Sexta-feira, 17 de outubro, fim de tarde na Superquadra 112 Sul, em Brasília. A partida de vôlei dos amigos adolescentes é interrompida por outros sete adolescentes.
Um dos jogadores é abordado pelos recém-chegados com a exigência de entregar o celular e liberar o Wi-Fi. Ele nega e o aparelho lhe é arrancado das mãos. Os sete correm e ele vai atrás. Quer recuperar o aparelho.
O desfecho dessa história, que se repete assustadoramente Brasil afora, é a tragédia de mais uma morte estúpida e mais sete adolescentes engrossando a população de estagiários do crime nas unidades de recolhimento de menores infratores.
Ulm crime bárbaro. O jovem dono do celular foi esfaqueado no peito e morreu.
Poucas horas depois, a Polícia Militar apreendeu os sete fugitivos. O sistema de rastreamento do celular ajudou.
Eles vão se juntar aos mais de 700 adolescentes que cumprem medidas socioeducativas na capital do país. E aos mais de 10 mil que lotam unidades de internação no Brasil inteiro, segundo dados de relatório do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), referente a setembro e outubro de 2024. Cerca de 34% deles tinham 17 anos de idade na época da fiscalização.
Os menores foram presos no Paranoá, região administrativa de Brasília, que fica a pouco mais de 15 quilômetros da Praça dos Três Poderes. De lá, onde vivem perto de 50 mil pessoas, dá para ver o Congresso Nacional.
Pena que a atenção de boa parte dos parlamentares não ultrapasse os limites da praça imponente.
É bem provável que a grande maioria nem se toque da existência do Paranoá e seus arredores… Afinal, essa parcela do Congresso – engrossada a partir de 2018 – já tem preocupações demais: quer anistiar golpistas, vai aos Estados Unidos agir contra os interesses dos trabalhadores brasileiros pedindo sanções contra empresas e autoridades, já tentou até uma autoblindagem para nunca ser processada…
Como teriam tempo para os quase dois milhões de crianças e adolescentes que estão fora das escolas no Brasil? Ou para os 28 mil menores que, segundo o Instituto de Pesquisa e Estatística do Distrito Federal, em 2021, não tinham vagas nas escolas públicas? Eles estão, sempre, muito ocupados em criar problemas para o governo.
Como vão se preocupar em resolver os problemas das famílias desses jovens infratores?
Cadê tempo para os senhores parlamentares, preocupados em garantir isenção de impostos para as empresas de apostas, cuidar dos problemas de 63,1% das crianças e adolescentes de até 17 anos que, em 2019, quando eles tomaram posse no Congresso, viviam em situação de pobreza multidimensional?
O Paranoá é um desses pedaços do Brasil que não aparecem nos mapas dos interesses desse Congresso que o presidente Lula classificou como o “de mais baixo nível” destes últimos tempos.
Ah! O 17 de outubro é, desde 1992, reconhecido pela ONU como Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza. Uma homenagem a Joseph Wresinski, padre francês fundador do Movimento Internacional ATD Quarto Mundo, que lutava para que as lutas dos pobres fossem reconhecidas e suas vozes ouvidas pelos governos. Wresinski afirmava que os governos tendiam a ignorar a situação daqueles que viviam na pobreza, levando a sentimentos de rejeição, vergonha e humilhação.
O padre francês morreu em 1988. Ecos da luta dele batem nos ouvidos – de quem quer ouvir, é claro – como se fosse hoje, não?
Todos os textos de Fernando Guedes estão AQUI.
Foto da Capa: Paranoá / Acácio Pinheiro / Agência Brasília

