Como diria o grande poeta Castro Alves, baiano de nascença: “A praça! A praça é do povo, como o céu é do condor. É o antro onde a liberdade cria águias em seu calor!”
Foi assim que a voz de tantos poetas e poetizas e verdadeiros patriotas se transformou em gritos que invadiram as ruas do Brasil. O último 21 de setembro de 2025 entrou para a história nacional – assim como tantas outras importantes datas –, marcando uma demonstração de luta e compromisso popular com a Democracia. E, sim, falemos de Democracia com letra maiúscula, ressaltando a importância da força que emana do povo nas ruas e destacando o orgulho de ser brasileiro.
O urgente chamado das ruas foi ouvido, e o país se organizou rapidamente para protestar contra o [des]classificado “Congresso Inimigo do Povo”, que falha em cumprir sua principal função: representar o povo nos debates de interesse nacional. É para isso que são eleitos deputados e senadores. É para isso que pagamos altos impostos, oriundos de nossos minguados salários.
E, somente para esclarecimento, um deputado federal recebe mensalmente um salário bruto de R$ 46.366,19 (o mesmo valor do presidente da República, do vice-presidente e dos ministros do Supremo Tribunal Federal) ¹. Este valor corresponde a mais de 30 salários-mínimos, estabelecidos em janeiro deste ano no valor de R$ 1.518,00. O absurdo aumenta ao considerar que, além do salário, os que deveriam defender os interesses do povo ainda recebem: a) verba de gabinete, que pode chegar a R$ 133.000,00 para a contratação de até 25 assessores; b) cota para o exercício da atividade parlamentar (CEAP), destinada a passagens aéreas, combustível, serviços postais e manutenção de escritórios – com valores que variam conforme o estado; c) auxílio-moradia de R$ 4.253,00, ou a opção por apartamento funcional em Brasília; d) reembolso de despesas médicas e odontológicas não cobertas pelo serviço médico da Câmara – um “benefício” estendido também aos cônjuges e dependentes diretos².
Assim, não é necessário muito esforço cognitivo ou matemático para entender quanto custa aos cofres públicos a manutenção de 513 deputados federais (com proposta aprovada para 531 a partir do próximo ano) e 81 senadores. Apenas contabilizando os salários brutos dos dois cargos em questão, ultrapassamos a marca de R$ 27 milhões por mês. E são esses senhores que, descaradamente, aprovam, na calada da noite, a Proposta de Emenda Constitucional – a “PEC da Blindagem” –, que, em poucas palavras, amplia a proteção dos mesmos contra investigações e processos criminais e civis³. E não por acaso, são os mesmos que costuram estratégias mirabolantes para aprovar o Projeto de Lei (PL) que anistiaria os condenados pela tentativa de golpe, ocorrida em 8 de janeiro de 2023.
“Sem Anistia!”, “Contra a PEC da Blindagem” e “Sem Dosimetria para Golpistas!”, gritaram as ruas. E, para mim, é inegável a beleza dos cantos e cores que caracterizam nossa brasilidade. É mais que simbólico ver Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil novamente unidos em defesa da democracia. Ver Daniela Mercury e Wagner Moura agitando a Bahia. Atores, cineastas, jornalistas, poetas e tantos outros que compõem a classe artística, espalhados pelas grandes e pequenas cidades das cinco regiões. E, mais do que isso, ver milhões de brasileiros, de diferentes crenças, raças, etnias, identidades de gênero, classes sociais e ideologias políticas, unidos por uma mesma causa. Até porque, independentemente de “direita” ou “esquerda”, o verdadeiro patriota reconhece que um país só se constrói com democracia. Ela é a base da nossa liberdade!
Especificamente em Recife, foi lindo ver as ruas e pontes tomadas em marcha rumo ao Marco Zero. O sol quente, o calor dos aglomerados, o ritmo do frevo misturado aos batuques dos maracatus e afoxés. Tínhamos também os famosos bonecos de Olinda, abrindo alas na forma de uma bela e altiva “República Soberana”, tremulando a bandeira nacional. Sem falar nos ursos e no esplendoroso Dragão do “Acho é Pouco”. Como costumo dizer, o Leão do Norte rugiu alto contra os golpistas, revelando a disposição dos pernambucanos em defesa da democracia e da pátria. E, como resposta a um parlamentar, a meu ver, “desavisado”, deixo claro que aquele ato não foi um simples carnaval. Tratou-se de um ato político consciente. Nossos ritmos e danças, movimentos e comportamento festivo representam nossas falas. E não se enganem: nossa cultura é nossa maior força!
Contudo, lastimavelmente, como em qualquer grande manifestação, também estiveram presentes políticos sérios e oportunistas. Mais uma vez, esclareço que falo do que presenciei em minha cidade. Lá estavam políticos nada sérios, fazendo pedidos de desculpas e alegando terem votado errado. E me pergunto: qual é o verdadeiro papel de um deputado? Votar de forma consciente, alinhado com sua ideologia e com a população que representa, ou ceder à pressão de bancadas partidárias? Deve um deputado votar sobre o destino de um país sem o mínimo conhecimento sobre o que está aprovando? O que o leva a tal postura: falta de escolaridade, ausência de senso crítico, interesses pessoais ou um “rabo preso”? E, por fim, uma reflexão simples: merece esse sujeito se intitular representante do povo? Merece ainda ser reeleito? Somente as urnas de 2026 dirão.
Claro que, como diz o provérbio popular: “Toda ausência também é atrevida”. Porém, pelo menos em Recife, não vi a representação máxima do governo do estado ou da prefeitura. Compromissos pessoais? Medo? Incoerência com seus discursos? Inconsistência das pautas políticas defendidas? Ou oportunismo, como quem diz: “Vamos esperar para ver o que acontece”? Poucos políticos comprometidos verdadeiramente com as pautas em destaque compareceram, “deram a cara a tapa”, se juntaram aos seus eleitores, sejam da direita ou da esquerda. Mesmo que alguns, de forma equivocada. Mas, pelo menos, estiveram presentes. Então, reflito: não está na hora de cobrar mais transparência dos políticos? Afinal, quem fica em cima do muro ou se esconde assume o lado do regime instalado. Quem se omite na luta contra golpistas não parece tão culpado quanto quem comete o crime?
Por fim, não posso deixar de destacar a figura e a voz de Paula Lavigne, produtora e empresária carioca, que, com maestria, muito contribuiu para articular, em tempo recorde, este movimento de massa, que ficará para sempre na memória e história do povo brasileiro. E, recorrendo novamente ao nosso grande poeta, é sempre bom lembrar: “Ah! Não há muitos setembros. Da plebe doem os membros no chicote do poder. E o momento é malfadado, quando o povo ensanguentado diz: já não posso sofrer” 5.
Fontes:
(1) Senado Federal (consultado em 22/09/2025, as 15h46m)
(2) Câmara dos Deputados (consultado em 22/09/2025, as 14h21m)
(3) O Globo (consultado em 22.09.2025, as14h24m)
(4) G1 (consultado em 22/09/2025, as 14h29m)
(5) Vermelhor.Org (consultado em 22/09/2025, as 14h10)
Epitacio Nunes de Souza Neto é psicólogo, psicoterapeuta e professor universitário. Possui doutorado em Psicologia Cognitiva pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e Doutorado em Psicologia pela Universidad del Salvador (USAL) de Buenos Aires, Argentina. Possui também mestrado em Psicologia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).
Todos os textos da Zona Livre estão AQUI.
Foto da Capa: CUT-PE

