“Chinelo branco, não. Onde já se viu? Negro de chinelo branco chama muita atenção.”
Carrego essa fala comigo até hoje…
Minha mãe dizia isso como quem conta um segredo antigo — com a calma de quem já mediu o mundo e decidiu que pouparia os filhos do afeto cru da exposição. Era conselho mascarado de dever, e eu obedecia.
Ela não dizia tudo. Não precisava. O que vinha depois — os olhares, os comentários, o passo que vacila — morava na sua pele como uma cicatriz que não se explica em palavras. Cresci ouvindo a sentença curta: não chame atenção. Aprendi a ouvir o medo dela como lição de sobrevivência.
O chinelo branco era pequeno demais para contar tudo — era, no entanto, índice de uma lógica maior: adote tons baixos, comporte o corpo, regule a alegria. Aprendi a traduzir o cuidado dela em prancha de contenção. Um cuidado que se fez uma cerca.
A interdição do chinelo branco era, portanto, uma metáfora silenciosa. O aviso de que existir em evidência podia custar caro. O mesmo aviso que molda tantas de nós desde cedo: alise o cabelo, fale de maneira comedida, não use roupa chamativa, sorria o suficiente — mas não demais.
Crescemos tentando caber. E o mercado apenas sofisticou essas molduras.
Mesmo quando chegamos lá — formadas, experientes, competentes —, o corpo negro ainda é convocado a se justificar. Somos vistas, mas nem sempre reconhecidas.
As pesquisas dizem o que nossas peles já sabem: mulheres seguem recebendo 21% a menos que os homens no setor privado. E quando o recorte é racial, o abismo se alarga — para cada real pago a um homem branco, uma mulher negra recebe sessenta e três centavos.
Esses números soam frios no papel, mas nós os sentimos cruelmente na alma: nas promoções adiadas, nas lideranças negadas, nas avaliações atravessadas por estereótipos. É a mesma lógica do “não chame atenção” — porém, agora, travestida de meritocracia.
Empreender para nós carrega esse peso. Não é apenas abrir portas: é atravessá-las com um corpo que tem história, mas que ainda é julgado silenciosa e maldosamente pela cor da pele. É mostrar competência quando a suspeita nos acompanha; é ganhar espaço e ainda ouvir o sussurro de que ocupamos demais. Em cada negociação, em cada apresentação, carrego a lição de quem me precedeu: cuidado. Mas essa cautela, herdada, às vezes estrangula a audácia necessária para transformar o jogo.
Ao me ver hoje — orientando mulheres a ocuparem os lugares que almejam e merecem, a trazerem raça e brilho a todos os ambientes onde estão presentes, a exigirem valorização justa do seu trabalho e conhecimento —, compreendo tudo o que faço como um ato de fidelidade à minha mãe. Não a fidelidade do silêncio, mas aquela que nos permitiu sobreviver para construir.
Minha mãe já se foi. Não viu o dia em que pus o tão temido chinelo branco — calcei de forma literal e metafórica: uma fala solta, um projeto ousado, uma inscrição sem medir o tom. Ela não escutou meu riso alto em reunião nem leu minha primeira nota de imprensa assinada com nome e cor. Não teve o luxo de testemunhar a reparação de quem cresceu por baixo de precauções.
Imagino, às vezes, como ela entenderia. Talvez sorrisse, com aquela mistura de alívio e espanto de quem sempre ensinou a se proteger e agora vê que a proteção virou ponte.
E é por isso que escrevo agora: para mim, para ela, para muitas de nós que vieram de mães que amaram com medo e que hoje aprendem a amar com liberdade.
O chinelo branco já não é ameaça: é insígnia.
Cada vez que uma de nós fala, ocupa, reivindica, ensina, cria, dirige, investe — é um par de chinelos brancos atravessando o asfalto da história.
Estamos aqui para reescrever o que o medo tentou editar. E se o mundo ainda se espanta com o nosso brilho, que aprenda a nos olhar sem baixar os olhos.
Angélica Silvino é estrategista de marca, relações-públicas, especializada em marca pessoal feminina e narrativas de posicionamento para mulheres. Fundadora da Signà Branding, atua como consultora e mentora de personal branding, ajudando profissionais a ocuparem espaços de poder com autenticidade, coragem e estratégia. @signa.branding
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