Um dia em Nova York (ou The Daytrippers, no título original) é uma comédia independente norte-americana lançada em 1996. Foi escrita e dirigida pelo então estreante Greg Mottola, que alguns anos depois se tornaria um dos nomes mais destacados da comédia mainstream (e besteirol) produzida nos Estados Unidos, com Superbad: é Hoje (2007). Curiosamente, o longa de estreia não parece ter muito a ver com o título que catapultou o nome de Mottola à fama. Superbad é o filme que deu início a um certo gênero de comédia que seria muito imitado, inclusive pelos próprios envolvidos no projeto, como Mottola, Seth Rogen e Judd Apatow. Já Um dia em Nova York é o típico produto agonizante dos rescaldos da explosão do cinema independente noventista do período, com filmagens de tom semidocumental em locação e diálogos longos e naturalistas (um ponto positivo para este filme em particular é que, ao contrário de muitos dos demais realizados no período, os atores dizem suas falas de modo inteligível, algo que era tão raro naquela onda que se cunhou o termo “mumblecore”, para identificar esse tom cru e mais naturalista dos diálogos que vinha junto com atores muitas vezes não profissionais mastigando e resmungando [mumble] as falas).
Como também era comum no cinema independente do período, a trama enfoca relações íntimas e familiares de pessoas sem nada de muito especial além da beleza de muitos dos seus protagonistas. Boa parte do elenco, aliás, trazia nomes que batiam ponto em praticamente todos os grandes lançamentos daquela onda. Uma esposa na casa dos 30, Eliza (Hope Davis), encontra certo dia uma carta apaixonada escrita por outra pessoa para seu marido Louis (o hoje muito popular Stanley Tucci, que parece não ter envelhecido um dia desde aquela época, o que, imagino, seja a vantagem de ser careca desde jovem). Sem chão pela descoberta do insuspeito adultério, Eliza vai até Long Island para mostrar a carta a sua muito unida (e um tanto inconveniente) família e pedir conselhos sobre o que fazer. A família é composta pelos pais Jim (Pat McNamara) e Rita (Anne Meara) e pela irmã mais nova, Jo (vivida pela mesma Parker Posey que todo mundo redescobriu com White Lotus, mas que já era uma das preferidas aqui da casa desde aqueles saudosos e mais ingênuos anos 90).
Jornada
A família põe pilha em Eliza para que confronte o marido e obtenha dele a identidade do seu cacho, e todos, pais, mãe e irmã, se põem em marcha por Nova York em uma perua, caçando o melífluo Louis em busca de uma explicação. Como ele sempre parece já ter saído para outro lugar quando eles chegam, a busca se estende por todo o dia numa jornada na qual os personagens interagem com estranhos divertidos e falam, falam muito, expondo as complexidades ancestrais do relacionamento familiar – a matriarca Rita é uma megera maldosa e nunca aprovou o casamento; a relação entre as irmãs é tisnada por um certo ressentimento de Eliza pela liberdade e inconsequência de Jo, etc. E, em um detalhe que guardei para este momento, outro elemento que contribui para a comicidade de muitas das cenas do filme é a presença na busca também do namorado que Jo levou para conhecer a família e que se viu engajado na busca, o estudante da Universidade Hampshire Carl Petrovic, vivido pelo sempre ótimo Liev Schreiber.
Embora procure realizar um casamento entre o texto ágil da screwball comedy que foi popular no cinema norte-americano dos anos 1930 e 1940 e o cinema andarilho e meio documental praticado pela geração que surgiu no fim dos anos 1960 e 1970, Um dia em Nova York não tem um roteiro que se possa chamar de sutil, e uma das grandes críticas que se pode fazer ao filme (ao menos é uma que eu faço desde os anos 1990) é justamente o quão esquemáticas são algumas das escolhas tomadas na produção para que elementos mais adiante sejam justificados.
Para pôr a trama avante e oferecer uma espécie de “diabinho no ombro” para as inseguranças de Eliza, a mãe, Rita, é escrita como uma insuportável megera. Na primeira parada da excursão, na editora em que Louis trabalha, Jô conhece e experimenta uma espécie de conexão romântica com um escritor mais velho e charmoso chamado Eddie, vivido por Campbell Scott (então o nome do momento, tendo feito em curta sequência papéis em filmes definidores daquela década, como Tudo por Amor, Voltar a Morrer, Vida de Solteiro e A Grande Noite – que ele também codirigiu com o já mencionado Stanley Tucci). Assim, para que a narrativa naturalmente se encaminhe para uma aproximação de Jo e Eddie ao fim do dia, é preciso que Carl, o namorado com quem ela está, seja um babaca. E, meus queridos, que grande babaca Carl é.
Carl é um estudante de uma universidade de elite que vive apresentando a todo mundo que comete o erro de perguntar a sinopse de um romance que escreveu, mas ainda não editou, uma espécie de fábula satírica surrealista na qual um rapaz nasce com uma cabeça de cachorro, vive uma vida de provações e certo dia perde a mão – o que ele resume como a grande “chave de leitura” existencial do livro. O rapaz do livro nasceu com a cabeça de um “pointer”, nome estrangeiro para a raça do nosso simpático “perdigueiro”. Quando perde a mão, ele se torna um “pointer who can not point“, ou um “apontador (pointer) que não consegue apontar”, uma frase que Carl diz aos desconcertados pais de Jo durante a viagem até Nova York, com o rosto iluminado de quem acha que encontrou uma imagem literária que vai persistir pelas eras da história. O homem-cão-maneta se torna famoso e passa então a advogar suas visões políticas, em sintonia com as do próprio Carl – já que outro elemento que informa a babaquice de Carl é seu modo de encarar a política.
Delírios de um aristocrata
Jovem, branco, matriculado em uma universidade cara, Carl é também um crítico contundente da democracia, para ele um regime falho que dá força política à grande massa despreparada e despossuída, pronta a ser comprada. Ele advoga como sistema ideal uma espécie de Meritocracia Aristocrática (na qual, claro, sujeitos como ele próprio seriam os grandes condutores dos rumos da sociedade). Em diálogos ao longo do filme, apresenta duas ou três vezes esse tipo de visão política e seus interlocutores, que incluem a própria Jo e, mais tarde, o escritor por quem ela parece estar se interessando, perguntam: “Mas nesse seu sistema, o que acontece com os pobres?”. Provando que suas trips intelectuais de cientista político amador são apenas delírio de uma jovem mente arrivista, Carl sempre trava quando a discussão chega nesse ponto, como se não tivesse uma real resposta (na visão apresentada pelo filme, ele provavelmente não tem mesmo).
Carl, como personagem, é uma caricatura tão exagerada que eu, assistindo ao filme nos anos 1990, achei algo difícil de acreditar. Não porque eu não conhecesse um ou outro exemplar naquela época exótico do jovem conservador elitista de direita, mas porque os que eu conhecia não costumavam ser tão estúpidos e tinham sempre algum outro tipo de argumento para apresentar quando postos diante de uma pergunta como essa – uma resposta que nunca endereçava o espírito da pergunta, mas que tangenciava o problema reforçando os aspectos do que ainda não se chamava tão amplamente de meritocracia.
Escrotidão despudorada
Mesmo entre a centro-direita daquele período, como o PSDB de Fernando Henrique, havia um discurso uníssono de que tudo o que estava sendo feito em termos de diminuição de gastos públicos e venda de patrimônio estatal era “para o bem comum maior”, permitindo mais investimentos “no que realmente importava”, como saúde e educação. Ou seja, por mais que estivessem contornando a questão, pessoas desse campo o faziam porque era feio simplesmente dizer a verdade subjacente em muitos desses argumentos: se o mercado regular tudo e você for um pobre sem nada que valha dinheiro em você, tem mais é que se ralar. Você pesa na previdência, e assistência social para alguém como você é sustentar vagabundo. Se bem que aqui no Brasil, especificamente, havia um ou outro entusiasmado com Reagan e Thatcher que talvez declarasse isso textualmente, mas era um tipo de posicionamento que não garantia a mínima viabilidade eleitoral e se equivalia à extrema-esquerda dizer que ia fuzilar a burguesia.
Um Dia em Nova York é um filme que sumiu do radar nos últimos 30 anos. Mas, curiosamente, o ponto de vista de Carl, o namorado mauricinho, babaca e egoísta com delírios intelectuais de grandeza, destinado a tomar um pé na bunda no fim do filme, parece ter criado raízes e vicejando como a mais frondosa planta venenosa. Hoje, claro, a mera existência do MBL, do Partido Novo e a proliferação de um bando de gente que advoga a visão política de um Brasil paralelo tornaram Carl não apenas um personagem crível como inevitável. É bem possível imaginá-lo, após ser chutado pela namorada, montando um podcast num estúdio com parede de concreto e mesa de madeira de demolição, explicando ponto por ponto suas visões de uma República de iluminados como ele, que são ignorados por escritores elitistas e gatinhas prepotentes etc., etc.
Já roubei aqui em outro texto uma frase boa do Luis Fernando Verissimo para comentar outro filme, bem melhor, Cosmópolis, adaptação cinematográfica de David Cronenberg para o romance de mesmo nome de Don DeLillo: “O dinheiro perdeu seu papel na grande narrativa do capitalismo que vem da acumulação primitiva de capital e da industrialização e chegou à globalização, e hoje é apenas um interlocutor de si próprio”.
Hoje são naturalizadas na política contemporânea, nacional e internacional, manifestações segundo as quais seria melhor zerar a presença estatal na sociedade, acabar com legislações trabalhistas, obliterar o SUS e deixar que o dinheiro siga seu curso e que o mundo seja governado por quem o tem (o modelo de plutocracia free style que Trump está tentando impor aos Estados Unidos é uma espécie de modelo desse tipo de projeto, assim como a cleptocracia da Rússia que sustenta a autocracia de Putin ou a dementocracia de resultados de Milei na Argentina). Vingado está Carl, o corno putativo, porque nas três décadas que se seguiram a sua humilhação discursiva, não faltam políticos e empresários com seu tipo de visão para responder em alto e bom som quando recebem a mesma pergunta a ele direcionada:
Os pobres que se fodam.
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Foto da Capa: Divulgação.

