação e tem diversas formas de elaboração. O talmudista Hillel dizia isso da Torá, e eu o uso como eterna e permanente fonte pra dizer que Jornalismo é contar bem uma verdade verificável, a mais próxima da nem sempre possível objetividade.
4 ) “Nem sempre possível” porque às vezes é. Acredito muito na verdade objetiva e na isenção porque acredito na sinceridade e na honestidade intelectual. Quando assumi o meu time de futebol ao escrever meu primeiro livro (“Coligay, Tricolor e de todas as cores”), eu já intuía a necessidade de uma transparência radical pra conversar direto com o receptor e no livro como uma plataforma possível pra transmitir conteúdo diante da crise dos jornais.
5 ) Quando falo da “verdade verificável bem contada” como cláusula pétrea e essencial, relativizo algumas outras, e isso em tese é problemático, mas ao mesmo tempo está na linha de um atual questionamento do excesso de academicismo. Uma relativização que faço é a de algo que costuma ser tido como pilar básico do Jornalismo e que eu realmente contesto que seja necessariamente presente em uma reportagem que busca contar a verdade.
6 ) A que me refiro, por exemplo? “Ouvir o outro lado”. Não, pessoal. Não é sempre essencial. Tempos atrás, vi uma reportagem de três páginas em jornal comprovando que a Terra é redonda. Fiquei chocado. Pensei: que pauta é essa em pleno Século 21? Em seguida fiquei ainda mais chocado porque me dei conta de que era uma pauta necessária (!!!) nos tempos distópicos que vivíamos. Mas o constrangedor foi ver o repórter buscando um maluco terraplanista pra ter o “outro lado”.
7 ) Rejeito o “outro lado” pra ouvir um terraplanista, um antivacina, um racista (entra aí o antissemita, evidentemente), um homofóbico, um ignorante nas infinitas vertentes da ignorância. Ou seja, nem sempre é necessário o “outro lado”. Vejo até como um defeito. O autor do texto usa o “outro lado” pra se isentar de compromisso. “Olha como fui isento e democrático, ouvi o outro lado.” Não. Você usou esse suposto pilar como bengala, você foi preguiçoso. Você foi covarde. E Jornalismo, cada vez mais, requer valentia.
(que fique expressamente claro: NEM SEMPRE considero “ouvir o outro lado” necessário e muitas vezes considero até reprovável. O “nem sempre” tem peso aí. Há situações em que ele é, sim essencial. E esse uso da ferramenta deve se dar pelo bom senso da avaliação do repórter e do editor)
8 ) Muito antes de vivermos a atual onda de fake news tonificada pelas redes que empoderam ignorantes, eu já me insurgia nas redações contra a tentativa hipócrita de eventualmente equilibrar o que é desequilibrado. Não estou desdenhando completamente de ouvir o outro lado, claro. Mas frequentemente não vejo como essencial, e, ao contrário do que parece, a sua busca muitas vezes não é esforço, é preguiça de sustentar o fato objetivo.
9 ) Aí entra um dos motivos pra eu ver o Jornalismo como “profissão do futuro”. O fartão que as pessoas tomaram do excesso de academicismo combina com o Jornalismo que busca a verdade verificável e objetiva sem perfumarias retóricas. Refiro-me ao EXCESSO de academicismo com suas relativizações por vezes vazias e até distorcivas, e volto a enfatizar uma expressão pra evitar confusões com profissionais de outras áreas e formações, a quem respeito profundamente. O texto deve ser sempre elegante, de preferência um diálogo com o leitor, coloquial. Por vezes, literário e talvez divertido, mas profundo, buscando os porquês.
10 ) Me dava nos nervos quando, numa reunião de pauta, o repórter tinha uma baita história pra escrever e vinha o editor mala com uma das frases prontas mais asquerosas das redações. “Vamos problematizar a pauta.” Eventualmente, sim. Mas nem sempre. Até porque “problematizar” não é sinônimo de aprofundar (o que, aí, sim, é necessário). E as urgências dos tempos que vivemos não dão margem a “problematizações” teóricas chatas e frequentemente inúteis.
11 ) O Jornalismo deve ter compromisso com a verdade, e a verdade nem sempre tem ideologia. Percebam o encontro do Trump com o Lula, em que houve uma “química”. O que foi essa química entre políticos tão divergentes? É a praticidade do Lula forjada no chão de fábrica, capaz de unir diferentes à mesma mesa, e o Trump que junta Qatar e Israel pra estabelecer a paz. Vejam bem. Não faço juízo de valor dos dois. Mas imagino a reunião prevista pra este domingo na Malásia. “Companheiro Trump, vamos tomar uma cachacinha ali no balcão.” “Boa, my friend Lula. Tu viu as pernas daquela galega que tava passando ali?”
12 ) A “química” entre os dois é real, e ouso dizer que ela tem nome: é a praticidade, a simplicidade, a vontade de resolver sem teorizações excessivas, discursos vazios, dogmas, sectarismo e bordões que vão do nada ao lugar algum. É a busca da simplicidade na verdade verificável e pretensamente objetiva. O mundo dá sinais de que está “cansado de lero-lero”, como já dizia o rock’n roll da Rita Lee. E o Jornalismo está aí pra cumprir o seu essencial papel de pôr os pontos nos is.
13 ) A simplicidade e o papo reto vão salvar o mundo dessa poluição verbal em que nos metemos.
14 ) O olho no olho é a solução de uma enorme parte dos problemas.
15 ) O Jornalismo é o “olho no olho” e precisa aprender a simplificar a pauta.
16 ) Simplificar é aplainar o caminho.
17 ) A verdade é o caminho.
18 ) A verdade pode ser transmitida em linha reta.
19 ) Comunicar é unir.
20 ) A simplicidade pode ser sofisticada.
21 ) O texto de qualidade é o acesso, é a arte que salva.
22 ) O mundo fica muito melhor assim.
23 ) O Jornalismo radical em sua necessária e intrínseca sinceridade nos salva.
24 ) A verdade salva.
25 ) Shabat shalom aqui e agora neste ano de 2025!
26 ) Que o ano de 2026 seja de muita luz rumo ao futuro, porque comunicação sincera é afeto e amor.
PS: há um situação irônica e perversa na relação entre imprensa tradicional e influencers. Muitos desses caras não se importam em trabalhar com a informação responsável, ética, com credibilidade e qualidade. Querem grana, mufunfa, ganância. E o público da internet e das redes tem muito daquilo que o Eco avisava: são idiotas com voz. E ouvidos. Mas são muitos, talvez maioria. E adoram consumir porcaria. E dão audiência, e o influencer é alimentado pela audiência sem maiores preocupações, e a empresa jornalística vê nisso, com razão, a oportunidade de atrair os seguidores dos caras e, na carona, encampar o seu engajamento, que resulta em anunciantes e, ora, pra que currículos, talento e boa formação… E o Jornalismo, pobre Jornalismo. Mas sobreviveremos apesar de tudo, sobreviveremos porque somos necessários, somos lindos e incontornáveis, e, como ensinou o sábio poeta, eles passarão e nós passarinho. E, por todo o arrazoado acima, vejo o Jornalismo como profissão do futuro apesar das más influencers.
PS1: a vida tem situações meio misteriosas, que aparentemente vão além das meras coincidências. Escrevi o texto acima sem ter me dado conta de que neste 25 de outubro faz 50 anos a execução de Vlado Herzog, jornalista judeu de esquerda, torturado e morto pela ditadura militar. Foi pelas posições ideológicas e também por ser judeu, isso é voz corrente. Na morte de Vlado, o rabino Henry Sobel rejeitou a tese oficial completamente fajuta do suicídio e enterrou o jornalista pelos ritos usuais a não suicidas. Há tratamentos diferentes pra quem tira a própria vida. E esse gesto foi uma afronta ao regime militar. Muitos dizem que foi a primeira grande ação nesse sentido, o que é histórico e importante.
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